As vaias dirigidas pelo público ao atleta francês do salto com vara, Renaud Lavillenie, - tanto durante a prova, quanto na cerimônia de entrega de medalhas - repercutiram tanto nacional quanto internacionalmente. Certamente há considerações éticas que podem ser tecidas - embora a situação tenda a ser um tanto mais complexa do que o quadro traçado em algumas análises (especialmente as que operam em quadros de heróis e vilões bem definidos) -, mas não é o objetivo desta postagem.
As vaias são um elemento bastante comum e destacado no cenário esportivo. Torcedores, especialmente em modalidades de equipes e as disputadas um contra um, valem-se de aplausos, gritos e sonorizações de desaprovação.Curiosamente, a despeito de sua frequência e relevo, parece haver poucos estudos a analisar mais especificamente os efeitos dessas manifestações vocais negativas da plateia sobre o desempenho desportivo.
O único específico sobre a vaia que encontrei no Google Scholar foi Greer 1983 (pode haver mais e seja apenas falha minha em achar estudos sobre os efeitos da vaia nos atletas). Ele analisou alguns parâmetros de equipes de basquete - times da casa e times visitantes - logo após episódios de vaia (geralmente contra marcações da arbitragem). O time visitante tende a ter um aumento significativo da taxa de faltas nos 5 minutos seguintes aos apupos. Outros parâmetros considerados não apresentaram alterações significativas, embora a tendência tenha sido sempre de melhor desempenho da equipe da casa e um pior da visitante.
Clayman 1993 analisou a vaia em outro contexto: em reação a discursos. Como manifestação coletiva, a varia difere do aplauso em seus padrões de manifestação. O aplauso tende a surgir logo após trechos proeminentes do discurso e, de início, com os manifestantes atuando de modo independente. Já a vaia tende a ocorrer após um intervalo em que os membros avaliam a reação dos demais (verificando sinais de desaprovação - como balançar de cabeças, expressões.faciais de contrariedade, murmúrios...).
Nevill et al. 2002 estudaram não especificamente a vaia, mas o barulho das torcidas de futebol (o que inclui cânticos, xingamentos, gritos) sobre a decisão dos árbitros. A conclusão é que torcida barulhenta faz com que os juízes se tornem caseiros. Myers 2014 chega à mesma conclusão - e de modo generalizado para todos os esportes - em sua revisão sobre a influência do barulho da torcida na decisão dos árbitros esportivos. Thirer & Rampsey 1979 observaram o desempenho de equipes universitárias de basquete após manifestações negativas da torcida e obtiveram um resultado oposto ao que seria obtido por Greer 1983 para as vaias: após os episódios de comportamentos antissociais, o time da casa apresentou um número maior de faltas, enquanto o time visitante não apresentou alteração.
Já Epting et al. 2011 examinaram os incentivos e as zombarias da torcida sobre a performance individual de atletas. O efeito parece variar de esporte para esporte. Jogadores universitários de basquete não têm o desempenho nos lances livres afetado seja pela torcida contra seja pela torcida contra; jogadores de beisebol são afetados negativas em seus lançamentos por zombarias da torcida; já jogadores de golfe tendem a errar suas tacadas tanto por manifestações de apoio quanto por troças.
Lavillenie pode ter, assim, razão em sua reclamação de que as varias afetaram seu desempenho, mas barulhos - incluindo varias (e até para o time da casa) - estiveram e estão presentes em várias outras modalidades. Por outro lado, há variação nos ethos admitidos em cada esporte: no tênis espera-se silêncio da torcida entre o saque e a definição do ponto; no golfe, o silêncio absoluto durante preparação e execução da tacada... No futebol, o barulho é esperado o tempo todo - a menos do minuto de silêncio antes do início de algumas partidas, ou o silêncio sepulcral diante uma derrota inesperada e sentida do time da casa; basquete, beisebol, andebol, futsal, vôlei e outros são também jogados diante de torcidas barulhentas o tempo todo. Mas em nenhuma dessas há um regulamento (mesmo que não escrito) de que apenas sons de incentivo possam ser emitidos. Haveria que se fazer exceção ao atletismo? Bem, mas isso dificilmente pode ser respondido por números, quantificações de desempenho e análises estatísticas.
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domingo, 21 de agosto de 2016
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Antiguidade sólida: (mais um) ataque à sociologia
Não vi uma confirmação oficial do que teria dito nosso amado e premiado gestor hídrico, o governador Geraldo Alckmin, sobre a Fapesp dever financiar apenas pesquisas "úteis" e não "inúteis" como a Sociologia.
