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terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza": E a ciência com isso? - parte 2

Na postagem anterior, argumentei que, do ponto de vista de produção de riqueza e recursos suficientes para erradicar a pobreza dentro de um quadro ambientalmente sustentável, as Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI), entendidas no âmbito da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) podem ter pouco a contribuir - a simples aplicação de tecnologias já existentes e testadas seria o suficiente.

E sugeri que as CTI, indo além das P&D, têm um papel fundamental a desempenhar no alcance dos objetivos expressos no tema da SNCT2012.

Já se adiantaram nos comentários da postagem precedente: a questão da distribuição igualitária dos recursos soa utópica. Alexandre falando da questão de controle dos níveis de carbono atmosférico: "exigiria uma coesão política internacional que não tem se mostrado real."

É aí que entra o papel das CTI. E é aí que ela diverge da ideia convencional de P&D.

Eli Vieira, em outra postagem (sobre o papel das Ciências Sociais e Humanas): "Como estamos nos comportando como sociedade sob a influência das novas tecnologias da informação? Qual sistema econômico pode melhor atender o que nós prometemos fazer na Constituição? São perguntas difíceis, cujas respostas certamente existem, e é papel dos profissionais das ciências sociais tentar responder."

Talvez seja exagero de minha parte dizer que as CTI como P&D têm pouco a contribuir (novas e melhores linhagens de cultivares e raças de criação, tecnologias mais eficientes e menos poluentes...), mas as CTI como produtoras de tecnologias sociais têm um papel mais importante.

Certamente distribuir equitativamente a riqueza é uma utopia, mas o fato é que ela só precisa ser marginalmente mais bem distribuída para se erradicar a pobreza (dentro dos limites de 'pobreza extrema' com que se trabalha nos programas como da ONU e do governo federal).

Programas de transferência de renda são um tipo de tecnologia social - não exatamente nova na concepção, mas relativamente nova na sua aplicação massiva -, são também tecnologias sociais mudanças culturais no modo como nos relacionamos, nos hábitos de consumo, alterações na ordenança institucional e legal de modo a torná-las mais condizentes com os objetivos.

Para isso é preciso ainda entender que, de um lado, uma dicotomia do tipo: desenvolvimento x preservação ambiental é improdutiva; de outro, é preciso rechaçar também interpretações marotas de preservação ambiental (só para citar um exemplo, "parques" lineares) que facilitam a exploração econômica e inflam artificialmente parâmetros de conservação (como total de áreas "preservadas") e as falácias mais diversas que abriram os flancos para o ataque promovido sobre a legislação do Código Florestal em nome de uma "segurança jurídica" e de uma "segurança alimentar" que mais bem se traduzem por "segurança do capital" (atente-se para o fato de que não há uma valoração negativa do termo "capital" aqui, apenas a condenação da distorção de um termo para disfarçar outras intenções).

É papel das ciências - no sentido ampliado e aqui usado, que inclui as ciências sociais e humanas - equacionar a questão. Não é factível esperar que um dia desenvolva-se tecnologia milagrosa que permita as pessoas a tocarem suas vidas do modo como sempre tocaram sem as consequências danosas às dimensões socioeconômica, ambiental e institucional. Pode ser que ela se desenvolva, mas seria deixar o futuro largado somente ao lance de sorte. (A serendipidade pode ser colocada na equação, mas somente considerando-se uma taxa dentro de um prazo, prazo que não necessariamente temos.) Por outro lado, é pouco razoável esperar que as pessoas mudem drasticamente seus hábitos e abdiquem completamente de conforto material (sua manutenção ou aspiração a ele).

Seria pretensão demasiada querer apontar aqui qual a equação final, mas certamente um termo de compromisso com novas tecnologias - materiais e sociais - que facilitem mudanças de hábitos. Há precedentes limitados: no Brasil, a população respondeu bem por um tempo à necessidade de restrição do consumo de energia elétrica em função do gargalo da capacidade instalada em fins de 19982000; programas de controle de emissão de poluentes levaram à produção de motores mais eficientes com menor consumo de combustíveis e menor liberação de material particulado; uma moratória internacional de caça às baleias foi acordada (ainda que com burla de países como o Japão e a Noruega e a crescente pressão desses mesmos países em suspender a moratória); uma área internacional de exclusão econômica pôde ser demarcada em torno do continente antárctico; esforços internacionais permitiram a erradicação da varíola e controle de várias doenças humanas, animais e de plantas de interesse econômico.

Mesmo nessa versão expandida de ciências e tecnologia, elas têm limites. O principal é que a aplicação das tecnologias existentes, os esforços no desenvolvimento de novas, depende de haver um valor partilhado de compromisso com esses objetivos. O quão compromissados os líderes estão com os valores do documento "The Future We Want" e tais valores estão arraigados na mecânica política dos países é algo a ser determinado - que passem ao largo em debates políticos presidenciais é um indicativo negativo, porém.

Assim, uma outra expansão de sentido é necessária, incluindo nas CTI a política, não como política científica, mas (e já vejo aqui narizes sendo retorcidos e ouço fungadas de reprovação) a política como ciência (não, é bom deixar claro, no sentido da tecnocracia estrita, mas sim da orientação da formulação de políticas públicas a partir do que se conhece em ciências - incluindo as ciências sociais).

Upideite(17/out/2012): Parte dessas novas tecnologias sociais passa pela mudança da abordagem da questão (o que é, em si mesma, uma tecnologia social). Comentei acima que a dicotomia desenvolvimento x preservação é improdutiva. Um exemplo que ilustra a modificação da abordagem para uma explicitação de como o desenvolvimento depende da preservação ambiental é da International Conservation. Os serviços ambientais para a real segurança alimentar (qual seja, não apenas a garantia de lucratividade dos grandes produtores, mas sim a produção sustentável de alimentos de qualidade nutricional adequada e biológica e quimicamente seguros para a população a um preço acessível) devem ser enfatizados: polinização, fonte de água potável, proteção contra a erosão, controle de pragas... isso tudo e muito, muito mais é o que oferece uma floresta saudável em pé. (Link via @luizbento.)

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