Lives de Ciência

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quarta-feira, 7 de março de 2018

Mulheres nas Ciências: Por que tão poucas?*

Em um artigo publicado na revista Science, a socióloga Alice S. Rossi, da University of Chicago, pergunta já no título de seu artigo: "Women in Science: Why So Few?" ["Mulheres nas Ciências: Por que tão poucas?"].

A cientista recapitula o contexto americano em que, entre os anos 1940 e 1950, houve um rápido crescimento da população com deslocamento das famílias para os subúrbios, com saudação do papel das mulheres nas casas. Tal cenário começava a se modificar mais acentuadamente na década de 1960, com as autoridades procurando incentivar a maior participação das mulheres no mercado de trabalho. Se a sociedade americana deseja mais mulheres nas ciências, conclui Rossi, será preciso:

1) "Educar meninos e meninas para todos os principais papéis adultos (como pais, cônjuges, trabalhadores, e mesmo como seres que se divertem)." Para a autora, "as mulheres não deixarão de ver o trabalho como algo temporário até encontrar um marido se não se garantirem ocupações significativas em suas vidas, como é para os homens".

2) "Parar de restringir e diminuir os objetivos ocupacionais das meninas com a desculpa de aconselhá-las a serem 'realistas'." Rossi assinala o papel triplo das mulheres: "profissional, esposa e mãe; e que as dificuldades por elas enfrentadas devem ser encaradas como um problema *social* e não algo individual - será preciso realizar uma engenharia social (não exatamente no sentido usual da cultura hacker) e não relegar para que as mulheres se virem sozinhas". "Os conflitos", diz a autora, "não são necessariamente um mal a ser evitado, podem ser usados para estimular mudanças sociais".

3) "Aplicar a tecnologia para racionalizar a manutenção do lar. As responsabilidades das mulheres e maridos empregados podem ser diminuídas por empresas de limpeza e cuidados domésticos."

4) "Encorajar os homens a serem mais articulados a respeito de si mesmos como homens e sobre as mulheres. A visão de jovens e capacitadas mulheres a respeito do casamento e carreira pode ser mudada mais eficientemente se os homens acharem o casamento com mulheres que trabalham uma experiência satisfatória do que por exortação de mulheres profissionais ou por especialistas em mercado de trabalho e instrutores familiares cujas esposas são do lar."

A cientista ainda enfatiza que as diferenças fisiológicas entre homens e mulheres são suficientemente claras e tão fundamentais na autodefinição que nenhuma alteração no sentido de uma maior similaridade nos papéis sociais de homens e mulheres irá afetar a identidade sexual de crianças ou adultos. Ninguém ficará confuso se os homens forem mais gentis e expressivos e as mulheres mais agressivas e intelectuais. Se alguma mudança será causada pela maior similaridade nos papéis de homens e mulheres na família e na profissão, será um maior entusiasmo e vitalidade nas relações entre homens e mulheres, minimizando a segregação social entre os sexos. E um aumento no número de mulheres cientistas é apenas um dos efeitos desejáveis que seriam resultantes de tal mudança social, finaliza a pesquisadora.

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Ah, pequeno detalhe. O artigo foi escrito em 1965. Há mais de cinquenta anos. Talvez seja exagero dizer que não avançamos nada. Mas nem tanto dizer que o texto e as observações da socióloga, morta em 2009, permanecem atualíssimos (infelizmente).

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*Em outra feita, usei da frase da divulgadora científica Sharon Berstch McGrayne - relembrada pela psicóloga Nadia Regina Loureiro de Barros Lima, em uma entrevista para um texto sobre a participação das mulheres nas ciências - que é a pergunta oposta: "mas como tantas?", tais as quantidades e os tamanhos das barreiras que as mulheres enfrentam nas profissões de prestígio social do ingresso à progressão na carreira.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mary Tsingou: O enigma matemático dos três homens e uma mulher

Muitos dos leitores do GR já devem estar cientes da descoberta de uma solução (parcial) para o problema Fermi-Pasta-Ulam.