Eu poderia responder a esse ponto de vista apenas com referências a postagens anteriores no GR; como uma de 2012 sobre a crítica do jornalista Luís Nassif a pesquisas "inúteis" pelo CNPq, uma sobre a (falsa) dicotomia entre ciência aplicada e básica ou uma terceira sobre a questão da hierarquia das ciências (os dados sugerem que haja uma hierarquia em relação ao grau de consenso entre as áreas: mas isso estaria ligado à complexidade do fenômeno estudado, não a um valor intrínseco dos campos científicos). Isso tanto mostra que essa visão não é nada original quanto que há uma preocupante permanência dela. Inclusive em outros países como o Japão, Reino Unido e EUA.
Mas deixemos o próprio Conselho Superior da Fapesp com a palavra:
------------------------------
Nota da Academia de Ciências do Estado de São Paulo - Aciesp*
Nota da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais - Anpocs*
Veja também outros textos sobre o tema na DCsfera:
26.abr.2016: Reinaldo José Lopes - Darwin e Deus: Alckmin e a ciência
27.abr.2016: Cristiano Bodart & Roniel da Silva - Café com Sociologia: Nota de repúdio à má fé do (des)governador Alckmin em relação à Sociologia
27.abr.2016: Maurício Tuffani - Direto da Ciência: O canal entupido de Alckmin com a ciência
29.abr.2016: Canal do Pirula: Zika, Fapesp e o Governador
07.mai.2016: Olá Ciência!: Pesquisa Básica e a Fapesp são inúteis, governador? (vídeo, não vi)
*Upideite(29/abr/2016): adido a esta data.
Eu poderia responder a esse ponto de vista apenas com referências a postagens anteriores no GR; como uma de 2012 sobre a crítica do jornalista Luís Nassif a pesquisas "inúteis" pelo CNPq, uma sobre a (falsa) dicotomia entre ciência aplicada e básica ou uma terceira sobre a questão da hierarquia das ciências (os dados sugerem que haja uma hierarquia em relação ao grau de consenso entre as áreas: mas isso estaria ligado à complexidade do fenômeno estudado, não a um valor intrínseco dos campos científicos). Isso tanto mostra que essa visão não é nada original quanto que há uma preocupante permanência dela. Inclusive em outros países como o Japão, Reino Unido e EUA.
Mas deixemos o próprio Conselho Superior da Fapesp com a palavra:
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A FAPESP considera importante o debate na sociedade sobre o papel da pesquisa no Estado de São Paulo. Por determinação constitucional, esta Fundação deve apoiar o “desenvolvimento científico e tecnológico” no Estado de São Paulo (artigo 271, caput da Constituição Estadual) em todas as áreas do conhecimento (artigo 16, parágrafo primeiro da Lei 5918 de 1960).
Pela natureza intrínseca da ciência, resultados práticos de diferentes pesquisas podem se verificar em diferentes prazos, de maior ou menor extensão. Algumas pesquisas não se realizam para chegar a resultados práticos, mas sim para tornar as pessoas e as sociedades mais sábias e, assim, entenderem melhor o mundo em que vivemos, o que é uma das missões da ciência.
O Conselho Superior da FAPESP destaca que o apoio à pesquisa com vistas a aplicações tem recebido mais da metade (52% nos últimos três anos) dos recursos totais destinados às atividades-fim da Fundação. Por determinação legal, 95% do orçamento anual da FAPESP são destinados ao financiamento de pesquisas e é vedado à Fundação assumir encargos externos permanentes de qualquer natureza, inclusive salários.
Desde a sua criação, e por determinação legal, a FAPESP constituiu um patrimônio rentável que lhe permite, em situações de crise, não deixar de cumprir seus compromissos assumidos. Tal patrimônio tem sido administrado com rigor e eficácia ao longo de sua história e impedido que pesquisas importantes sejam interrompidas abruptamente por falta de recursos em tempos de arrecadação em baixa, como o atual.
O Conselho Superior afirma que a FAPESP, com a autonomia de que desfruta constitucionalmente, continuará obedecendo aos preceitos legais, atendendo às demandas de financiamento da pesquisa em todas as áreas do conhecimento científico e tecnológico.
