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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza": E a ciência com isso?

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2012 tem como tema "Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza".

Qual o papel a ser desempenhado pelas Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) na busca pela sustentabilidade, de uma economia verde e da erradicação da pobreza?

Quando se pensa em CTI, muitas vezes associamos com outra sigla: P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Desenvolvimento de novas tecnologias através da aplicação de conhecimento científico adquirido por meio de pesquisa.

Nesse sentido, é possível que as CTI tenham pouco a ver com a solução dessas questões. Por um motivo muito simples: não é necessário o desenvolvimento de *novos* projetos e tecnologias para acabar com a miséria e se atingir um sociedade sustentável baseada em economia ecologicamente correta e socialmente inclusiva.

Segundo levantamento do Banco Mundial, em 2011, em valores correntes, o mundo produziu US$ 69.993.693.036.451, quase 70 trilhões de dólares americanos. Segundo as Nações Unidas, em 2011, a população mundial deveria ser de 7.084.322.000 habitantes. O que corresponde a um PMB (produto mundial bruto) de US$ 9.880,08 anuais per capita ou pouco mais de US$ 820/mês (R$ 1.665/mês)  ou cerca de US$ 27/dia para cada pessoa. Não é muita coisa. Mas é muito mais do que ganham os miseráveis na definição da ONU e dos projetos sociais governamentais brasileiros (veja postagem anterior). Na verdade, está acima da faixa que o governo brasileiro define como Nova Classe Média, e, combinada em uma família de 3 pessoas, atinge a faixa B1 do Critério Brasil de Classificação Econômica.

Em temos alimentares, segundo a FAO, em 2010, o mundo produziu 2.744.973.554.000 kg de alimentos amiláceos (arroz, trigo, milho, batata e mandioca), pouco menos de 3 trilhões de kg. O que dá 387,5 kg de alimentos por ano por pessoa, pouco mais de 1kg de alimentos amiláceos por pessoa (se descontarmos o milho - usado intensamente na ração animal - teremos cerca de 735 g/dia por pessoa). Em termos de proteína animal, em 2010, a produção total (entre carnes, ovos e leites) foi de 1.024.528.037.000 kg ou 144 kg/ano por pessoa ou 392 g diários per capita. Não chega a formar uma dieta equilibrada. Por exemplo, a recomendação mínima de consumo diário para frutas, legumes e verduras é de 400 g/dia - em média para adultos -, mas a produção mundial corresponde a apenas cerca de 100g/dia por pessoa. Mas é o suficiente para suprir as necessidades energéticas e proteicas de todos os habitantes do planeta.

Em tese, não seria necessário gerar mais renda (nem mais alimentos) para os mais pobres. Bastaria distribuir a riqueza já existente. Claro que isso teria outras implicações.

E a sustentabilidade e economia verde? Somente essa distribuição teria, por um lado, um efeito de redução do impacto socioambiental. Nessa faixa de renda, as condições de moradia, saúde e alimentação são, óbvio, muito melhores do que nas condições de moradias improvisadas, sem saneamento básico. Mas não teria um efeito contrário também, já que uma renda mais elevada levaria a um maior consumo de recursos? Sim. Porém, como estamos trabalhando com redistribuição, haveria redução na outra ponta: consumo de superluxo e altamente supérfluos. De todo modo, pelo menos um estudo indica que a redução da desigualdade econômica está associada a um aumento nas emissões de CO2 (outro estudo detecta um padrão em U: em países altamente desiguais, a redução da desigualdade leva a uma diminuição da emissão per capita de CO2, já em países de baixa desigualdade, a redução leva a um aumento da emissão).

Contudo, hoje, já existem tecnologias testadas que reduzem a emissão de CO2 e consumo de matéria prima. Nos EUA, a energia eólica e hidrelétrica já são mais baratas do que a termoelética. A geotérmica também está no mesmo patamar. Um pouco acima, a energia de biomassa e ainda 50% mais cara, a energia solar (mas em tendência de queda no preço). Além da polêmica energia nuclear.

Considere-se ainda a questão da eficiência energética, que pode reduzir a demanda por energia em algo em torno de 30%.

Tudo isso com coisas que já existem e sabemos que funciona. Assim, as CTI são desnecessárias atualmente no contexto da obtenção da erradicação da pobreza com sustentabilidade e economia verde. (Mesmo a expansão da produção de alimentos e da riqueza para atender ao crescimento populacional é possível de ser obtidoa com as tecnologias atualmente existentes.)

Ou será que não? Na próxima postagem discuto outra abordagem a respeito do papel das CTI nessas questões. (Mas precisaremos alargar a visão da sigla para além da P&D.)

Upideite(17/out/2012): Continua.

2 comentários:

Alexandre disse...

Isso me lembra um estudo bastante conhecido, Pacala & Socolow 2004, que sugeria várias tecnologias "existentes" para se estabilizar as emissões anuais de carbono. Isso, em princípio, nos permitiria ficar abaixo dos cerca de 500 ppm de CO2 atmosférico.

Há vários obstáculos aí:

- entre as tecnologias "existentes", estão incluídas algumas ainda em fase de protótipo, sem confirmação em grande escala, como o sequestro de carbono.

- mesmo assim, implementar "wedges" o suficiente para estabilizar as emissões anuais exigiria uma coesão política internacional que não tem se mostrado real.

- Não é certeza que estabilizar emissões de carbono em 7 ou 9 GtC/ano seja o suficiente pra estabilizar a concentração atmosférica nos seus 500ppm. Há alguns feedbacks positivos à espreita, como o metano de permafrost.

- Não é certeza que estabilizar abaixo de 500ppm seja o suficiente pra evitar 2ºC de aquecimento ou, de novo, os feedbacks do ciclo de carbono.

- Não é certeza que 2ºC sejam, de fato, um limite "seguro"

- o estudo é de 2004. Essas dificuldades seriam verdade se as medidas pertinentes fossem tomas naquela época. Agora precisaríamos de algo mais drástico.

Falar disso me dá um nó no estômago...

Imposto sobre emissão de carbono, dedutível do IR, já.

none disse...

Salve, Alexandre,

Sequestro de carbono é mais complicado. Mas controle de emissões é tecnologicamente factível com mecanismos bem testados.

E, sim, quanto mais se posterga o início efetivo de ações mais amplas, mais a janela de oportunidade se fecha.

Valeu pela visita e comentários.

[]s,

Roberto Takata

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