Info 24/mar/2015: "Enigma matemático que durava mais de 60 anos é finalmente solucionado"
Ciências e Tecnologia 25/mar/2015: "Enigma de Fermi-Pasta-Ulam resolvido após 60 anos"
Phys.org 23/mar/2015: "Mathematicians solve 60-year-old problem"

Press release da Unviersidade de East Anglia s.d. "UEA mathematician solves 60-year-old problem"
Press release do Instituto Politécnico Rensselaer (RPI) 23/mar/2015: "A mathematical explanation for the Fermi-Pasta-Ulam system problem first proposed in 1953"

Artigo no PNAS 23/mar/2015: "Route to thermalization in the α-Fermi-Pasta-Ulam system"

Só a Info e o comunicado à imprensa do RPI mencionam a contribuição de Mary Tsingou na formulação original do problema.

Usando a base de dados do Google Acadêmico, a busca por "Fermi-Pasta-Ulam problem" e "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem" tem os resultados representados no gráfico abaixo (Fig.1).

Figura 1. Menções ao problema como de "Fermi-Pasta-Ulam" (FPU) ou de "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou" (FPUT) em artigos científicos por período. Fonte: Google Scholar.

Em 2008, o físico francês Thierry Dauxois da Escola Normal Superior em Lyon publicou um artigo que resgata a participação essencial de Mary Tsingou (depois, Mary Tsingou Menzel) na questão.

Embora o relatório original de 1955 leve a assinatura apenas de Enrico Fermi, físico italiano; John Pasta, físico computacional americano; Stanislaw Ulam, matemático americano de origem polonesa (então parte do Império Austro-Húngaro); Mary Tsingou fez boa parte do trabalho de elaboração do algoritmo e programação (Fig. 2) - uma tarefa nada trivial, nem um pouco fácil com os poucos recursos computacionais (mesmo em laboratório como Los Alamos, com seus famosos monstrengos adequadamente denominados "Mathematical Analyzer, Numerator, Integrator, and Computer", MANIAC para os íntimos) disponíveis.

Figura 2. Algoritmo desenvolvido por Mary Tsingou para abordagem computacional do problema de Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou. Fonte: Dauxois 2008.

Dauxois faz um breve relato da vida de Tsingou. Nascida em Milwaukee, no estado americano de Wisconsin, em 1928, cresceria na América da Grande Depressão, mudando-se com a família para a Bulgária em 1936 atrás de melhores condições de vida. Mas em junho 1940, seguindo recomendação da embaixada americana, retornaram para os EUA devido ao aumento da tensão no subcontinente balcânico (a Segunda Guerra Mundial já corria solta na Europa Central; em outubro, a Grécia viria a ser invadida pela Itália).

Ela formou-se em 1951. No ano seguinte, buscou uma vaga em Los Alamos, contando com o apoio de uma professora sua de equações diferenciais avançadas. Mesmo a matemática sendo um campo ainda fechado às mulheres, a Guerra da Coreia provocava uma redução de mão de obra masculina, então, ela, juntamente com outros recém-graduados, foram contratados para fazerem cálculos matemáticos à mão.

Foi das primeiras pessoas a conseguirem programar o recém-construído MANIAC I. O principal uso do trambolho era, claro, relacionado ao desenvolvimento de armas, mas ocasionalmente encontravam brechas para utilizar o brinquedo para algo mais produtivo: resolução de problemas da Física e jogo de xadrez. Tsingou e Pasta foram os primeiros a desenvolverem gráficos no MANIAC.

Fermi, professor em Chicago, visitava Los Alamos apenas brevemente. Mas foi dele a ideia de utilizar o computador não apenas para realizar cálculos padrões, e, sim, também para testar hipóteses físicas. Nascia disso a experimentação numérica e a era das simulações computacionais científicas.

Com sua experiência na programação do computador, proximidade com Pasta e Ulam, foi incumbida a ela a tarefa de desenvolver os algoritmos da simulação de um cristal unidimensional - sem saber o resultado surpreendente que iriam obter.

Modelando os átomos como massas conectadas linearmente por molas que obedeciam à lei de Hooke, mas com um pequeno termo não-linear, observaram que, ao contrário do previsto, a energia não acabava sendo partilhada igualmente pelo sistema, mas o sistema, de tempos em tempos, voltava à sua condição original. A busca pela resolução desse paradoxo levou ao desenvolvimento do campo dos sólitons (ondas localizadas com propriedades de partículas) e o problema FPUT se tornou central também nos estudos sobre o caos.

Em 1955, Tsingou obteria seu mestrado. Em 1958, casou-se com com Joseph Menzel, que conheceu no próprio Los Alamos. Além do problema FPUT, ela também trabalhou com soluções numéricas para a equação de Schrödinger e trabalhou com von Neumann na modelagem de mistura de fluidos com densidades diferentes. Além de contribuir com estudos sobre o programa Guerra nas Estrelas da administração Reagan.