A FAPESP está sempre atenta às demandas da sociedade, em busca do contínuo aperfeiçoamento do seu funcionamento, e continuará contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico do Estado de São Paulo e do Brasil, como vem fazendo diligentemente em seus mais de 53 anos de existência.
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(via Ruth Helena Bellinghini e Maurício Tuffani fb)------------------------------
Nota da Academia de Ciências do Estado de São Paulo - Aciesp*
Nota da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais - Anpocs*
Veja também outros textos sobre o tema na DCsfera:
26.abr.2016: Reinaldo José Lopes - Darwin e Deus: Alckmin e a ciência
27.abr.2016: Cristiano Bodart & Roniel da Silva - Café com Sociologia: Nota de repúdio à má fé do (des)governador Alckmin em relação à Sociologia
27.abr.2016: Maurício Tuffani - Direto da Ciência: O canal entupido de Alckmin com a ciência
29.abr.2016: Canal do Pirula: Zika, Fapesp e o Governador
07.mai.2016: Olá Ciência!: Pesquisa Básica e a Fapesp são inúteis, governador? (vídeo, não vi)
*Upideite(29/abr/2016): adido a esta data.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Cultura nerde e machismo
Um bochincho se formou em parte das redes sociais em função de um episódio do podcast Anticast a respeito do machismo que há em meio aos nerdes brazucas (a transcrição do episódio está disponível)**. No twitter muito da discussão está rolando sob a tag #AntimachismoNerd.
Não tenho condições de dar meus pitacos sobre isso por vários motivos:
1) não ouvi ainda o episódio referido;
2) não tenho familiaridade suficientemente profunda com a cultura nerde (sim, tenhos vários amigos que se identificam como nerde ou geek, mas não vivo nesse círculo - não sei quais são os últimos lançamentos de consoles e jogos, há tempos não leio quadrinhos de modo sistemático, nunca fui a convenções do gênero, não participo de fóruns sobre ficção científica e fantasia, há anos não jogo RPG, não coleciono cards nem pokémons, entendo quase nada de programação e menos ainda de ciência e engenharia da computação, não acompanho podcasts, blogues, videoblogs nerdes, etc, etc, etc - ok, quando minha internet permite assisto ao Nerdologia).
O máximo que posso fazer é dar meu posicionamento genérico contra o machismo, o sexismo e a misoginia em qualquer esfera. Não sei dizer o quão justa ou injusta são as alegações a respeito desta ou daquela personalidade da comunidade nerde do Brasil. E também trazer, talvez como elementos de apoio à discussão, o que diz a literatura acadêmica sobre o tema: sim, a questão do gênero na cultura nerde já é tema de análise científica (principalmente nos EUA) há cerca de duas décadas.
Sonnet Robinson, em sua tese "Fake geek girl: the gender conflict in nerd culture", defendida em junho de 2014 na University of Oregon, apresenta a cultura nerde como uma "subcultura dentro de uma cultura dominante". É uma subcultura na medida em que consiste de um grupo de pessoas com um modo de pensar, sentir e agir distintivo e que difere um tanto da sociedade mais ampla. É uma contracultura na medida em que, ativamente, rejeita certos aspectos da cultura dominante. Mas, qual a cultura dominante, apresenta um conjunto de "valores, símbolos, normas, práticas específicas de linguagens, sanções e hierarquias". Não difere de outras subculturas no policiamento (quase que exclusivamente informal) da associação à subcultura: quem tem o direito ou não de se dizer ou se identificar como nerde (na blogosfera filomática, p.e., há intensos debates e preocupações quanto a se se pode ou não classificar um dado blogue como científico ou não - ativamente, ainda que informalmente, rejeitamos blogues que identificamos como pseudocientíficos). Estando mergulhado em uma cultura dominante, não é de se surpreender que certos valores presentes nesta percolem a subcultura: incluindo valores sexistas.
Há inúmeros relatos de primeira mão de casos de assédio moral contra mulheres em fóruns, seção de comentários, comunidades, etc. sobre games, no exterior e no Brasil - inclusive sob a tag referida acima: #AntimachismoNerd. Essa discussão sobre a interdição ("gate-keeping") de mulheres ao universo nerde gerou o meme "fake geek girl".
Em sua revisão de literatura sobre o tema, Robinson encontrou apenas um estudo sobre as nerdes mulheres (um sobre aspectos linguísticos de adolescentes em colégios), mas há vários sobre masculinidade e identidade nerde, ausência de mulheres nas carreiras científicas - como dito, são uns vinte anos em que a temática é explorada na academia. Mas a raridade de estudos sobre a perspectiva das mulheres em meio à cultura nerde é também reveladora - da situação de interdição das mulheres aos círculos nerdes e do desinteresse da academia sobre certos aspectos da questão feminina.
