Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 4

Continuando a organizar a discussão, aqui deixo as contribuições via facebook.

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Na discussão no FB na postagem do Carlos Hotta (selecionei só parte dos comentários, que dizem respeito mais diretamente aos blogues de ciências):

Carlos Hotta Acho q o SBBr diminuiu a linkagem p/ blogs fora da rede. Visibilidade dá falsa impressão de saturação da comunidade. A comunidade deu uma fechada. Há a sensação de que tudo já é discutido pelo site.

Rafael Bento Soares Não vejo o menor indício para este argumento do SbBr ter influencia nisso. Gostaria que isso fosse verdade até, pq seria sinal de ter um poder e alcance que não temos. Dentro do SbBR a coisa já tá feia. Muita noticia passa batida sem ninguem comentar, e nao temos essa visibilidade toda, vcs sabem. Linkagem interna eu aposto que não fica acima da média entre posts de dentro e de fora do SbBr. Algumas contribuições: 1- O blog enquanto mídia atingiu seu plato, simples assim. É importante,estará sempre lá, mas nao cresce mais. Talvez ate caia um pouco até estabilizar. 2- leitores estão se satisfazendo com info, ou se distraindo, com o facebook. 3- É uma crise mundial na divulgação cientifica! Em congresso recente os top bloguers são os mesmos de 5 anos atrás(tempo que é uma eternidade no meio digital). A coisa mais surpreendente que apareceu foi no facebook, o I F* Love Science. Tudo está muito parado. Pessimistas podem pensar que ninguem quer saber disso mesmo, otimistas pensam que é a calmaria antes de alguma coisa nova e revolucionária.

Luiz Bento Gráfico do artigo que publicamos com dados do Research blogging (todas as línguas). Tenho certeza que se colocarmos 2012 e 2013 a situação vai ser ainda pior.

http://www.plosone.org/.../10.1371/journal.pone.0050109...

www.plosone.org

Rafael Bento Soares Aliás, perceba onde está acontecendo essa discussão: não na seção de comentários do seu blog, e sim no facebook. Isso é importante pq desestimula escrever se ninguém comenta abaixo, então o impeto de quem quer escrever é saciado no face mesmo.

João Carlos Antes de postar aqui, postei no Brontossauros. Repetindo o essencial: sinto falta do Roda de Ciência, mas - por minha própria experiência - constato que o mais difícil é conseguir consenso para blogagens coletivas. Tanto faz ser dentro do SBBR, como em um âmbito mais abrangente.

Carlos Hotta O Facebook é uma ferramenta melhor para se ter conversas. Mas muitos blogs prosperaram via Facebook e Twitter.

Roberto Takata Lembro que no 2o euclipo comentou-se rapidamente sobre a queda nos índices do tecnorati. OOsame Kinouchi sugeriu que era porque a interação estaria indo pro twitter, sem crosslinks indexados.

Kentaro Mori Está todo mundo no Facebook, até os cientistas. É coincidência que a produção e audiência de blogs caiu enquanto temos comunidades no Facebook relacionadas a ciência com mais assinantes do que qualquer site de ciências já teve de visitantes em um só mês? Não: http://www.slideshare.net/...


Roberto Takata Mas os que reduziram seu ritmo de blogagem estão publicando mais no FB? Os novos que publicam no FB têm um ritmo igual ou superior de publicação em relação aos blogueiros em 2009?

Kentaro Mori São dois (ou mais) "fenômenos": o principal é que são raríssimos os autores que conseguem manter uma produção estável por longos períodos sem uma motivação financeira, em qualquer meio.

Kentaro Mori O fenômeno secundário que é o que discutimos são os blogs, e eles são uma das ferramentas que facilitaram a divulgação -- e, apenas como um leve empurrão, incentivaram a própria produção -- de autores em uma fase de alguns meses a alguns anos em suas vidas. Mas como fenômeno secundário, como ferramenta para incentivar e divulgar conteúdo, o Fb como um todo com certeza se mostrou uma ferramenta que atrai um leque maior de autores, todo mundo é autor, criador. Uma das satisfações não financeiras de ter um blog era o retorno dos leitores, e o Fb permite essa gratificação de forma muito, muito mais fácil.

Kentaro Mori Há comunidades de entusiastas de ciência no Facebook com mais colaboradores, audiência e produção de conteúdo que o SbBr jamais teve. Acho que ordens de grandeza maiores, chuto que superando em termos absolutos de engajamento até grandes sites mainstream de antigamente como a SUPER. Hoje, até os blogs de veículos grandes como a Super têm pouco engajamento -- ou, continuam como sempre estiveram.

Kentaro Mori Da mesma forma que a tecnologia produziu essa coisa fantástica que eram os blogs, de você poder publicar conteúdo e ter ele acessado por qualquer pessoa, e poder ser encontrado pelo Google; agora a tecnologia produz essa coisa bizarra que é todo mundo em redes sociais fechadas, com conteúdo cheio de restrições, em plataformas que fazem o máximo para evitar que você deixe a própria plataforma. E vamos ter uma outra fase, com outras características, só não sei se vai ser melhor, pior, ou quando vai chegar...

Carlos Hotta Bom, estou interessado para ver o que irá acontecer no próximo "evento científico" tipo o H1N1. Quero ver se os blogs de Ciência têm algum valor de viralização.

Thiago Henrique Santos Se vale de alguma coisa, não acho que o SbBR tem culpa no processo, concordo que há uma sensação de comunidade fechada pra quem está de fora mas acho que por si só isso não é o suficiente pra inibir que novos blogs se formem "do lado de fora". 

Realmente não sei qual é o problema e, pra ser honesto, nunca parei pra pensar nisso. Só posso dizer da minha experiência. OPolegar Opositor está quase que abandonado pq eu não tenho mais o tempo que tinha pra atualizar o site. Em 2009 (ou 2008? Não sei mais) cheguei a publicar 3 textos por semana por meses sem parar. Depois a produção caiu, eu fiquei mega ocupado com o mestrado (o que, verdade seja dita, acabou rendendo outros tantos post's no blog). Minha própria motivação de escrever o blog mudou logo cedo, os textos de divulgação deram lugar aos textos que discutiam divulgação, depois veio a coisa da ciência 2.0 e etc.

Além da falta de tempo eu sinto mesmo que entrei num certo esgotamento. Raramente penso em assuntos complexos como algo que eu gostaria de elaborar em um texto pro Polegar e, mesmo quando isso acontece, dificilmente eu consigo levar o esforço de escrever até o fim. Em geral, perco o interesse antes de terminar o texto. Quanto a isso, gosto de culpar o mestrado, digo que foi um esforço intelectual tão grande que meu cérebro entrou em modo "férias por tempo indeterminado", mas eu sei que é mais que isso.

Enfim, ver o Polegar lá tão paradão me dá um sentimento de culpa perpétuo. Eu fico triste com isso, mas estou realmente sem meios de mudar a situação... #chatiado

Rubens Pazza Uma possível saída para este beco do Fb x blogs é o misto, ou seja, a publicação no blog repercutida por uma publicação no Fb. A propagação acontece via mídias sociais, onde também acontecem mais discussões e comentários. Algumas ferramentas inclusive permitem que os comentários do Fb sejam publicados diretamente no blog...

Isis Rosa Nobile Diniz Lendo a discussão, podemos chegar a uma conclusão: de modo geral, quem escrevia sobre ciência estava na faculdade ou era recém-formado (ou, por algum motivo, "tinha tempo" para tal). Os jovens de hoje nessa idade estão se dedicando ao Facebook. Eu, mesmo que falando para "ninguém", continuo escrevendo para o blog. Estou até com uma série sobre a Patagônia. Sei lá, acho que é uma maneira de deixar registradas informações que podem, quem sabe um dia, ajudar alguém. Além de ajudar a mim mesma a compartilhar todas essas ideias. Uma necessidade minha da comunicação.