Aposentou-se em 1991 e desde então mora com o marido nos arredores de Los Alamos.

Por que, tendo papel tão essencial, Mary Tsingou foi deixada de lado? Poderia ser por, apesar de ter botado a mão na massa, não haver participado da elaboração do artigo. Mas ela participou da produção dos gráficos e Fermi, morto um ano antes, não tinha como colaborar com o manuscrito, porém foi listado como primeiro autor.

Não era a primeira vez que o efeito Matilda aprontava das suas, não seria a última. Talvez o caso mais famoso de uma mulher alijada do reconhecimento seja de Rosalind Franklin e sua contribuição para o desvendamento da estrutura do ADN - creditada, normalmente apenas a Watson e Crick, e, ocasionalmente a Wilkins também.

Em sua linha final, Dauxois propõe: "Let us refere from now on to the Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem". ["Chamemos de agora em diante de problema Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou"]. Alguns atenderam à convocação, mas são somente 15 trabalhos publicados desde então (e indexados na base do Google Acadêmico) referem-se a FPUT contra mais de 400 que citam apenas FPU.

sábado, 8 de março de 2014

"Mas como tantas?"

Em lembrança ao Dia Internacional da Mulher - data que lembra as lutas das mulheres na conquista da igualdade de direitos - republico um texto meu publicado em janeiro na DiCYT sobre as dificuldades enfrentadas pelas cientistas no meio acadêmico.

Parabéns a todas as mulheres - cientistas ou não - e meus agradecimentos especiais às entrevistadas, que tiveram infinita paciência comigo. (Mais abaixo uma seleção de links de material relacionado.)

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“Mas como tantas?”

A respeito da participação das mulheres na produção científica
Roberto Takata/DICYT A Académie des science de Paris, uma das mais antigas agremiações científicas em funcionamento contínuo, foi fundada em 1666 pelo rei Luís 14. Ela assistiu a uma revolução que derrubou a monarquia, à ascensão e queda do império napoleônico, a duas guerras mundiais, o sufrágio feminino, o maio de 1968, e à descolonização da África e à guerra da independência da Argélia, para, só em 1979 admitir a primeira mulher em seu quadro associativo. Nem os dois nobéis científicos de Marie Curie garantiram-lhe espaço ali. Em 1910, sua candidatura foi rejeitada por dois votos após calorosos debates (em uma votação subsequente a respeito de se mulheres poderiam ser aceitas, o placar foi de 90 contra a 52 a favor - o que talvez diga algo a respeito tanto da enorme contribuição científica de Marie Curie, ainda que insuficiente para dobrar os homens da academia de Paris, quanto ao fato de ela mal ser vista como uma mulher pelos mesmos homens). Em 2008, dos 236 membros da instituição, 18 (7,6%) eram mulheres.

A situação não é muito diferente em outras academias.

A National Academy of Sciences, dos EUA, foi fundada em 1863 e o primeiro membro feminino foi admitido em 1925. Dos 2.038 membros ativos em 2012, 216 (10,6%) são mulheres. Na Academia Brasileira de Ciências, fundada em 1916, elegeu a primeira mulher para seu quadro em 1952. Atualmente 10,4% de seus associados são acadêmicas (50 mulheres em 482 membros). Ainda mais antiga do que a academia francesa, a britânica Royal Society, fundada em 1660, aceitou entre seus pares uma mulher pela primeira vez em 1945, depois de uma alteração em seus estatutos no ano anterior. Mas hoje apenas 99 (6,8%) de seus 1.450 membros são do sexo feminino.

“A academia não foi estruturada prevendo a presença feminina”, observa Mariana Feiteiro Cavalari, doutora em Educação Matemátia pela Unesp, professora de História da Matemática na Federal de Itajubá (UNIFEI) e autora de estudo sobre a presença de mulheres na docência de matemática nas universidades estaduais paulistas (2010, Rev. Bras. Hist. Matem. v. 10, n.19, pp: 89-102).