Robinson, através de um formulário online*, elaborou uma perfil das opiniões, atitudes e percepções de pessoas que se identificam como mulheres nerdes. 149 respostas válidas (formulários completos, idade acima de 18 anos) foram tabuladas. Somente 22% das respondentes sentem-se sempre bem-vindas nas comunidades; 30,6% sentem-se sempre confortáveis nas comunidades. Apenas 17,5% das respondentes disseram nunca terem sofrido insultos baseados em gênero/sexo nas comunidades em que participam, apenas 9,1% disseram nunca terem experimentado ações de gate-keeping (checagem de conhecimento para saber se podem ou não se considerarem membros da comunidade); 29,6% nunca passaram pela experiência de despertar reações de surpresa dentro da comunidade nerde ao revelarem seu gosto pela temática, fora da comunidade, a reação de choque com a relevação é bem maior: apenas 7,8% das respondentes nunca passaram pela experiência.
(Seria interessante se o formulário tivesse incluído uma pergunta sobre o quanto as respondentes sentem-se confortáveis *fora* das comunidades nerdes - no geral e expressando seus gostos geeks. A única comparação é quanto ao choque causado pela revelação.)
Jason Tocci em sua tese "Geek Cultures: Media and Identity in the Digital Age", defendida em 2009 na University of Pennsylvania, observa que:
"Oftentimes, the girls who fit into male-dominated geek groups are those who feel they fit in better with the boys; several of the female geeks I interviewed noted that they had been "tomboys" or considered "just one of the guys" in school. In a response to a blog post about sexism in geek culture, for instance, one visitor explained that she often felt more welcome among geeky guys than among other girls."
["Com frequência, garotas que se sentem bem em grupos geeks dominados por homens são as que se sentem melhor entre garotos; várias garotas geeks que entrevistei notaram que elas eram 'molecas' ou consideradas 'mais um dos caras' na escola. Em resposta a uma postagem no blogue sobre sexismo na cultura geek, por exemplo, uma visitante explicou que ela muitas vezes se sentia mais bem-vinda entre os garotos geeks do que entre as outras garotas."]
Obviamente não significa que seja a maior parte das garotas que se identificam como nerdes tenham o mesmo histórico; por outro lado, isso pode explicar, ao menos parcialmente, a permanência de garotas em um meio hostil - a alternativa (comunidade da cultura dominante) pode ser ainda mais hostil.
A academia brasileira não está totalmente alheia ao fenômeno da participação feminina na cultura nerde (e.g. a dissertação de Lívia Lenz Fonseca "GamerGirls: As mulheres nos jogos digitais sob a visão feminina", defendida em 2013 na Unisinos), mas parece ser ainda um campo bem incipiente por aqui. Gostaria de saber se há estudos acadêmicos mapeando e delineando o sexismo entre os nerdes brazucas: seria aqui pior do que nos EUA?
Uma compilação sobre o #AntimachismoNerd (atualizo à medida em que souber de mais textos/áudios/vídeos):
Blogs:
Rock Me On 04/set/2015: "Anticast 198: Vamos cutucar o Elefante Branco!"
Podcast/videoblogs (não vi nem ouvi):
AntiCast 03/set/2015 "AntiCast 198 – O Machismo (e outras coisas) no mundo Nerd"
Qu4atro Coisas 04/set/2015: "Posicionamento do canal sobre machismo nerd"
Renegados Cast 14/set/2015: "RC #149 - O machismo no mundo nerd e na internet"
Outras leituras:
Geek Studies 28/abr/2008: "How People Explain Female Geeks"
Geek Studies 29/abr/2008: "Sexism and Misogyny in Geek Culture"
ForbesWoman 26/mar/2012.: "Dear Fake Geek Girl: Please Go Away"
The Geek Anthropologist 09/set/2014: "Violence and Victimization: Misogyny in Geek Culture (And Everywhere Else)"
Ana Freitas 02/fev/2015 "Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans"
Não me Kahlo 24/mar/2015: "O machismo no universo geek e a luta para salvar a Mulher-Maravilha desse mal"
JMTrevisan 29/mai/2015: "O Nerd Padrão é Imbecil e Preconceituoso"
Matando Robôs Gigantes (Jovem Nerd) 23/jun/2015 "Pode mulher no Fifa?" (não vi/vídeocast)
Quem Curte? 24/jul/2015: "Existe machismo no mundo nerd, geek e de cosplayers?"
