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sexta-feira, 4 de março de 2016

Microcefalia e zika: o tamanho do estrago

O ritmo de esclarecimento da relação entre o ZIKV e o surto de microcefalia está acelerado.

Depois da confirmação da relação causal (ainda que muitos cientistas ainda prefiram uma linguagem mais cautelosa) com dois estudos - in vitro - mostrando o efeito do ZIKV sobre células-tronco cerebrais; podemos começar a avaliar também outros aspectos como com que frequência o ZIKV causa problemas à gestação.

Grupo da Fiocruz e da UCLA realizaram análise de gestantes com sintomas de febre zika e publicaram os resultados na NEJM na edição de 04.mar.

88 grávidas (em variadas semanas de gestação) que apresentaram febre aguda e exantemas foram examinadas. 72 deram positivo para o ZIKV por análise sanguínea ou de urina com RT-PCR. Destas, duas sofreram aborto espontâneo ainda durante o primeiro semestre da gestação. Das 70 restantes, em 42 foram realizadas exames de ultrassonografia; das 16 negativas para o ZIKV, em nenhum foi detectado qualquer anomalia no feto.

Entre as 42 examinadas, o tempo da ocorrência da febre aguda variou da 6 à 35 semana gestacional. Em 12 casos (28,6%) foi detectada alguma anomalia: em 8 casos, a gestação terminou em aborto espontâneo. Dos 4 nascidos vivos, 1 apresentou microcefalia (além de calcificação cerebral, atrofia cerebral geral e lesões maculares) e o restante algum outro problema: tamanho pequeno (2 casos), lesões maculares, reflexo de sucção prejudicado e padrão de EEG alterado.
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Considerando os 2,9 milhões de nascimentos por ano do Brasil em 2013 segundo o DataSUS, e que entre 440 mil e 1,3 milhão de brasileiros foram infectados com o ZIKV, tomando-se a chance de 1 em 34 de a gestação de mãe infectada com ZIKV com bebê nascido vivo resultar em microcefalia, são esperados algo como 190 a 600 bebês com microcefalia devido ao ZIKV a cada ano com essa taxa de infecção. Se consideramos a taxa de 12/42, serão de 1.800 a 5.300 gestações com problemas: abortos, má formações e disfunções no feto. (Chamando a atenção de que é uma estimativa bem grosseira.)

Se tivéssemos um sistema de registro ausente, falho ou inconfiável como presente em muitos países em que o ZIKV circula há muito tempo, jamais teríamos dados para detectar qualquer surto de microcefalia. Por outro lado, ironicamente, se o Sinasc registrasse diligentemente todos os casos anuais de microcefalia para vigilância epidemiológica, dificilmente o surto de microcefalia associado ao ZIKV seria detectado. (E, assim, encontramos um novo significado para a frase "o ótimo é inimigo do bom".)

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