Mas o fechamento à participação feminina não estava claro entre os séculos 17 e 18, diz Londa Schiebinger em seu “Has Feminism Changed Science?” (1999, Harvard University Press, 252 pp.). Nesse período poucas pessoas eram cientistas profissionais de ocupação em tempo integral. Boa parte da ciência era feita por amadores em laboratórios e observatórios improvisados em suas casas. Muitas esposas atuavam como assistentes de seus maridos e várias conduziam suas próprias pesquisas e observações. Em 1678, a veneziana Elena Cornaro Piscopia foi a primeira mulher a se graduar em uma universidade europeia; em 1732, Laura Bassi, seria a primeira a obter uma cátedra professoral universitária no Velho Continente, na Universidade de Bolonha. As universidades, no entanto, nunca chegaram a ser um ambiente acolhedor à presença feminina. Mesmo assim, como os trabalhos científicos não exigiam uma instrução formal, a maioria dos pesquisadores e das pesquisadoras atuavam por meio da instrução autodidática e por experiência prática. À medida em que surgia a ciência moderna, com o declínio do papel central das universidades e ascensão das academias científicas e em que os cientistas se profissionalizavam - com a pesquisa transferida para centros especializados - as mulheres que quisessem contribuir para a construção do conhecimento científico se viam diante de apenas duas opções: ou perseguiam a graduação nas universidades ou atuavam na esfera privada como assistentes cada vez menos visíveis de seus maridos e irmãos.

A partir de meados do século 19 o ambiente universitário e científico gradativamente passa a se abrir à presença feminina junto com a primeira onda do movimento feminista - como a das sufragistas. Uma segunda onda ocorre entre as décadas de 1960 e 1970, com questionamentos não apenas quanto ao acesso às universidades, mas também aos domínios quase exclusivos de homens em áreas como as ciências exatas. No Brasil, a participação feminina passa a crescer justamente na segunda onda, época também em que a ciência se institucionaliza com o Plano Estratégico do Desenvolvimento Nacional e com a constituição de várias universidades públicas e institutos de pesquisas. Ainda assim, hoje as mulheres ainda são uma minoria dentro do corpo docente no Ensino Superior. Na USP, em 2012, pouco mais de um terço (37,7%, 2.207 entre 5.860 professores no total) dos docentes eram mulheres.

A questão da divisão entre as esferas públicas e privadas, no entanto, parece não estar adequadamente resolvida. “Esse é um aspecto presente em várias pesquisas realizadas sobre a condição da mulher hoje inserida no mercado de trabalho, pois, quando lhe é exigido responder pelas tarefas familiares, se sente numa situação limite”, explica Nadia Regina Loureiro de Barros Lima, psicanalista, doutora em Psicologia pela Universidade do Minho, Portugal, e em Linguística pela UFAL, onde atua no Núcleo Temático de Mulher e Cidadania (NTMC/UFAL). Barros Lima completa: “Se por um lado, o trabalho é fonte de prazer e realização pessoal, por outro, propicia conflitos existenciais, diante da dificuldade de conciliar os espaços público e privado. É como se o e espaço público ocupasse um lugar de fascínio mas, ao mesmo tempo, está sempre em rivalidade com o privado, daí o sentimento de se sentirem divididas.” Fernanda Regina Casagrande Giachini Vitorino, doutora em Farmacologia pela USP, docente de Fisiologia e Farmacologia na UFMT e uma das vencedoras do Prêmio L'Oreal/ABC/Unesco “Mulheres na Ciência” 2013, concorda: “Acho que os dilemas que uma cientista mulher enfrenta são os mesmos que uma funcionária de qualquer área enfrenta. Faltam creches e horários flexíveis para as mulheres em geral, principalmente quando nos tornamos mães. O sistema foi moldado para uma realidade que não existe mais. Temos que repensá-lo de forma a incluir todos de uma maneira mais digna.”

Mas como repensar o sistema científico-acadêmico? Apenas creches e horários flexíveis bastariam? Anayansi Correa Brenes, doutora em História Social pela UFF e professora da UFMG, onde coordena o Núcleo de Estudo da Mulher e Saúde (NEMS/UFMG) crê que não: “Certamente não ter creches criará problemas, mas elas não os resolvem diante da competição. Lembro falas de cientistas de outras épocas que textualmente anunciaram ter nas empregadas domésticas a aliança para chegar onde chegaram. Cuidando da casa, filhos e maridos. Posto isso, hoje, sem esse apoio, o custo da reprodução ficou impossível. Então, certamente, mulheres que desejem galgar poder, se não contarem bom estruturas familiares, evitarão ter filhos, casamentos…”. Cavalari segue na mesma linha: “Penso que a criação de creches, por exemplo, seria uma das possibilidades, mas não a única. Aquelas iniciativas mais organizacionais, me parecem mais adequadas para tentar prover uma relação igualitária para os diferentes gêneros na academia. A questão da produtividade atrapalha o trabalho de homens e mulheres na academia, mas me parece mais cruel as mulheres.” Mas Giselda Durigan, doutora em Biologia Vegetal pela Unicamp e pesquisadora do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, coautora de um trabalho pioneiro sobre a contribuição feminina na produção científica botânica no Brasil (2011, Hoehnea, v. 38, pp: 115-21) discorda: “Acho que os filtros que dificultam a carreira acadêmica feminina são mais culturais do que relativos à infraestrutura organizacional. Há várias alternativas de 'sucesso' feminino na vida que são socialmente reconhecidas, enquanto para os homens o sucesso profissional e um bom salário são quase que um alvo único.”