Laura Buu 29/ago/2015: "O que aconteceu com o Pink Vader?"
Drops de Jogos 03/set/2015: "O caso Pink Vader, o machismo no meio nerd e o nosso posicionamento"
*Upideite(08/set/2015): Claro que a metodologia torna um pouco complicada a representatividade da amostra para fins de extrapolação para todo o universo nerde anglófono.
**Upideite(08/set/2015): adido a esta data.
Não tenho condições de dar meus pitacos sobre isso por vários motivos:
1) não ouvi ainda o episódio referido;
2) não tenho familiaridade suficientemente profunda com a cultura nerde (sim, tenhos vários amigos que se identificam como nerde ou geek, mas não vivo nesse círculo - não sei quais são os últimos lançamentos de consoles e jogos, há tempos não leio quadrinhos de modo sistemático, nunca fui a convenções do gênero, não participo de fóruns sobre ficção científica e fantasia, há anos não jogo RPG, não coleciono cards nem pokémons, entendo quase nada de programação e menos ainda de ciência e engenharia da computação, não acompanho podcasts, blogues, videoblogs nerdes, etc, etc, etc - ok, quando minha internet permite assisto ao Nerdologia).
O máximo que posso fazer é dar meu posicionamento genérico contra o machismo, o sexismo e a misoginia em qualquer esfera. Não sei dizer o quão justa ou injusta são as alegações a respeito desta ou daquela personalidade da comunidade nerde do Brasil. E também trazer, talvez como elementos de apoio à discussão, o que diz a literatura acadêmica sobre o tema: sim, a questão do gênero na cultura nerde já é tema de análise científica (principalmente nos EUA) há cerca de duas décadas.
Sonnet Robinson, em sua tese "Fake geek girl: the gender conflict in nerd culture", defendida em junho de 2014 na University of Oregon, apresenta a cultura nerde como uma "subcultura dentro de uma cultura dominante". É uma subcultura na medida em que consiste de um grupo de pessoas com um modo de pensar, sentir e agir distintivo e que difere um tanto da sociedade mais ampla. É uma contracultura na medida em que, ativamente, rejeita certos aspectos da cultura dominante. Mas, qual a cultura dominante, apresenta um conjunto de "valores, símbolos, normas, práticas específicas de linguagens, sanções e hierarquias". Não difere de outras subculturas no policiamento (quase que exclusivamente informal) da associação à subcultura: quem tem o direito ou não de se dizer ou se identificar como nerde (na blogosfera filomática, p.e., há intensos debates e preocupações quanto a se se pode ou não classificar um dado blogue como científico ou não - ativamente, ainda que informalmente, rejeitamos blogues que identificamos como pseudocientíficos). Estando mergulhado em uma cultura dominante, não é de se surpreender que certos valores presentes nesta percolem a subcultura: incluindo valores sexistas.
Há inúmeros relatos de primeira mão de casos de assédio moral contra mulheres em fóruns, seção de comentários, comunidades, etc. sobre games, no exterior e no Brasil - inclusive sob a tag referida acima: #AntimachismoNerd. Essa discussão sobre a interdição ("gate-keeping") de mulheres ao universo nerde gerou o meme "fake geek girl".
Em sua revisão de literatura sobre o tema, Robinson encontrou apenas um estudo sobre as nerdes mulheres (um sobre aspectos linguísticos de adolescentes em colégios), mas há vários sobre masculinidade e identidade nerde, ausência de mulheres nas carreiras científicas - como dito, são uns vinte anos em que a temática é explorada na academia. Mas a raridade de estudos sobre a perspectiva das mulheres em meio à cultura nerde é também reveladora - da situação de interdição das mulheres aos círculos nerdes e do desinteresse da academia sobre certos aspectos da questão feminina.
Robinson, através de um formulário online*, elaborou um
(Seria interessante se o formulário tivesse incluído uma pergunta sobre o quanto as respondentes sentem-se confortáveis *fora* das comunidades nerdes - no geral e expressando seus gostos geeks. A única comparação é quanto ao choque causado pela revelação.)
