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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cultura nerde e machismo

Um bochincho se formou em parte das redes sociais em função de um episódio do podcast Anticast a respeito do machismo que há em meio aos nerdes brazucas (a transcrição do episódio está disponível)**. No twitter muito da discussão está rolando sob a tag #AntimachismoNerd.

Não tenho condições de dar meus pitacos sobre isso por vários motivos:
1) não ouvi ainda o episódio referido;
2) não tenho familiaridade suficientemente profunda com a cultura nerde (sim, tenhos vários amigos que se identificam como nerde ou geek, mas não vivo nesse círculo - não sei quais são os últimos lançamentos de consoles e jogos, há tempos não leio quadrinhos de modo sistemático, nunca fui a convenções do gênero, não participo de fóruns sobre ficção científica e fantasia, há anos não jogo RPG, não coleciono cards nem pokémons, entendo quase nada de programação e menos ainda de ciência e engenharia da computação, não acompanho podcasts, blogues, videoblogs nerdes, etc, etc, etc - ok, quando minha internet permite assisto ao Nerdologia).

O máximo que posso fazer é dar meu posicionamento genérico contra o machismo, o sexismo e a misoginia em qualquer esfera. Não sei dizer o quão justa ou injusta são as alegações a respeito desta ou daquela personalidade da comunidade nerde do Brasil. E também trazer, talvez como elementos de apoio à discussão, o que diz a literatura acadêmica sobre o tema: sim, a questão do gênero na cultura nerde já é tema de análise científica (principalmente nos EUA) há cerca de duas décadas.

Sonnet Robinson, em sua tese "Fake geek girl: the gender conflict in nerd culture", defendida em junho de 2014 na University of Oregon, apresenta a cultura nerde como uma "subcultura dentro de uma cultura dominante". É uma subcultura na medida em que consiste de um grupo de pessoas com um modo de pensar, sentir e agir distintivo e que difere um tanto da sociedade mais ampla. É uma contracultura na medida em que, ativamente, rejeita certos aspectos da cultura dominante. Mas, qual a cultura dominante, apresenta um conjunto de "valores, símbolos, normas, práticas específicas de linguagens, sanções e hierarquias". Não difere de outras subculturas no policiamento (quase que exclusivamente informal) da associação à subcultura: quem tem o direito ou não de se dizer ou se identificar como nerde (na blogosfera filomática, p.e., há intensos debates e preocupações quanto a se se pode ou não classificar um dado blogue como científico ou não - ativamente, ainda que informalmente, rejeitamos blogues que identificamos como pseudocientíficos). Estando mergulhado em uma cultura dominante, não é de se surpreender que certos valores presentes nesta percolem a subcultura: incluindo valores sexistas.

Há inúmeros relatos de primeira mão de casos de assédio moral contra mulheres em fóruns, seção de comentários, comunidades, etc. sobre games, no exterior e no Brasil - inclusive sob a tag referida acima: #AntimachismoNerd. Essa discussão sobre a interdição ("gate-keeping") de mulheres ao universo nerde gerou o meme "fake geek girl".

Em sua revisão de literatura sobre o tema, Robinson encontrou apenas um estudo sobre as nerdes mulheres (um sobre aspectos linguísticos de adolescentes em colégios), mas há vários sobre masculinidade e identidade nerde, ausência de mulheres nas carreiras científicas - como dito, são uns vinte anos em que a temática é explorada na academia. Mas a raridade de estudos sobre a perspectiva das mulheres em meio à cultura nerde é também reveladora - da situação de interdição das mulheres aos círculos nerdes e do desinteresse da academia sobre certos aspectos da questão feminina.

Robinson, através de um formulário online*, elaborou uma perfil das opiniões, atitudes e percepções de pessoas que se identificam como mulheres nerdes. 149 respostas válidas (formulários completos, idade acima de 18 anos) foram tabuladas. Somente 22% das respondentes sentem-se sempre bem-vindas nas comunidades; 30,6% sentem-se sempre confortáveis nas comunidades. Apenas 17,5% das respondentes disseram nunca terem sofrido insultos baseados em gênero/sexo nas comunidades em que participam, apenas 9,1% disseram nunca terem experimentado ações de gate-keeping (checagem de conhecimento para saber se podem ou não se considerarem membros da comunidade); 29,6% nunca passaram pela experiência de despertar reações de surpresa dentro da comunidade nerde ao revelarem seu gosto pela temática, fora da comunidade, a reação de choque com a relevação é bem maior: apenas 7,8% das respondentes nunca passaram pela experiência.