Durigan, com a graduanda em Ciências Biológicas pela Unesp, Natashi Aparecida Lima Pilon, analisou a autoria dos trabalhos submetidos aos Congressos Nacionais de Botânica da Sociedade Botânica do Brasil. A participação de trabalhos em que um ou mais dos autores eram mulheres aumentou de 51,6% em 1988 para 57,7% em 2009; mas a proporção de trabalhos em que o primeiro autor era do sexo feminino praticamente não se alterou, mantendo-se em torno de 40%. Enquanto isso, trabalhos publicados por mulheres em autoria única recuaram de pouco menos de 60% em 1988 para pouco mais de 40% em 2009. Utilizando-se de uma base de dados maior e cobrindo várias áreas científicas, Jevin D. West e colaboradores (2013, PLoS ONE, v. 8, n. 7, e66212) encontraram o mesmo padrão: aumento da participação feminina como autor, mas redução de trabalhos em que uma mulher é autora única. “Nós fechamos o nosso artigo sem explicar este resultado, que nos pareceu surpreendente, mas não imaginávamos que fosse um fenômeno mundial” - comenta Durigan. “Não saberia dizer se é bom ou ruim um cientista publicar sozinho, mas existe uma diferença importante, que possivelmente passa pelo perfil psicológico distinto entre homens e mulheres. E que deve ser levado em conta na formação de grupos de pesquisa.” - completa.

Segundo censo de 2010 na base do Diretório de Grupos de Pesquisa (DGP) do CNPq, as mulheres constituem metade do total de pesquisadores cadastrados, mas apenas 45% dos líderes de pesquisa. (Ainda que represente uma melhora substancial em relação ao quadro de 1995: 39% dos pesquisadores e 34% dos líderes.) Mulheres predominam em áreas sociais e de saúde como: Fonologia (89% dos pesquisadores são do sexo feminino), Enfermagem (87%), Serviço Social ((81%), Nutrição (81%) e Educação (67%); e estão em minoriais nas exatas: Engenharia Elétrica (13%), Naval e Oceânica (13%), Elétrica (14%), em Física (20%) e Engenharia Aeroespacial (22%). Por que essas diferenças?

Barros Lima descarta explicações puramente biológicas: “Como bem explicita [Sharon Berstch] McGrayne [em sua obra “Nobel Prize Women in Science”, 1993, NAP, 464 pp.], 'pais e professores acreditam plenamente em estatísticas desatualizadas, destinadas a mostrar as meninas como congenitamente incapazes de aprender matemática tão bem quanto os meninos'”.

Para a psicóloga o distanciamento começaria já na própria escola constituindo o “currículo oculto” (elementos fora do currículo oficial que fazem parte da aprendizagem social). Denise Bastos de Araujo, mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela UFBA e professora da Secretaria da Educação e Cultura do Estado da Bahia, também enfatiza o papel negativo que a escola e outras instituições sociais podem exercer: “Escola, família e mídia constroem para que as meninas não assumam posição de destaque e não tenham posição de liderança”. Dá como exemplo dessa construção o filme Gravidade (2013, direção de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney): “Enquanto o artista [Clooney] decide por soltar-se da nave, mesmo sabendo que ia morrer, e faz isso com total segurança e dignidade, a protagonista [Bullock] não apenas chora sem aceitar a decisão dele, como fica desestruturada. Olha só, o fato de ela estar no espaço, presume-se que tenha tido formação e treinamento. Precisa vê-la folheando atarantada as páginas de um manual de orientações, sem saber o que fazer. Essa forma de retratar as mulheres é uma constante em filmes, livros etc.”