Jason Tocci em sua tese "Geek Cultures: Media and Identity in the Digital Age", defendida em 2009 na University of Pennsylvania, observa que:
"Oftentimes, the girls who fit into male-dominated geek groups are those who feel they fit in better with the boys; several of the female geeks I interviewed noted that they had been "tomboys" or considered "just one of the guys" in school. In a response to a blog post about sexism in geek culture, for instance, one visitor explained that she often felt more welcome among geeky guys than among other girls."
["Com frequência, garotas que se sentem bem em grupos geeks dominados por homens são as que se sentem melhor entre garotos; várias garotas geeks que entrevistei notaram que elas eram 'molecas' ou consideradas 'mais um dos caras' na escola. Em resposta a uma postagem no blogue sobre sexismo na cultura geek, por exemplo, uma visitante explicou que ela muitas vezes se sentia mais bem-vinda entre os garotos geeks do que entre as outras garotas."]
Obviamente não significa que seja a maior parte das garotas que se identificam como nerdes tenham o mesmo histórico; por outro lado, isso pode explicar, ao menos parcialmente, a permanência de garotas em um meio hostil - a alternativa (comunidade da cultura dominante) pode ser ainda mais hostil.
A academia brasileira não está totalmente alheia ao fenômeno da participação feminina na cultura nerde (e.g. a dissertação de Lívia Lenz Fonseca "GamerGirls: As mulheres nos jogos digitais sob a visão feminina", defendida em 2013 na Unisinos), mas parece ser ainda um campo bem incipiente por aqui. Gostaria de saber se há estudos acadêmicos mapeando e delineando o sexismo entre os nerdes brazucas: seria aqui pior do que nos EUA?
Uma compilação sobre o #AntimachismoNerd (atualizo à medida em que souber de mais textos/áudios/vídeos):
Blogs:
Rock Me On 04/set/2015: "Anticast 198: Vamos cutucar o Elefante Branco!"
Podcast/videoblogs (não vi nem ouvi):
AntiCast 03/set/2015 "AntiCast 198 – O Machismo (e outras coisas) no mundo Nerd"
Qu4atro Coisas 04/set/2015: "Posicionamento do canal sobre machismo nerd"
Renegados Cast 14/set/2015: "RC #149 - O machismo no mundo nerd e na internet"
Geek Studies 28/abr/2008: "How People Explain Female Geeks"
Geek Studies 29/abr/2008: "Sexism and Misogyny in Geek Culture"
ForbesWoman 26/mar/2012.: "Dear Fake Geek Girl: Please Go Away"
The Geek Anthropologist 09/set/2014: "Violence and Victimization: Misogyny in Geek Culture (And Everywhere Else)"
Ana Freitas 02/fev/2015 "Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans"
Não me Kahlo 24/mar/2015: "O machismo no universo geek e a luta para salvar a Mulher-Maravilha desse mal"
JMTrevisan 29/mai/2015: "O Nerd Padrão é Imbecil e Preconceituoso"
Matando Robôs Gigantes (Jovem Nerd) 23/jun/2015 "Pode mulher no Fifa?" (não vi/vídeocast)
Quem Curte? 24/jul/2015: "Existe machismo no mundo nerd, geek e de cosplayers?"
Laura Buu 29/ago/2015: "O que aconteceu com o Pink Vader?"
Drops de Jogos 03/set/2015: "O caso Pink Vader, o machismo no meio nerd e o nosso posicionamento"
*Upideite(08/set/2015): Claro que a metodologia torna um pouco complicada a representatividade da amostra para fins de extrapolação para todo o universo nerde anglófono.
**Upideite(08/set/2015): adido a esta data.
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segunda-feira, 2 de junho de 2014
Banana split: a polêmica dos macacos
Uma pequena compilação (nem um pouco completa) do que a blogocúndia filomática e humanóie andou falando sobre o ato racista da torcida do Villareal, do gesto de Daniel Alves e a campanha da agência do Neymar Jr. Alguns contra, outros a favor da campanha.
Você publicou alguma coisa em seu blogue? Se sim, manda o link que adiciono.
- Haeckeliano - Afinal, por que #somostodosmacacos?
- Haeckeliano - Qual é o dano em chamar negros de "macacos"?
- Marco Evolutivo - Primatas do mundo, uni-vos
- Sala BioQuímica - Somos todos macacos? (sobre biologia e racismo)
- Café com Ciência - Somos todos macacos?
- Biologia Total - Somos todos humanos
- Alimente o Cérebro - Somos todos macacos, cientificamente falando?