Lucia Malla Acho uma tristeza acumular conteúdo no FB, pq ele é um buraco negro mesmo, onde o conteúdo é mega-efêmero e biased por mecanismos que só tio Mark entende. E está atrás de login/pswrd, o q me dâ desconforto. Mas vejo tb um esgotamento dos blogs, cansaço mesmo, parece que foram drenados pela falta de audiência. Curiosa pelo que pode vir pela frente, nesse cenário.

Luis Brudna O Lattes, CNPq e amigos até tentam dar uma valorizada em blogs e produções semelhantes, mas não existe uma forma de dar um valor relevante a um bom blog. Então o que ocorre é que parece ser mais produtivo se a pessoa cria trocentos blogs, twitter, facebook, etc com pouco conteúdo em cada. Se gor apenas um blog repleto de conteúdo interessante, contará como ´cara que tem só um blog´.

Luis Brudna Suspeito que dá pra fazer uma longa lista de blogs (e assemelhados) que foram usados apenas para gerar algum trabalho em congresso ou publicação "uso de blog na disciplina XYZ para ZZY", criam o blog, publicam sobre ele e depois abandonam para repetir o processo.

Shridhar Jayanthi No meu caso, o abandono veio da percepção de que questões que eu considero interessantes não eram questões que o público engajava. Eu tinha um número razoável de leitores mas pouquíssimos eram os que comentavam. A direção do meu blog mudou de "discussão de coisas que me interessam" pra "divulgação científica/educação". No princípio eu até gostei da idéia, mas no final das contas, não funcionou.

Carlos Hotta Acho que os blogs tendem a ter uma data de validade, com louváveis excessões. O esperado seria que sempre tivesse alguns blogs interessantes ativos, quanod estes diminuíssem seu ritmo, outros apareceriam. Atualmente há bons blogs por aí, o problema é que esse número, na minha opinião, deveria ser maior.

Caio Cícero Gomes Do meu lado, eu acabei perdendo o animo com em bloggar sobre ciencia no momento que eu percebi que acaba sendo uma tarefa bastante isolada.

De um lado, como o Shridhar Jayanthi falou, acabamos quase sempre se focando na divulgação ciêntifica, que não
necessariamente são os temas que mais me interessam.

Do outro lado, e o principal, é que os blogs acabaram nunca sendo o ambiente de debate que eu acreditava que seriam. O debate de um post eram os comentários, que sempre se focam em um ponto ou outro, mas nunca acabamos fazendo sequencias de posts que abrangiam temas maiores e diversos blogs com diversos pesquisadores.

Não sei como seria pra resolver isso, mas esse é o principal motivo de ter me desanimado.


Carlos Hotta O blog já foi uma ferramenta mais social. Foi até inventarem ferramentas melhores para isso: Twitter e Facebook. Só que ambos são mais efêmeros e rasos.

Carlos Hotta Bruno, uma das coisas que percebi logo é que os blogs realmente falham ao tentar atuar como substitutos da mídia tradicional. Eles agem em seu melhor quando tentam complementar o que foi publicado ou comentar o noticiado.

Bruno de Pierro E mais do que complementar, ele (o blog) deve desestabilizar.

Roberto Takata Eu aposto mais em um ecossistema de blogues/mídias sociais. Cada qual com suas peculiaridades e objetivos.

Carla Da Silva Almeida Minha humilde opinião: hoje, para se investir em algo que custa tempo, é preciso haver retorno, seja financeiro, seja de visibilidade ou mesmo de satisfação pessoal. Os blogs de ciência não conseguiram ter no Brasil a repercussão esperada; os blogueiros não tiveram o devido retorno – nem financeiro nem de visibilidade –, o que levou a uma certa frustração/insatisfação pessoal e falta de motivação em meio à extrema falta de tempo. Lá fora – na blogosfera em inglês – a história é outra; os blogueiros – antigos e novos – têm tido repercussão interessante e muitos têm retorno financeiro; alguns passaram a viver disso, inclusive (http://cienciahoje.uol.com.br/...). Houve uma profissionalização dos blogs que não acho que vá acontecer por aqui, por muitos motivos, incluindo talvez a falta de público/interesse pra isso. Mas sou otimista: acho que ainda está em tempo de virar o jogo e se tentar uma estratégia diferente na blogosfera brasileira, envolvendo cientistas, jornalistas, outros tipos de divulgadores e demais interessados em falar de ciência, cultura e política.

Maria Guimarães dei uma palestra ontem na embrapa sobre "novas tecnologias de comunicação". citei Carlos Hotta, Luiz Bento, Bruno de Pierro. mas o ideal seria mesmo ter posto esta discussão ao vivo. 
estou aqui pensando: a diminuição é mesmo real, tanto em quantidade como qualidade? a gente tem, por exemplo, uma medida de quanto o sbbr produzia antes e agora?


Maria Guimarães não concordo com a oposição facebook/blogs, são coisas distintas. o facebook, vê-se aqui, é a mesa de bar do blog. precisa ver em conjunto. na Pesquisa Fapesp a página do facebook é um bom complemento ao site.

Maria Guimarães será que chegamos a um platô, como acho que o Rafael disse? gente que precisa escrever sobre ciência não dá em árvore. talvez o facebook e o twitter bastem para aqueles que abriam blogues pra reproduzir conteúdo ou dar uns palpites. sobrou quem quer mesmo escrever.

Maria Guimarães no meu caso, comecei a precisar de tempo livre. porque esse tempo ficou mesmo mais escasso e precioso, mesmo antes de ter filho. e escrever no blogue já não supria essa vontade de descansar. continuo tendo vontade de escrever sobre um monte de coisas, mas falta energia. nunca me importei com quanta gente lia nem se fazia sucesso, embora fosse o máximo encontrar interlocutores. era, como disse a Isis, necessidade mesmo de escrever e contar coisas legais. agora pensando, talvez a expectativa de uma certa profissionalização contribua para o cansaço, crie resistência. mas ainda não achei coragem pra fechar o ciência e ideias

Isis Rosa Nobile Diniz Também me sinto como um corredor que encontra uma parede. Conhece a expressão?

Isis Rosa Nobile Diniz Maria Guimarães, quando a gente usa toda a energia para correr e não consegue mais manter, tendo que se superar, acreditar e diminuir o ritmo para continuar.

Claudia Chow Nao acho q exista crise de blogs de ciencia, há uma "crise" de blogs por conta do facebook (to usando a palavra crise na falta de uma melhor). Qdo vcs falam de crise de blogs de ciencia parece pra mim q algum dia fomos algo grandioso, de muito sucesso e super conhecido, discordo totalmente, de verdade fora as pessoas q escrevem no SBBr, seus conhecidos e os q trabalham com divulgacao cientifica nao conheci ninguem q soubesse o q é o Science Blogs, seja o brasileiro ou o estrangeiro. Quem trabalha na Universidade por favor pergunte para os alunos de graduacao qtos conhecem o Science Blogs, se aparecer alguns gatos pingados vou achar sensacional! Tenho q impressao q blog no Brasil nunca foi levado muito a serio...