Mesmo superando a barreira de entrada, as mulheres ainda sofrem para continuar e progredir na academia: publicam menos, ocupam menos cargos mais altos de direção e estão menos presentes em espaços mais nobres, de mais prestígio - como nas academinas nacionais de ciência. Para Cavalari o foco na produtividade para avaliação dos cientistas é prejudicial particularmente às mulheres que são mães: “Enquanto as mulheres passaram a trabalhar fora de casa, as relações de divisão do trabalho domestico, em geral, não foram redistribuídas. Esta situação faz com que a mulher seja sobrecarregada e, isto atrapalha o seu desenvolvimento profissional em diversas áreas, e, também, na academia. Pois esta exige muito tempo de dedicação, horas de estudo, trabalho, muitas viagens (participação de eventos, bancas). Além disto, cada vez mais, a academia tem exigido dos professores a produtividade... Existe, também, a situação dos filhos, pois os anos de consolidação da carreira, acabam coincidindo com os anos aconselháveis para se ter filhos, neste sentido, as mulheres vivem um dilema. Penso que a produtividade deva ser repensada e não entendo que a as mulheres tenham que se adaptar a ela.”

“Isso é totalmente verdade” - concorda Vitorino. “Por exemplo, a avaliação da nossa produtividade como pesquisadora muitas vezes não leva em conta o período de licença maternidade. O prazo dos meus orientandos do programa de pós-graduação não levam em conta que eu me ausentei por 6 meses pra cuidar do meu bebê. Os editais de pesquisa, tampouco. Para a ciência, prazos são prazos e devem ser respeitados incondicionalmente. A minha produtividade é comparada a de um homem solteiro. Logo, quando decidimos nos casar e ter filhos, isso é quase que tomar uma medida de suicídio de produção, mesmo que de forma temporária. É o preço que pagamos por nossas escolhas.”

“No momento que uma pesquisadora se torna mãe é inevitável que sua produção científica fica prejudicada. Isso deveria ser levado em conta pelas agências de fomento à pesquisa para que os prejuízos não sejam tão grandes.” - diz Raquel Giulian, doutora em Física pela Australian National University, docente da UFRGS e outra ganhadora do Prêmio “Mulheres na Ciência” 2013.

Durigan, no entanto, tem uma visão distinta: “De novo aqui, aparecem preconceitos velados. Por que é que somente as mulheres precisam dividir o tempo entre o trabalho e a família? Por que é que o mundo mudou e as relações entre homens e mulheres dentro de casa continuam arcaicas? As mulheres precisam tratar é de reivindicar divisão equitativa de tarefas dentro de casa. O sistema atual de produtividade acadêmica é tirano porque menospreza a qualidade. Mas esta é uma outra história e não tem nada a ver com as questões de gênero.”

Fatores culturais, históricos, institucionais, de infraestrutura, metodologia da avalição, tudo isso e mais aparecem como obstáculos na caminhada da mulher em sua contribuição para as ciências em geral e para a área de exatas em particular. “Diante das dificuldades que tem de enfrentar pelo caminho na sua carreira científica, faz sentido se dizer que a questão não seria 'por que tão poucas?', mas 'como tantas?'”, conclui Barros Lima de modo provocativo citando McGrayne a respeito da desproporção entre laureadas e laureados com o Nobel.
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Publicado originalmente em "DiCYT: 'Mas como tantas?'". © 2014 Fundación 3CIN 

Veja também (a lista deve ser atualizada posteriormente):

sábado, 29 de agosto de 2009

Caçando paraquedistas

O Scienceblog Brasil fez uma blogagem coletiva procurando atrair interneteiros incautos que procurassem por outros temas sob o mote: "Cientista também caça paraquedista". (Ok, essa introdução provavelmente lhe é inútil, já que certamente você sabia disso.)

O resultado foi, não inesperadamente, um tanto enviesado para o lado sexual. Embora sem um rigor de um levantamento estatístico apropriado, os temas sexuais foram exclusivos (Upideite (31/ago/2009): isso já não é mais verdade, já que Tatiana Nahas do Ciência na Mídia fez esta postagem) predominantemente dos blogueiros homens - dominantes (numericamente) em relação às blogueiras de ciências.

Sem entrar em questionamentos sobre o que tais escolhas refletem sobre.. aham, a visão de mundo de cada bloguista, creio que a caça seria mais proveitosa se se utilizassem uma metodologia, digamos, mais científica. Como?