(Seria interessante se o formulário tivesse incluído uma pergunta sobre o quanto as respondentes sentem-se confortáveis *fora* das comunidades nerdes - no geral e expressando seus gostos geeks. A única comparação é quanto ao choque causado pela revelação.)

Jason Tocci em sua tese "Geek Cultures: Media and Identity in the Digital Age", defendida em 2009 na University of Pennsylvania, observa que:
"Oftentimes, the girls who fit into male-dominated geek groups are those who feel they fit in better with the boys; several of the female geeks I interviewed noted that they had been "tomboys" or considered "just one of the guys" in school. In a response to a blog post about sexism in geek culture, for instance, one visitor explained that she often felt more welcome among geeky guys than among other girls."
["Com frequência, garotas que se sentem bem em grupos geeks dominados por homens são as que se sentem melhor entre garotos; várias garotas geeks que entrevistei notaram que elas eram 'molecas' ou consideradas 'mais um dos caras' na escola. Em resposta a uma postagem no blogue sobre sexismo na cultura geek, por exemplo, uma visitante explicou que ela muitas vezes se sentia mais bem-vinda entre os garotos geeks do que entre as outras garotas."]

Obviamente não significa que seja a maior parte das garotas que se identificam como nerdes tenham o mesmo histórico; por outro lado, isso pode explicar, ao menos parcialmente, a permanência de garotas em um meio hostil - a alternativa (comunidade da cultura dominante) pode ser ainda mais hostil.

A academia brasileira não está totalmente alheia ao fenômeno da participação feminina na cultura nerde (e.g. a dissertação de Lívia Lenz Fonseca "GamerGirls: As mulheres nos jogos digitais sob a visão feminina", defendida em 2013 na Unisinos), mas parece ser ainda um campo bem incipiente por aqui. Gostaria de saber se há estudos acadêmicos mapeando e delineando o sexismo entre os nerdes brazucas: seria aqui pior do que nos EUA?

Uma compilação sobre o #AntimachismoNerd (atualizo à medida em que souber de mais textos/áudios/vídeos):

Blogs:
Rock Me On 04/set/2015: "Anticast 198: Vamos cutucar o Elefante Branco!"

Podcast/videoblogs (não vi nem ouvi):
AntiCast 03/set/2015 "AntiCast 198 – O Machismo (e outras coisas) no mundo Nerd"
Qu4atro Coisas 04/set/2015: "Posicionamento do canal sobre machismo nerd"
Renegados Cast 14/set/2015: "RC #149 - O machismo no mundo nerd e na internet"

Outras leituras:
Geek Studies 28/abr/2008: "How People Explain Female Geeks"
Geek Studies 29/abr/2008: "Sexism and Misogyny in Geek Culture"
ForbesWoman 26/mar/2012.: "Dear Fake Geek Girl: Please Go Away"
The Geek Anthropologist 09/set/2014: "Violence and Victimization: Misogyny in Geek Culture (And Everywhere Else)"
Ana Freitas 02/fev/2015 "Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans"
Não me Kahlo 24/mar/2015: "O machismo no universo geek e a luta para salvar a Mulher-Maravilha desse mal"
JMTrevisan 29/mai/2015: "O Nerd Padrão é Imbecil e Preconceituoso"
Matando Robôs Gigantes (Jovem Nerd) 23/jun/2015 "Pode mulher no Fifa?" (não vi/vídeocast)
Quem Curte? 24/jul/2015: "Existe machismo no mundo nerd, geek e de cosplayers?"
Laura Buu 29/ago/2015: "O que aconteceu com o Pink Vader?"
Drops de Jogos 03/set/2015: "O caso Pink Vader, o machismo no meio nerd e o nosso posicionamento"

*Upideite(08/set/2015): Claro que a metodologia torna um pouco complicada a representatividade da amostra para fins de extrapolação para todo o universo nerde anglófono.
**Upideite(08/set/2015): adido a esta data.

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