Felipe Benites o SBBr penso que ficou tão conhecido como uma plataforma para blogs de um assunto específico na internet, quanto poderia ser! claro que é um local onde quem cai lá é quem procura sobre temas da ciência, se não cresce não é por falta de interesse do grande povo, e vamos ter de concordar que o interesse por ciência é isso aí mesmo, existe muito mais hoje do que nós anos anteriores! ciência sempre foi algo para poucos, a algumas decadas atras mal existia financiamento, e cá no brasil mal existia ciência! o que acontece como muitos ja disseram por aqui é que a forma de interação ficou diluída com o facebook, eu mesmo publico imagens e textinhos curtos em forma de postagem no meu perfil pessoal, e atinge um bocado de gente, talvez mais do que se publicasse no blog. Minha "desculpa" é que antes estava com poucas disciplinas da faculdade e trabalhava somente no IC, agora me formei dou aulas em duas escolas e etc, daí como ja divulgo por aqui alguns textos, links e imagens, meio que dá uma desmotivação sim, entrar no wordpress, senha, colocar imagem e editar texto (e é preguiça mesmo, mas que logo vai ter de sumir por que o plano é voltar com maior periodicidade no blog)...bom esses são meus 2 cents por enquanto, mas digo-lhes que o negócio é continuar escrevendo, por que sim, não foi o interesse que diminuiu dos leitores 

Catarina Chagas Trabalho com jornalismo científico. Já tive blog, mas não de ciência. Se valer como testemunho pessoal, deixei de atualizar porque (ó, vida!) deixei de ter tempo, como tantos outros já disseram aí.

Meu blog tinha alguns leitores cativos e alguns visi
tantes, mas nunca decolou e acredito que o motivo seja simples: nunca foi feito para os leitores. Meu blog era feito para mim - para guardar lembranças, compartilhar fotos e textos com amigos, dar notícias à família.

De alguma forma, acho que essa reflexão também poderia ser transposta para a discussão sobre os blogs de ciência. Para quem são feitos? Alguém foi lá perguntar para o público-alvo o que ele queria?

Um tempo atrás li em algum blog (deve ser de um de vocês, acompanho a maioria e peço desculpas por não saber a referência certinha) que a maioria dos blogs de ciência era lida por outros cientistas/blogueiros de ciência. Procede?


Catarina Chagas Em tempo: eu não acho que as pessoas têm que fazer tudo para um público. Acho que elas podem (e devem, e eu mesma fiz) fazer blogs para elas mesmas, mas nesses casos não dá para esperar grandes retornos...

Discussão no Grupo Divulgação Científica e Popularização da Ciência
Dirceu Dias Em um passado não muito distante, coisa de 3 anos iniciei alguns passos em blogue e logo depois acabei desistindo. A desistência se deu em função de tempo. Hoje estou no facebook e considero a ferramenta mais ágil e mais fácil de se manter.

Roberto Belisário É, isso acontece com uma montanha de gente. Eu comentei o seguinte com a Tatiana Nahas: "Parece que blogueiros de ciência têm prazo de validade. Em algum momento o ritmo cai. Até aí tudo bem. Assim são os blogs amadores. Porém, se isso está tendo reflexo na produtividade média dos blogs de ciência brasileiros, é porque não surgiram blogs novos, com blogueiros ainda "dentro do prazo de validade". A questão é: por quê."

Dirceu Dias Essa é uma boa questão. Merece ser investigada. Talvez outra questão esteja vinculada a sua questão. Como "nasce" um divulgador da ciência?

Roberto Belisário Os que eu vi, nasceram do incômodo e do tesão em explicar coisas para leigos. São pessoas que sentiram uma vontade de divulgar suficientemente intensa para fazê-los tomar as rédeas e virarem divulgadores. Eu, incluso. 

Aí tem o caminho das pedras, que
 caminho alguém que tem vontade de se meter com isso profissionalmente poderia fazer. Há os cursos de jornalismo científico, como os do Labjor/Unicamp. Mas acho que a melhor maneira é meter as caras. Escrever seus próprios blogs, facebucar, tuitar, fuçar fontes alternativas, aprender, conversar com gente. Dar vazão ao incômodo e à vontade. É impressionante as consequências que posts em blogs podem ter. A gente os deixa dependurados na Internet e algum tempo depois alguém nos procura com uma oportunidade.


Outros:
Como blogueiro de ciências vejo que realmente é difícil escrever sobre ciências. Qualquer tema (por mais simples que seja) merece uma boa pesquisa e um certo tempo de dedicação. Embora receber por escrever seja uma boa ideia (já que manter um site realmente gasta e ter pelo menos isso pago seria de grande ajuda), o maior problema é, de fato, o tempo disponível. Estou no fim da graduação e com planos futuros que acabam competindo pela atenção que o blog necessita.

Embora não tenha 'respondido' diretamente ao Takata, que começou com esse tipo de questão em seu blog, realmente o maior problema é a falta de tempo em sentar na frente do PC, pensar num tema bacana e escrever, pesquisar, descobrir que não sabia nada no assunto, pesquisar, pesquisar, escrever, achar imagens (de preferência em CC), ver se está certo, publicar. Não é nada fácil.

sábado, 5 de outubro de 2013

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 3

Reorganizando a discussão em torno da situação atual dos blogues de ciência no Brasil. Nesta postagem concentro as interações no twitter.

No twitter:
Acompanhe também a hashtag #blogciencia







Algumas questões que vão além dos blogues:


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A @marifiora reuniu o material da discussão em um storyfy.

Upideite(08/nov/2015):

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 2

Na blogocúndia filomática brazuca:

*Carlos Hotta: Brontossauros em Meu Jardim: Cadê os blogs brasileiros sobre Ciência?
*Rubens Pazza: DNA Cético Teias de aranha nos blogs de divulgação científica
*Luciano Queiroz: Dragões de Garagem Teia, crise ou culpa é nossa?
*Carlos Hotta: Brontossauros em Meu Jardim Alguns blogs de Ciência que talvez vc não conheça
*Bruno de Pierro: Blog do Bruno de Pierro A grande conquista dos blogs de ciência no Brasil
*Carlos Orsi: Carlos Orsi Blogs de ciência em crise?
*Átila LIamarino: Rainha Vermelha Bem-vindo de volta ao Rainha Vermelha
*Filipe Saraiva: Stoa Filipe Saraiva Um planet para os blogs de ciência do Brasil
*Rubens Pazza: DNA Cético Como alavancar a divulgação científica via blogs no Brasil?
*Filipe Saraiva: Filipe Saraiva's blog Protótipo do Planeta Ciências Brasil
*Roberto Berlinck: Quiprona Há uma crise nos blogues de ciência no Brasil?
*André: Ceticismo.net Mãe, quando crescer quero ser divulgador de Ciência
*Rubens Pazza: DNA Cético Making off do Bolsão de Blogs
*Rubens Pazza: DNA Cético Making off do Bolsão de Blogs II
*Rubens Pazza: DNA Cético Making off do Bolsão de Blogs III
*Rubens Pazza: DNA Cético Making off do Bolsão de Blogs IV
*Rubens Pazza: DNA Cético Making off do Bolsão de Blogs V - Final
*Mariana Fioravanti: Polimerase de Mesa O início do #blogciência
*Mariana Fioravanti: Storify #blogciencia1
*Tatiana Nahas: ciêncianamídia crise não, mudança!
*Wesley Santos: Wesley Santos - Ash! Divulgar ciências like a ciência!
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Nos comentários da postagem anterior:

Gabriel Monteiro disse...