- Dicas de Ciências - #SomosTodosMacacos: Você realmente entende o que é isso?
- Biorritmo - Quem são os verdadeiros macacos?
- Conversa Sustentável - Pensamento do Dia: Somos todos macacos?
- Canal do Pirulla - Sim, somos todos macacos (videocast)
- Café com Sociologia - Somos todos macacos? Dois pontos de vista sobre o caso
- Razão Inadequada - (não) Somos todos macacos!
- Acid Black Nerd - Todos somos macacos? Não, mas muitos agem como se fosse
- Traversos - Cada macaco no seu galho
- Coluna Invertebrada - Somos todos macacos? A pseudo-intelectualidade crítica
Você publicou alguma coisa em seu blogue? Se sim, manda o link que adiciono.
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evolução,
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Isto é um experimento: As postagens menos visitadas do Gene Repórter
Rankings existem em quase todo lugar sobre quase todo assunto - futebol, economia, universidades, mulheres, homens, livros... Com música não é diferente e quase toda, senão toda, rádio tem sua lista de mais pedidas. Mas o quanto uma música não ganha destaque justamente por aparecer entre as mais pedidas? O chamado jabá é muito conhecido - dinheiro ou outra forma de bonificação dado às rádios pelas gravadoras para divulgar certos trabalhos e artistas. E no filme Dois Filhos de Francisco há uma cena em que o pai (Francisco) faz com que amigos liguem sem parar para uma rádio local pedindo para que uma canção de seus filhos (Zezé di Camargo e Luciano) seja tocada - levando a parada de sucessos. Então o quanto que o consumo de uma música - por exemplo, a compra de álbuns ou download de arquivo - está vinculado à qualidade musical percebida e o quanto está ligado à exposição dada por listas de mais vendidas, tocadas, pedidas?
A equipe liderada por Duncan Watts criou o projeto MusicLab, que permitiu medir a influência da exposição às listas. Funcionava como uma rede social em que os usuários podiam baixar arquivos de áudio. A quantidade de downloads era medida e uma lista das mais baixadas era exibida aos usuários. O MusicLab, no entanto, era dividido em "mundos" isolados - várias comunidades fechadas, em que usuários de uma comunidade não tinham acesso ao que ocorria em outra. Cada "mundo" funcionava como uma repetição independente. A quantidade de downloads nas comunidades quando a lista não era exibida serviu como um indicador de qualidade intrínseca de cada obra. Quando os usuários tinham acesso à lista, apesar de haver alguma tendência de músicas mais bem qualificadas estarem mais bem posicionadas, isso nem sempre ocorria. Com frequência a ordem de consumo era alterada, indicando a influência da simples listagem. Em cada comunidade, a influência social produzia listas bastante distintas de músicas mais baixadas.
É possível, então, que listas de textos mais lidos em sítios web tenham o mesmo efeito de retroalimentação positiva ou profecias autorrealizadoras (ou o segredo de Tostines): textos mais lidos tenderiam a ser os textos ainda mais lidos e se eternizarem em uma lista global (sítios e portais de notícias ressetam a lista de tempos em tempos para evitar esse feito, mas não evitam o efeito da pura influência social) e ampliar o fosso entre os mais e os menos lidos. Uma forma alternativa de fazer listas de textos em uma retroalimentação negativa seria listar os textos *menos* lidos.
Do GR, os dez textos menos lidos de todos os tempos são:
Serão ruins - ou piores do que os mais lidos - ? Talvez uma variação do paradoxo dos números desinteressantes possa ser formulada: em uma lista de textos desinteressantes, haverá um texto menos interessante, o que faz dele um texto interessante, logo deve ser tirado da lista; na nova lista, haverá um novo texto menos interessante e assim por diante...
A equipe liderada por Duncan Watts criou o projeto MusicLab, que permitiu medir a influência da exposição às listas. Funcionava como uma rede social em que os usuários podiam baixar arquivos de áudio. A quantidade de downloads era medida e uma lista das mais baixadas era exibida aos usuários. O MusicLab, no entanto, era dividido em "mundos" isolados - várias comunidades fechadas, em que usuários de uma comunidade não tinham acesso ao que ocorria em outra. Cada "mundo" funcionava como uma repetição independente. A quantidade de downloads nas comunidades quando a lista não era exibida serviu como um indicador de qualidade intrínseca de cada obra. Quando os usuários tinham acesso à lista, apesar de haver alguma tendência de músicas mais bem qualificadas estarem mais bem posicionadas, isso nem sempre ocorria. Com frequência a ordem de consumo era alterada, indicando a influência da simples listagem. Em cada comunidade, a influência social produzia listas bastante distintas de músicas mais baixadas.