Analisando-se as palavras e expressões mais procuradas pelos interneteiros. Há várias ferramentas disponíveis, uma das mais famosas é o Google Trends. Sim, ela, claro se baseia nos termos pesquisados no Google. Mas, como a campanha é voltada para os usuários desse sistema de busca, é mais do que apropriado.

As expressões mais procuradas no Google, no Brasil, nos últimos 12 meses são:
  1. jogos
  2. orkut
  3. youtube
  4. fotos
  5. videos
  6. globo
  7. musicas
  8. uol
  9. musica
  10. msn
Um aspecto que salta aos olhos é o fato das palavras mais pesquisadas referirem a nomes de sítios web bem conhecidos: orkut, YouTube, Globo, UOL, MSN - para isso bastaria escrever na caixa de endereços. Se se analisa o que as pessoas procuram relacionados a esses sítios, verificamos que são serviços comuns: no UOL, o Rádio UOL e o bate-papo; no orkut, as mensagens e recados; no Globo, esportes, novelas, rádio e TV; no MSN, o Hotmail e o Messenger. Um doce para quem adivinhar o que buscam no YouTube - sim, videos (e, ok, música). Isso parece refletir a inabilidade em busca e navegação por parte dos interneteiros brazucas (não, tio Houaiss, não vou escrever brasuca!) - alternativamente poderia refletir um gosto mais amplo: buscam "música" sem se importar exatamente com o estilo, com o grupo musical; ou que confiam muito nos resultados do Google (que se ajustam um tanto ao gosto dos usuários) - mas, na falta de maiores indícios em contrário, fico mais com a hipótese de que os brasileiros não sabem fazer pesquisa objetiva mesmo. (Há uma outra alternativa que não se pode descartar - a presença ostensiva de nomes de companhias pode ser fruto de ações das próprias empresas para elevar sua posição e se destacar: conseguindo uma publicidade gratuita. Outra possibilidade é que os usuários façam uma busca direcionada a sítios específicos: p.e. "letra musica caminhoneiro roberto carlos uol".)

Nota-se ainda que jogos, videos e músicas são os principais interesses. Sexo parece ser mesmo coisa para meninos - ao menos em relação à busca na internet. Sim, o Google não faz distinção pelo sexo dos usuários - ainda... Mas podemos ver pelos termos que mais cresceram entre as buscas.
  1. jogos de meninas
  2. youtube
  3. esporte
  4. hotmail
  5. globo
  6. vivo
  7. jogos online
  8. jogos
  9. vagalume
  10. tradutor
Nota-se em primeiro lugar "jogos de menina". Isso reflete bem que a internet não é mais domínio dos homens. Ou seja, as escolhas dos paraquedistas pelos scibloggers é focado em apenas uma parte do público da internet. Pode-se argumentar que o interesse por ciências é, tanto quanto por sexo (ao menos como busca na internet), uma característica eminentemente masculina - a predominância de XYs entre os bloguistas de ciências deve refletir esse fato. Mas, por outro lado, não seria então mais interessante diversificar a freguesia? Especialmente considerando-se que a caça é por paraquedistas?

Uma outra palavra que chama atenção é "vagalume". Uma análise mais detalhada indica que é um sítio web de música no UOL. Entre as buscas chama a atenção que "vagalume gospel" é a quinta colocada entre as que mais crescem (dentro dessa subcategoria) - indicando uma forte presença de evangélicos na internet (o que não espanta dado que constituem uma fração considerável da população - cerca de 1/5 do total -, isso também explica a presença aborrecida e ostensiva do criacionismo diletante na web).

Upideite(01/set/2009): Fernanda Polleto, do Bala Mágica, nos comentários do Ciência na Mídia chama a atenção para a filtragem do Google de certos termos em sua listagem final. Considerando-se isso, ainda assim temos: preco (92) à frente de sexo (79), que empata com celular, messenger e radio. Outros termos: televisão (80), saude, escola, casa, trabalho de casa, internet (81), uol, dinheiro (84), brasil, computador (86), terra (88), msn (90)...

domingo, 1 de março de 2009

Beautiful mind

Ok, é cafajeste e implica em sérios riscos de de algum modo desprezar os valores intelectuais delas (das cientistas); mas é irresistível.

Amy Mainzer é astrofísica da Nasa. Formada em física pela Stanford, mestre em Astronomia pela Caltech e doutora em Astronomia pela UCLA. Este é o blogue dela.

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