Olá Roberto, boa noite! Gostaria de contribuir com seu artigo. A menos de um ano, um amigo que se formou comigo (biologia) tomou a iniciativa de criar um blog (www.PortalCiencia.org). No entanto Rodolfo queria envolver (a princípio) vários de seus colegas e amigos, como forma de estimular a divulgação de suas pesquisas e trabalhos. O blog, desde seu início tem caráter colaborativo. O blogue não contou em nenhum momento com investimento externo e foi se mantendo com propagandas do Google. O Blog cresceu substancialmente (para um ano de vida) e com o dinheiro arrecadado pelas propagandas lançamos um concurso de redações focando o ensino médio de escolas brasileiras, o tema proposto pelo blog é "o papel do pensamento científico num país democrático". Em suma, o ânimo dos colaboradores em publicar e ver o blog dar frutos só aumenta. Em meu caso, particular, me sinto estimulado a postar artigos envolvendo questões trabalhadas na especialização em Jornalismo Científico (Labjor - Unicamp), pois começo a lançar um olhar muito mais crítico a respeito da ciência e sua repercussão na sociedade.

Parabéns por suscitar essas discussões.

Forte abraço, Gabriel Monteiro.

José Carlos Antonio disse...
Estamos ficando velhos e cansados. :)

Simões Lopes disse...
Blogs tomam tempo, e se vc quer fazer um blog realmente bom, vc precisa justamente de mais tempo, para pesquisar, editar, corrigir, coletar dados, imagens. Boa parte dos blogueiros faz isso como um hobby, e isso obviamente significa que precisam conciliar a atividade com sua vida profissional, além dos problemas da vida pessoal. Eu mesmo criei um blog em 2006, Mitoblogos, para falar de mitologia, fiquei sem tempo, quase não postei, depois foquei numa outra área que gosto, Genealogia, e vez por outra incluía algumas postagens sobre notícias de paleontologia. Mas o tempo ficoi mais curto ainda, e praticamente não escrevo mais nele. Acho que o Facebook é um fato a ser considerado, pois para quem quer se divulgar, é mais fácil postar textos em redes sociais, o que torna mais fácil até trocar comentários.

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(estou resistindo bravamente a não usar um título do tipo: "parou por quê? por que parou?")

Upideite(05/out/2013): como esta postagem está crescendo bastante, irei reorganizá-la. Os tweets passei para outra postagem.
Upideite(08qout/2013): os comentários e atualizações do facebook agora estão aqui.
1Upideite(07/dez/2014): adido a esta data.

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?

Não tenho nenhum levantamento sistemático maior. Segundo uma reportagem da Revista Pesquisa Fapesp (que só incidentalmente registra os números), de 210 blogues de ciência analisados, apenas 97 publicaram em 2013 (eles eliminaram da análise os blogues que, como o Gener Repórter, não mantêm um perfil do autor).

ODos blogues de ciência que acompanho mais de perto desde 2009 - muitos dos quais no Scienceblogs Brasil -, 100% tiveram uma queda substancial no ritmo de postagem. Verdade que a maioria era de pós-graduandos (embora nem todos): à medida em que chegam perto do fim do doutorado/mestrado ou entram na vida docente e de pesquisador contratado, o pouco tempo livre que teriam para blogar acabam consumido entre redação de tese e dissertação (caso, por exemplo, de Fabio Machado, do Haeckeliano), relatórios, trâmites burocráticos, cuidar dos filhos que chegam... Mas mesmo entre os que já eram profissionais contratados noto uma diminuição de ritmo.

Mesmo os perfis no twitter estão menos ativos. Não posso dizer muito a respeito da situação no Facebook - quase não acompanho por lá os divulgadores de ciência.

Átila Iamarino, do Rainha Vermelha, acha que é pelo envelhecimento dos blogueiros, enquanto os novos estão em novas mídias.

Rubens Pazza, do DNA Cético e do Rock com Ciência, pensa que pode estar a haver uma crise de ideias sobre o que blogar - em resposta à pergunta da Mariana Fioravanti (integrante do que podemos chamar de nova geração de blogueiros), do Polimerase de Mesa, sobre como ter sempre ideias para postagens - mas também integrante do grupo dos "sem tempo".

Eu pessoalmente tenho tido algum problema de tempo - entre trabalho e curso - e alguma falta de motivação: parte da vontade se dá justamente pela interação com outras pessoas que gostam da temática científica (parte da motivação e inspiração, no entanto, vem exatamente pelo curso - já que os colegas são cientistas e jornalistas de ciências). Há ainda uma crise jornalística (mormente econômica) que reduziu a cobertura de ciências,  mais uma fonte minha de tema e motivação. Além disso, há um certo acúmulo de escândalos envolvendo cientistas e publicações: fraudes, esquemas de citação cruzada e condutas reprováveis em geral - que causa uma certa desmotivação em mim.

E, então, meu par de leitores do GR, onde vocês têm publicado seu conteúdo de divulgação e/ou de onde vocês têm consumido tais conteúdos? Também têm notado uma diminuição no ritmo de novas publicações? Se você produz e tem enfrentado dificuldades, elas são de que natureza?

Upideite(01/out/2013): Carlos Hotta, do Brontossauros em Meu Jardim, comenta sobre o tema.
Upideite(01/out/2013): Mais uma linha de indícios de queda das postagens em blogues de ciência (agora em nível mundial): "The frequency of posts grew vigorously from the establishment of Research Blogging in November 2007, with the number of posts in 2009 doubling over 2008 [Fig. 1]. After a peak in 2010, in 2011 the number of posts declined to levels similar 2009." (via Luiz Bento FB.)
Upideite(01/out/2013): Aliás, acompanhe a discussão também no facebook de uma postagem de Carlos Hotta.
Upideite(01/out/2013): Rubens Pazza comenta no DNA Cético.

sábado, 28 de setembro de 2013

Diretório de agências brasileiras de notícias científicas

Pretendo aqui manter uma listagem de agências brasileiras especializadas em notícias científicas (e acadêmicas) que têm sítios web e ali publicam seus textos. Quem tiver alguma indicação, fique à vontade para postar nos comentários.

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Agências
FAPs
IFES/IEES
Periódicos
FAPs
IFES/IEES
Blogs
FAPs

Rádio e podcasts
FAPs
Empresas públicas
TV e videoblog/videocast
FAPs

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

VEI, de boa. E lá vamos nós outra vez com bactérias alienígenas*

Sim, há uma boa dose de preconceito e de simplificação. Mas, na falta de um maior embasamento analítico, pode-se usar o fluxograma abaixo para fazer uma primeira filtragem a respeito de estudos na área da astrobiologia/exobiologia.


Figura 1. Fluxograma para triagem de notícias a respeito de vida e espaço.

O diagrama acima já ajudaria, de cara, a não termos que comentar sobre um estudo que conclui que formas de vida "chovem" a partir do espaço trazidas por partículas de poeira de cometas.

Época: "Cientistas britânicos dizem ter achado na atmosfera vida originada fora da Terra"
UOL: "Ingleses dizem ter provas de vida alienígena que veio parar na Terra"

Só o jornalista Salvador Nogueira, em seu Mensageiro Sideral, lança um tom de questionamento a respeito.

O Journal of Cosmology não tem a melhor reputação entre os cientistas - nem mesmo entre os do ramo da astrobiologia - com frequência, artigos estranhos a respeito de formas de vida alienígena são publicados lá.

De um lado nem dá para dizer se as formas analisadas são de origem orgânica. É possível que sejam. Mas o argumento para refutar origem terrestre é extremamente débil.