É possível, então, que listas de textos mais lidos em sítios web tenham o mesmo efeito de retroalimentação positiva ou profecias autorrealizadoras (ou o segredo de Tostines): textos mais lidos tenderiam a ser os textos ainda mais lidos e se eternizarem em uma lista global (sítios e portais de notícias ressetam a lista de tempos em tempos para evitar esse feito, mas não evitam o efeito da pura influência social) e ampliar o fosso entre os mais e os menos lidos. Uma forma alternativa de fazer listas de textos em uma retroalimentação negativa seria listar os textos *menos* lidos.
Do GR, os dez textos menos lidos de todos os tempos são:
- Semana Darwin 200 - II
- The burdens of being upright*
- The Greatest Show on Earth: Resultado do sorteio
- Mala influenza - 2
- Mala influenza - 10
- Mala influenza - 5
- Mala influenza
- Mala influenza - 12
- Mala influenza - 9
- Sing Along: Science is golden
Serão ruins - ou piores do que os mais lidos - ? Talvez uma variação do paradoxo dos números desinteressantes possa ser formulada: em uma lista de textos desinteressantes, haverá um texto menos interessante, o que faz dele um texto interessante, logo deve ser tirado da lista; na nova lista, haverá um novo texto menos interessante e assim por diante...
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sexta-feira, 11 de maio de 2012
Hetero sapiens
Lineu (1707-1778) nos denominou Homo sapiens destacando a qualidade que considerava mais distintiva: o intelecto. Nisso se firmava em uma tradição antiga que remonta a pelo menos Porfírio (234?–305?) que, em sua árvore, colocava o ser humano como animal racional. Conquanto hoje se discuta não apenas se o ser humano é mesmo, afinal, racional, como também até que ponto outros organismos não apresentam um grau razoável de inteligência.
Mas o ser humano, destacamo-nos também sob outro aspecto: a nossa variabilidade comportamental e ideológica (não apenas dentro da população, como em relação ao mesmo indivíduo).
Teóricos têm destacado diversos aspectos da natureza humana (algumas contraditórias entre si):
(Há uma lista bem mais extensa aqui, embora muitos dos termos pareçam não se aplicar à humanidade em sua totalidade.)
E você, que aspecto da natureza humana destacaria? E qual destacaria em você mesmo(a)?
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Já deu sua resposta ao enigma? Valendo um exemplar grátis de "O que é vida?" de Lynn Margulis e Dorion Sagan.
Mas o ser humano, destacamo-nos também sob outro aspecto: a nossa variabilidade comportamental e ideológica (não apenas dentro da população, como em relação ao mesmo indivíduo).
Teóricos têm destacado diversos aspectos da natureza humana (algumas contraditórias entre si):
- Homo biologicus - cunhado por Charles Elworthy (1993), descreve a necessidade de se entender os aspectos biológicos do ser humano (incluindo sua evolução) para se compreender sua sociologia (incluindo as atividades econômicas).
- Homo oeconomicus - um agente estritamente racional e egoísta; o modelo preferido dos economistas clássicos e neoclássicos (dá até o nome de uma revista sobre o tema). Persky (1995) nota que o primeiro uso conhecido do termo data de Pareto (1906), mas pode ser mais antigo.
- Homo faber - conceito filosófico criado por Henri Bergson (1911), do ser humano como fabricador de ferramentas. (Há que se notar que alguns primatas não-humanos também são capazes de criar ferramentas.)
- Homo ludens - o jogo e brincadeira como um elemento gerador da cultura, notando-se que a brincadeira, estando presente em outros animais, antecede a humanidade. Termo inventado por Johan Huizinga (1938).
- Homo reciprocans - surge como contestação ao H. economicus, sua motivação é a cooperação e o desejo de melhorar seu ambiente. Cunhado por Fehr and Gächter (1998), segundo Abbink & Herrmann (2009).
(Há uma lista bem mais extensa aqui, embora muitos dos termos pareçam não se aplicar à humanidade em sua totalidade.)
E você, que aspecto da natureza humana destacaria? E qual destacaria em você mesmo(a)?
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Já deu sua resposta ao enigma? Valendo um exemplar grátis de "O que é vida?" de Lynn Margulis e Dorion Sagan.
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