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sexta-feira, 19 de março de 2010

Editora Elsevier pressiona revista "Medical Hypothesis" a adotar o peer-review

O que acontece quando dois pilares das ciências modernas entram em conflito?

A revisão pelos pares - o peer-review - é um processo bastante criticado, mas ainda não encontraram um melhor modo de garantir a qualidade científica mínima dos trabalhos publicados. Quando bem feita detecta erros, dos grosseiros aos mais sutis. Os revisores, conhecedores da área, poderão sugerir melhorias em relação à metodologia empregada, interpretações alternativas dos resultados, fontes mais atualizadas e confiáveis da literatura. Os cientistas em geral, os que submetem os artigos, podem achar chato, mas ao mesmo tempo, em sua maioria, reconhecem que há ganho potencial.

Sim, o processo é custoso em termos de tempo e mesmo de grana - embora a correspondência eletrônica tenha enxugado muito os custos de postagens e diminuído o tempo de resposta. E não é infalível. Mas talvez a situação estivesse pior se não fora esse filtro prévio na comunicação científica.

Por outro lado, a livre comunicação de ideias é um fator essencial no desenvolvimento das ciências. É a própria razão da comunicação científica, aliás. Fóruns, congressos, periódicos, seminários... são desenvolvidos para facilitar essa troca. Parte das críticas ao processo de peer-review dizem respeito a essa limitação do livre fluxo de informação dentro da comunidade científica.

Algumas revistas publicam artigos sem o processo tradicional de revisão por pares (embora, claro, haja um filtro editorial - no mínimo, para verificar a adequação temática). Uma delas é a Medical Hypothesis (MH). Sua linha editorial tem como objetivo publicar ideias fora do quadro corrente aceito pela comunidade científica (alguns diriam "extravagâncias"). Segundo a linha editorial da própria revista: "The journal will consider radical, speculative and non-mainstream scientific ideas provided they are coherently expressed."

Muitas questões polêmicas foram defendidas desde seu primeiro volume em 1975. E não apenas de ordem médicas, como seu nome sugere - há, p.e., um artigo sobre dinossauros e aves.

Por não se valer de peer-review e por sua natureza polêmica, a revista não tem um conceito muito elevado dentro da comunidade científica. Mesmo assim tem se mantido há 35 anos e é publicada atualmente pela poderosa Elsevier, editora neerlandesa de livros e revistas acadêmicas e científicas.

Mas um artigo do ano passado, de Peter Duesberg e colaboradores, questionando (sem surpresas para quem conhece Duesberg) o HIV como agente causador da Aids causou uma intensa polêmica e resultou em seu cancelamento. O mesmo ocorrendo com outro artigo, também sobre a Adis, de Marco Ruggiero.

Eu já bati forte na Superinteressante (SI) por publicar, sem questionamentos, as ideias de Duesberg. Aqui e aqui. E ainda mantenho as críticas feitas à revista.

Há uma diferença importante, porém. A SI é uma revista voltada para o público leigo. A MH, para cientistas. (Sim, pelos melhores dados que temos, a hipótese de Duesberg não para em pé, é totalmente equivocada.) O leigo, em geral, não terá conhecimento suficiente para, por seus próprios meios, avaliar criticamente isso. Já o cientista e, em particular, os cientistas da área de saúde, têm toda uma formação - e sabem muito bem o tipo de revista que a MH é. A MH não é uma revista aberta (ainda bem) - demanda assinatura.

Que a comunidade científica critique o artigo e que isso leve a seu cancelamento faz parte natural do processo de depuração e controle de qualidade das informações científicas disponíveis.

Mas o caso teve outro desdobramento conforme nos relata a revista Nature. Diante das críticas, a Elsevier resolveu implementar uma alteração nos procedimentos editoriais da revista: entre outras coisas, pretende introduzir o peer-review. O editor da MH, Bruce Charlton, se posta irredutivelmente contrário. Para ele, seria matar a essência da revista.

Esta situação merece uma atenção especial dos sociólogos das ciências - como a comunidade científica se comporta - bem como dos filósofos das ciências: a que parâmetros recorremos no choque entre a liberdade de informação científica e a qualidade dessa informação?

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