Partículas da superfície de nosso planeta frequentemente são lançadas a grandes altitudes em nossa atmosfera. Por vulcanismos, por impactos de bólidos extraterrestres e até por fenômenos atmosféricos. Os autores alegam que, nos três anos anteriores à coleta das partículas, não houve um grande evento de vulcanismo na região de lançamento- mas erupções vulcânicas de VEI (índice de explosividade vulcânica) 4 (capazes de levar à injeção de material na estratosfera) tem ocorrido em uma média de 2 erupções por ano desde 2008 nessa magnitude e, uma vez na estratosfera, o material pode se espalhar rapidamente.

Não é que a panespermia seja uma hipótese de todo má. Não é que não possa haver vida no espaço. Mas é preciso muito cuidado no teste de hipótese. Trabalhos ruins como esse, com uma denegação apressada da possibilidade de origem mais comezinha: exagero nas dificuldades da hipótese contrária e exagero nas vantagens da hipótese de estimação - apenas depõem ainda mais contra um campo de estudos em que virtualmente não se tem em mãos o objeto de estudo.

Os jornalistas e divulgadores de ciência, na minha opinião, devem ter isso em mente.

*Upideite(22/set/2013): Na verdade, a alegação é de vestígios de organismos ainda mais complexos do que bactérias: algas unicelulares conhecidas como diatomáceas. Os autores citam o trabalho de Griffin 2004 que recuperou micro-organismos terrestres viáveis de altitude de 20.000 km - bactérias e fungos -, mas acreditam que não é possível que o fragmento que identificam como de diatomácea (do gênero Nitzschia) tenha origem terrestre.

Upideite(22/set/2013): Curiosamente, os autores - apesar de citarem a navalha de Occam contra hipóteses mais prosaicas - não discutem a possibilidade de, em um evento remoto, um choque de um bólido extraterrestre ter ejetado material da Terra para o espaço, vagando por milhares ou milhões de anos no espaço e ocasionalmente sendo recapturado pela gravidade terrestre.**

Upideite(22/set/2013): Mais críticas ao estudos.
Richard Gordon Critique of a claimed discovery of a diatom from outer space
Phil Plait Has Alien Life Been Found In Earth's Atmosphere? I'm Gonna Go With "No".

**Upideite(24/set/2013): Um dos autores, por email, diz que a hipótese foi considerada, mas não foi discutida por não haver indícios.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 19

Aproveitando minhas leituras para o curso de especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp, faço minhas anotações do texto de Claudio Bertolli Filho, da Unesp, sobre... jornalismo científico.

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Bertolli Filho, C. 2006. Elementos fundamentais para a prática do jornalismo científico. Recensio.

definição
"O Jornalismo Científico, que deve ser em primeiro lugar Jornalismo, depende estritamente de alguns parâmetros que tipificam o jornalismo, como a periodicidade, a atualidade e a difusão coletiva. O Jornalismo, enquanto atividade profissional, modalidade de discurso e forma de produção tem características próprias, gêneros próprios e assim por diante." (Anônimo 2004)

"Um caso particular de divulgação científica e [que] refere-se a processos, estratégias, técnicas e mecanismos para veiculação de fatos que se situam no campo da ciência e da tecnologia. Desempenha funções econômicas, políticoideológicas e sócio-culturais importantes e viabiliza-se, na prática, através de um conjunto diversificado de gêneros jornalísticos" (Wilson Bueno 1984)

linguagem
O JC - e a divulgação científica - não é mera adaptação do discurso-fonte para o público destinatário. Envolve um trabalho novo e original de formulação discursiva (não é mera reformulação).

Envolve uso de múltiplas estratégias de linguagem como metáforas e analogias (fonte de potencial desacordo com os cientistas). Perigo de simplificação excessiva e distorção.

critérios para publicação
1. senso de oportunidade - trabalho antigo volta despertar interesse por algum fato.
2. timing - evento externo a novos acontecimento científicos desperta o interesse da opinião pública.
3. impacto - um trabalho, mesmo antigo, interessa a um grande número de pessoas.
4. significado - profissionais de mídia percebem a importância científica e/ou social de um novo trabalho.
5. pioneirismo - descoberta de um fato novo.
6. interesse humano - envolvimento de emoções humanas para sensibilizar o público e incitá-lo à ação.
7. personagens célebres ou de ampla exposição na mídia - entrevista com autoridades científica e profissionais de prestígio.
8. proximidade - quanto mais próximo o evento do público, maior o potencial de interesse.
9. variedade e equilíbrio - evitar a monotonia, variedade de matérias e enfoques.
10. conflito - situações de confronto despertam o interesse do leitor.
11. necessidade de sobrevivência - matérias que criam no leitor sensação de informação útil para seu bem estar físico e mental.
12. necessidades culturais - novas opções de comportamento e recursos para autoconhecimento.
13. necessidade de conhecimento - "paixão pelo saber" de parte dos leitores.

percalços
1. analfabetismo científico - desconhecimento sobre fatos básicos de ciências pelos profissionais de mídia.
2. interesses das empresas e institutos de pesquisa - podem supervalorizar seus achados para melhorar a imagem ou aumentar os lucros das companhias.
3. relação jornalista/cientistas - reclamações dos cientistas: falta de conhecimento dos jornalistas, tempo tomado, distorções; reclamações dos jornalistas: dificuldade de agendar entrevista, não responder às perguntas feitas, usar jargão e terminologia complexa, machismo, paternalismo.
- Diferenças:
- a. político-culturais: cientistas/paixão pela ciência, jornalista/análise crítica da ciência
- b. vocabulário: potencial de distorção na 'tradução'.
- Soluções parciais:
- a. treinamento de jornalistas: cursos de especialização.
- b. treinamento de cientistas: orientação da relação com jornalistas.
4. questão das fontes
a. palestras à imprensa.
b. comunicado à imprensa.
c. congressos científicos.
d. resumos.
e. press-releases - .
f. periódicos especializados.
Cuidado com os interesses pessoais, comerciais e institucionais (como busca de verbas governamentais e promoção pessoal), distorções pelos cientistas no entusiasmo de acreditar em seu trabalho... Agendamento de pauta pelos cientistas, institutos e publicações. Sistema de embargo de publicações.
Soluções parciais: ouvir outros especialistas não-envolvidos.

leitor
visão dos jornalistas/empresas de comunicação:
- interesses comerciais: paga pelas notícias
- visto como analfabeto científico
visão dos pesquisadores (Revuz 1998, Nunes 2003):
- afoito por novidades, inteligente, curioso por ciências, consciente de que seu conhecimento é menor do que o dos especialistas
Krieghbaum 1970
- parte vira a página ou muda de canal sem demonstrar curiosidade
"As reações às notícias e informações sobre ciência (...) formam uma série que vai desde os que estão cegos em relação à ciência até os que absorvem o noticiário científico e, até certo ponto, os que procedem de acordo com ele"
*Necessidade de despertar e manter o interesse dos leitores x espetacularização

ética
1. conflito de interesses - não aceitar presentes e privilégios na realização da matéria.
2. ganho financeiro pessoal - não noticiar sobre companhia da qual o jornalista tenha vínculos muito próximos.
3. ética das publicações - não publicar anúncios, próximos às notícias, de produtos envolvidos na matéria; corrigir rapidamente imprecisões e erros.
4. contar o que sabe - relatar tudo o que o jornalista julgar importante: conflitos de interesses, divergências na comunidade científica... preservar a imagem das personagens que não coloque em risco a comunidade.
5. ética nas escolhas - tomar ou não partido de um lado.

Possíveis fontes de erros e conflitos (Resnik, 2003)
o público pode:
a. carecer de informações necessárias sobre temas científicos;
b. estar mal informado sobre temas científicos;
c. não entender alguns conceitos ou recomendações científicas;
d. interpretar mal a informação científica;
e. estar completamente confuso sobre os temas científicos e a natureza dos debates científicos;
f. ver-se exposto a bobagens científicas.
os cientistas podem:
a. precipitar-se na hora da publicação dos dados;
b. manter algo em segredo para proteger sua pesquisa preliminar ou evitar controvérsias;
c. falhar em informar a imprensa e o público sobre seu trabalho.
os meios de comunicação podem:
a. ter problemas em ter acesso a congressos científicos e outras fontes de notícias;
b. deixar-se levar por falácias lógicas e estatísticas, evidências anedóticas e amostras enviesadas;
c. citar erroneamente ou fora de contexto;
d. usar fontes marginais ou não dignas de confiança;
e. cair no sensacionalismo, distorcer ou dar enfoque parcial às notícias;
f. deixar de cobrir ou abandonar o seguimento de notícias importantes.

Mitificação do conhecimento científico
Receio em criticar a lógica e aplicação da C&T
Caricaturização da ciência
Determinismo biológico
Preconceito étnico-racial

Recomendações (Segunda Conferência Mundial de Jornalismo Científico 1999):
1. Reconhecer as responsabilidades crescentes e noticiar de forma clara, precisa, íntegra, independente, honesta;
2. Apresentar com atenção não apenas a C&T, mas também os contextos político-sociais e seus meios de produção;
3. Romper as barreiras de língua e se esforçar em apresentar os assuntos de outros países;
4. Oferecer (os editores, organizações de rádiodifusão e outros) apoio e treino aos jornalistas;
5. Desenvolver o fluxo de informações na internet em outras línguas além do inglês;
6. Monitorar também a informação na internet para garantir qualidade, precisão, objetividade e integridade;
7. Apoiar (a Unesco e outras organizações) a criação de um federação mundial de jornalistas científicos [criada em 2002 - WFSJ] e associações nacionais;
8. Apoiar (a Unesco e outras organizações) a criação de espaços de treinamento de jornalistas em todas as regiões e países.

funções
Parâmetros
1. utilidade - o conteúdo útil na tomada de decisões pessoais
2. responsabilidade social - ajudar os cidadãos na tomada de decisões sociais e políticas em matérias que envolvam C&T;
3. valor intrínseco do conhecimento - conteúdos culturalmente universais ou importantes para a história humana;
4. valor filosófico - contribuir para a capacidade de refletir sobre significados e questões como vida e morte, percepção da realidade, certeza e dúvida, bem estar individual x coletivo...

Caráter didático e complementar à educação formal.
Contribuir para a crítica política e fortalecimento da democracia.

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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Por que Voyager-1 é um ótimo nome para uma banda musical?

Notícias sobre a sonda Voyager em diversas publicações:
Voz da Rússia: Voyager deixa o Sistema Solar
Galileu: É oficial: a Voyager 1 saiu do Sistema Solar
Info: Sonda Voyager-1 sai do Sistema Solar
Info: Voyager 1 deixou o sistema solar, diz novo estudo
G1: Sonda Voyager é 1º objeto feito pelo ser humano a deixar o Sistema Solar

Normal, afinal um evento com algum significado - primeiro objeto feito pelo homem a ir para além das fronteiras de nosso sistema solar - chama mesmo a atenção e tenderá a ser coberto por vários veículos.

O problema: as datas. Cada uma dessas notícias são de dias diferentes - e distantes vários meses um dos outros: 16/jun/2012, 25/ago/2012, 21/mar/2013, 16/ago/2013, 12/set/2013. Seriam veículos retardatários a descobrirem só depois um evento ocorrido já há algum tempo?

Imagem: xkcd

Não. Cada uma delas relata um evento distinto. "Distinto?" - coçará, com razão, a cabeça o par de leitores deste blogue (sim, nossa audiência dobrou - agora não temos mais apenas um leitor solitário). "Como pode isso? Quantas vezes algo - que não faz retorno - pode sair de um mesmo sistema?"

"Apenas uma vez", respondo eu. "WTF!" - exclama.

Há vários fatores que parecem ter levado a esta situação.

O limite do Sistema Solar não é bem definido. Não existe uma barreira propriamente física estabelecendo que a partir dali estar-se-á no espaço interestelar. A convenção do limite é de uma região chamada heliopausa - onde haveria uma rápida queda na temperatura das partículas carregadas do vento solar, um grande aumento de partículas do raio cósmico intergalático e mudança na direção do campo magnético (isso de dentro para fora do Sistema Solar)*.

A heliopausa até então nunca havia sido atingida diretamente com instrumentos - era uma construção teórica baseada no que se sabe sobre as interações físicas e propriedades do Sol e da Via Láctea. Suas reais características podiam apenas ser estimadas, havendo espaço para discrepâncias com medidas reais.

Essa variação embora aguda - considerando-se o estado em regiões mais próximas ao Sol - é contínua. Uma detecção de uma rápida queda estabelece a pergunta de a partir de onde considera-se que houve uma queda significativa - já que pode haver flutuação.

A variação desses três fatores - temperatura de partículas carregadas, variação da intensidade dos raios cósmicos galáticos e das linhas do campo magnético não coincidem exatamente no espaço.

Em quinto lugar, é esperada uma variação nessa região limite - conforme, por exemplo, haja uma variação na intensidade do vento solar.

Há uma variação na própria medição - como por limitação de precisão dos instrumentos.

Mas, possivelmente, os dois principais fatores sejam:
1) A imprecisão da comunicação pelos cientistas, incluindo exageros declaratórios;
2) A imprecisão da comunicação pelos meios de comunicação, incluindo sensacionalismos e má compreensão do que ocorreu.

Entre junho de 2012 e março de 2013, as manchetes mais comuns eram mais prudentes. Falavam em estar a sonda na "iminência de deixar o Sistema Solar" ou "próxima ao limite": o que se havia detectado eram a queda do número de partículas solares e o aumento da intensidade dos raios cósmicos, além da conexão entre as linhas do campo magnético solar e do espaço interestelar - mas não a mudança na direção dessas linhas. Os veículos que anunciaram a saída da Voyager-1 se precipitaram.

Alguns veículos voltaram a noticiar a saída da Voyager-1 por volta de julho de 2013. Mas não havia fato propriamente novo, apenas a publicação dos achados do segundo semestre de 2012.

*Agora* há um anúncio *oficial* da Nasa de que, pelas análises dos dados, a Voyager-1 deixou o sistema solar em *agosto de 2012* (por volta do dia 25).

Não me espantaria, porém, se, como aquelas bandas que fazem seu último show de despedida por vários anos, houver futuramente mais um anúncio de outra saída da nave de nosso sistema.

*Upideite(17/set/2013): Outra convenção a respeito dos limites do Sistema Solar é o cosmográfico. Nesse caso, a nuvem de Oort - formada por plaenetesimais orbitando em torno do centro do nosso sistema - é o limite teórico. Para essa nova saídao da Vger-1, a data é de cerca de 30 mil anos no futuro. Tempo para muitas despedidas mais.

*Upideite(26/abr/2014): Mais um quadrinho sobre as saídas da Voyager-1 de nosso sistema. Via Hypercubic fb.


Fonte: Tom Gauld.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Como é que é? - Produtos vegetais não têm colesterol?

ResearchBlogging.orgAté há pouco tempo era comum certos produtos de origem vegetal - como óleos e bebidas do tipo "leite" de soja - destacarem em seus rótulos dizeres como "não contém colesterol" ou "0% colesterol".

Em 2012, a Anvisa baixou um regulamento (RDC 34/2012 - anexo item 3.7) que determina:
"3.7. Quando a INC [informação nutricional complementar] for baseada em características inerentes ao alimento, deve ser  incluído um esclarecimento seguido à declaração, de que todos os alimentos desse tipo  também possuem essas características, com o mesmo tipo de letra da INC, com pelo  menos 50% do tamanho da INC, de cor contrastante ao fundo do rótulo e que garanta a  visibilidade e legibilidade da informação."

Assim, o "sem lactose" de uma bebida à base de soja deve vir seguida de um "como todo produto de origem vegetal".

No caso do "não contém colesterol", os fabricantes seguem o mesmo procedimento, colocando em seguida "como todo produto vegetal" - geralmente o "pelo menos 50% do tamanho" é interpretado pelas empresas como "não maior do que 50%", e como a resolução é referente ao tamanho *da fonte*, quase sempre o "NÃO CONTÉM COLESTEROL" vem em caixa alta e em negrito (enquanto o "como todo produto vegetal" vem em caixa baixa sem negrito).

Mas a rigor o "não contém colesterol como todo produto de origem vegetal" é um tanto enganoso. Por dois motivos. O primeiro é porque o "não contém colesterol", na verdade, refere-se a produtos que seguem o limite máximo de 0,5 mg de colesterol por 100 g ou 100 ml do produto (ou por porção - além de ter um máximo de 1,5 g de gorduras saturadas totais por 100 g ou 100 ml ou porção do alimento), conforme a mesma resolução. O segundo é que vegetais *têm* colesterol, ainda que normalmente em teores bem mais baixos do que produtos de origem animal.

Behrman & Gopalan (2005) observam que essa concepção errônea de que os vegetais não têm colesterol é disseminada na maioria dos livros-texto de bioquímica. E sugerem um parágrafo sobre o tema:
"More than 250 steroids have been described in plants. Of these, perhaps sitosterol, which differs from cholesterol by an ethyl substituent at position 24, is the most common. But plants also contain cholesterol both free and esterified. Cholesterol occurs as a component of plant membranes and as part of the surface lipids of leaves where it is sometimes the major sterol. The quantity of cholesterol is generally small when expressed as percent of total lipid. While cholesterol averages perhaps 50 mg /kg total lipid in plants, it can be as high as 5 g/ kg (or more) in animals."
["Mais de 250 esteroides foram descritos em plantas. Destes, talvez o sitosterol, que difere do colesterol por um substituinte etil na posição 24, seja o mais comum. Mas as plantas também têm colesterol tanto livre como esterificado. O colesterol está presente como um componente das membranas vegetais e como parte dos lipídios de superfície das folhas, onde, à vezes, é o esterol principal. A quantidade de colesterol geralmente é pequena quando expressa em percentual do total de lipídios. Enquanto nas plantas o colesterol, em média, corresponde a 50 mg por kg de lipídios totais, ele pode ser tão alto quanto 5 g/kg (ou mais) nos animais."]

Normalmente, nada que cause problemas para a saúde. A recomendação de ingestão diária de colesterol é não ultrapassar os 300 mg. Considerando a dieta média do brasileiro (segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar 2008/9 do IBGE), isso equivale a uma ingestão diária média de cerca de 250 mg de colesterol de origem animal (entre carnes, ovos, leite e derivados) e cerca de 0,5 a 1 mg de colesterol de origem vegetal.
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O total de esterois de plantas (fitoesterois) consumido diariamente na dieta humana varia de 167 a 437 mg (mesmo uma dieta vegetariana obtém, no máximo, 700 mg/dia). Um efeito benéfico de redução de cerca de 10% nos níveis séricos de colesterol é observado com uma ingestão diária de 2g (Ostlund 2002) - ou seja, seria necessária uma suplementação alimentar para o efeito.

Em insetos fitófagos é observada a conversão de fitosterois em colesterol (e.g. Clark & Bloch 1959), mas não em ratos (Swell & Tradwell 1961).

Em indivíduos com mutação nos genes ABCG5 ou ABCG8 sofrem de uma condição conhecida como sitosterolemia - um nível elevado de sitosterol no sangue circulante (de 30 a 100 vezes maiores do que os valores normais). Usualmente, apenas uma pequena fração dos fitosterois presente na dieta acaba sendo absorvido pelo organismo (algo como 20% dos campesterois e menos de 5% dos sitosterois - Behrman & Gopalan 2005): a maior parte é seletivamente bombeada de volta à luz intestinal pelos enterócitos (os genes mutados na sitosterolemia codificam transportadores de membrana). O excesso de sitosterol leva à formação de placas de gordura nas artérias - aterosclerose -, e também na pele e tendões (xantomas) o que pode levar ao infarto (Berge et al. 2000). É uma condição genética rara, estima-se que a prevalência seja de 1 em 50.000 pessoas.
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Referência
Behrman, E.J., & Gopalan,V. (2005). Cholesterol and Plants Journal of Chemical Education, 82 (12) DOI: 10.1021/ed082p1791

Berge KE, Tian H, Graf GA, Yu L, Grishin NV, Schultz J, Kwiterovich P, Shan B, Barnes R, & Hobbs HH (2000). Accumulation of dietary cholesterol in sitosterolemia caused by mutations in adjacent ABC transporters. Science (New York, N.Y.), 290 (5497), 1771-5 PMID: 11099417

Clark, A.J., & Bloch, K. (1959). Conversion of Ergosterol to 22-Dehydrocholesterol in Blattella germanica Journal of Biological Chemistry, 234, 2589-2594

Ostlund, R.E. Jr (2002). Phytosterols in human nutrition Annual Review of Nutrition, 22, 533-549 : 10.1146/annurev.nutr.22.020702.075220

Swell, L., & Treadwell, C.R. (1961). Metabolic Fate of Injected C14-Phytosterols Experimental Biology and Medicine, 108 (3), 810-813 DOI: 10.3181/00379727-108-27076

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Entrevista com um historiador: Danilo Albergaria

Historiador formado pela Unimep, com especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp e professor da rede pública de Campinas, Danilo Nogueira Albergaria Pereira defendeu recentemente sua dissertação de mestrado (também pelo Labjor/Unicamp) intitulada "A Visão de Ciência Propagada por Carl Sagan".

E é sobre essa pesquisa que o GR entrevistou por email o historiador, a quem agradeço imensamente pela gentileza em responder.

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GR. Como foi seu primeiro contato com a obra de Carl Sagan? Você acompanhou o trabalho acadêmico dele também?

DA. Li meu primeiro livro de Sagan relativamente tarde. Eu tinha uns 18 anos e ganhei de presente do meu pai o livro póstumo Bilhões e Bilhões, que era lançamento. Eu havia lido A Dança do Universo, do Marcelo Gleiser, um livro de que gostei muito. Em discussões sobre esse livro, alguns amigos que já haviam lido Sagan me recomendaram a sua obra. Eu só o conhecia de nome, principalmente pela fama que sua série Cosmos ainda tinha. Meu pai diz que eu assistia à série com ele quando criança pequena mas, claro, não me lembro.

Logo, me apaixonei pela obra de Sagan depois de ele ter morrido e não pude acompanhar seu trabalho acadêmico.

GR. Qual o aspecto que você considera o mais importante do trabalho de divulgação científica de Sagan?

DA. Para mim, há dois aspectos fundamentais.

Primeiro, as obras de divulgação de Sagan consistem na abertura de uma janela para a percepção pública do potencial humanista e democrático contido na abordagem racional científica. Ainda há preconceitos muito arraigados que representam a ciência e a própria racionalidade como formas frias, desumanas ou imorais de resolver os dilemas que encontramos. Ao mesmo tempo, as sociedades modernas estão mergulhadas numa relação de subserviência e reverência à ciência e, por isso, a recepção de suas descobertas e construções teóricas ocorre frequentemente de maneira acrítica e irrefletida. Conta muito para isso a falta de disseminação de informações sobre como o conhecimento científico é produzido, como uma hipótese pode ser testada, como e porque uma teoria atualmente aceita é a melhor opção em comparação com outras. Também são muito pouco exploradas as implicações sociais e políticas da ciência, suas limitações e becos sem saída. Nesse estado de coisas, o público acaba ficando com duas imagens contraditórias e igualmente caricatas da ciência. Muito do que Sagan escreve parece ter o intuito de desfazer esses perigosos mal-entendidos e propor um ponto de vista em que a ciência e a razão emergem como forças libertadoras e emancipatórias, permanecendo como a melhor aposta para a diminuição do sofrimento humano e dos abusos de poder.

O segundo aspecto fundamental é que a clareza da linguagem e o apuro estético dos textos de Sagan continuam insuperáveis na tarefa de despertar nos leitores um sentimento de admiração e êxtase com a realidade descortinada pela ciência, com espantosos fatos – coisas que sabemos com razoável segurança – como a existência de 100 bilhões de galáxias com centenas de bilhões de estrelas, ou o abismo de tempo que nos precede, ou a vida microscópica, ou a genética, ou a energia nuclear. Há quem trate com desdém os conhecimentos científicos, necessariamente falhos, imprecisos e incompletos, sobre esses aspectos da realidade (sem mencionar os outros tantos que serão objetos da ciência no futuro, dos quais sequer podemos fazer ideia)**. Há quem negue a essa visão a capacidade de progredir, de nos permitir saber mais, conhecer aspectos da realidade que ainda ignoramos, aprimorar ou modificar o que já conhecemos. E há quem veja na diversidade de povos e culturas apenas uma sucessão de visões de mundo estanques, sem tradução ou comunicação possível, como se cada visão de mundo codificasse de maneira diferente tudo o que fosse passível de ser conhecido pelo ser humano. Nesse último ponto de vista, cada visão de mundo aprisiona a forma como vemos a realidade, como se habitássemos pequenos aquários. Por isso, para mim, nessa visão a aventura do conhecimento não faz o mínimo sentido. Na visão defendida por Sagan e tantos outros, o mundo é um oceano aberto e a ciência é uma forma eficaz de explorá-lo. Sagan foi responsável por apresentar essa visão e sua estética a milhões.

GR. Que outros autores destacaria e por quais qualidades?

DA. Por mais que, hoje, seja muito fácil criticar Richard Dawkins e desdenhar de sua visão de mundo, sua obra de divulgação é cheia de passagens brilhantes. Dawkins apresenta o ponto de vista materialista neodarwiniano com clareza e estilo difíceis de superar. Os capítulos de abertura de Desvendando o Arco-Íris, por exemplo, são inesquecíveis ao conectar a visão de mundo ateísta à plena possibilidade de satisfação simbólica do indivíduo, e lembra muito os melhores momentos de Sagan.

Os livros e ensaios de Stephen J. Gould, se não superam, chegam a igualar os de Sagan em termos estilísticos e impressionam pela erudição, mas talvez tenham menos penetração no público mais jovem e menos afeito a um estilo ensaístico mais maduro. Seus textos são geniais. Qualquer pessoa interessada em perceber como a ciência nunca existe isoladamente e sempre esteve entremeada por diversas dimensões culturais, morais e religiosas, deveria ler seu livro Seta do Tempo, Ciclo do Tempo. Sob esse aspecto, sua obra tem maior estatura que a de Sagan.

Os livros do Marcelo Gleiser são bem escritos e merecem ser considerados por alguém que queira começar a ter contato com livros de divulgação, como foi o meu caso com A Dança do Universo. Dos que estão tendo destaque há pouco tempo, lembro que Brian Cox faz um trabalho bastante decente na BBC, embora seu tom seja um pouco exagerado em tentar transmitir a admiração com o universo – algo que Sagan fazia com mais naturalidade. Também para a BBC, Jim Al-Khalili fez um excelente documentário sobre cosmologia, Everything and Nothing, e sua abordagem parece destinada a um público mais maduro do que a de** Cox. Neil de Grasse Tyson tem uma forma de falar mais magnética que a de Sagan e transmite um entusiasmo genuíno com a astronomia. Espero ansiosamente por sua continuação de Cosmos. Phil Plait, o Bad Astronomer, é um excelente blogueiro e seu livro Death from the Skies é um dos mais divertidos que li nos últimos tempos. Para qualquer divulgador, escrever bem, com clareza e simplicidade, parece ser um pré-requisito.

GR. Que pergunta você gostaria de ter tido oportunidade de fazer a Sagan? Por quê?

DA. Acho que eu teria perguntado: “se você soubesse que não encontraria evidências de vida extraterrestre durante toda a sua carreira, ainda assim teria se dedicado a pesquisas quase sempre muito próximas ao tema?” O motivo é que ele parece ter (erroneamente) percebido desde cedo que a grande descoberta de seu tempo seria a da vida extraterrestre. Embora o assunto tenha genuinamente motivado Sagan a perseguir uma carreira científica, eu gostaria de saber o quanto seus interesses científicos dependeriam da perspectiva de fazer uma descoberta estonteante ou não. Provavelmente, a resposta seria um meio-termo: ele obviamente tinha um interesse genuíno na questão e, ao mesmo tempo, mirava a descoberta que poderia colocar seu nome na galeria de grandes descobertas da história. Em suma, o desejo de saber não estaria desconectado da vaidade.

GR. Uma pergunta feita por um leitor do GR [reformulei o enunciado, espero não ter distorcido muito a questão - para comparação, ao final desta postagem reproduzo a formulação original da pergunta*]: "A obra de divulgação do Sagan não induz as pessoas a pensarem que a ciência é a única forma de produção de conhecimento válido?"

DA. O que a obra de divulgação de Sagan pode induzir no leitor é a percepção de que a ciência é a melhor forma de produção de conhecimento, não a única. Mesmo assim, na obra de Sagan, ciência é um termo interpretado em sentido bastante amplo. Não há em seus livros uma defesa de alguma idealização ou formulação sintética de algum conjunto de práticas chamado método científico. Simplificadamente, o que ele chama de ciência é um prosaico amálgama de imaginação livre, abertura à crítica e pendor para a experimentação e a observação. A ciência moderna, por exemplo, não aparece como detentora exclusiva dessa maneira de pensar.

GR. E a pergunta mais importante: se Sagan fosse campineiro, ele seria Bugre ou Macaca?

DA. Obviamente, Sagan seria pontepretano. Conhecendo sua postura política, bastaria que ele soubesse a história da Ponte – time pioneiro em aceitar negros num esporte elitista, teve seu estádio erguido com a ajuda dos braços e dos recursos da própria torcida – para que virasse um macaco de alambrado.
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Veja também a palestra de Danilo Albergaria para alunos do curso de especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp proferida no último dia 26/ago/2013.

*Obs: Formulação original da pergunta enviada por Nayton Claudinei Vicentini: "Conheci Carl Sagan ainda muito novo, sua forma de apresentar o conhecimento é surpreendente, mas de certa forma ao assisti a serie cosmos percebi que nela ela deixa claro que a única forma que conhecimento valido é a que tem o crivo científico. Com essa capacidade de comunicação poderia ele nos induzir a acreditar que a ciência é uma forma de conhecimento valido?"

**Upideite(06/seg/2013): Alterações realizadas a esta data a pedido do entrevistado.

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