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sexta-feira, 12 de março de 2010

Discutindo ciências filosoficamente 6

Continuando a postagem anterior sobre a análise das ciências de Thomas Kuhn.

Possivelmente o conceito mais famoso da teoria kuhniana do desevolvimento científico seja o de paradigma. Mas talvez seja menos útil do que a controversa noção da incomensurabilidade. Paradigma vem da palavra grega para 'padrão, modelo para comparação' - sim, a escolha do termo é estranha quando se considera que é usada para se referir a coisas que supostamente não podem ser comparadas.

Na análise kuhniana, 'paradigma' acabou por adquirir dois significados um tanto distintos: um para se referir ao conjunto de teorias, práticas e culturas de uma comunidade científica durante a vigência do período de ciência normal; o outro tem um sentido mais restrito: podendo se referir a uma teoria em específico, a uma parte dela, a uma hipótese. (Nos comentários da postagem anterior, Thiago Santos, do sítio/blogue Polegar Opositor, lembra que Kuhn foi acusado de ter usado com mais de duas dezenas de significados diferentes.) Para piorar a situação, o termo é usado com bastante liberalidade nas mais diversas áreas: das artes às ações de recrutamento de trainees. É então um termo que basicamente é mal delimitado: p.e., no sentido amplo, qual o grau de diferença deve ser observada para se caracterizar dois paradigmas como distintos? (Menos útil não quer dizer inútil - afinal, é uma dificuldade similar em relação à, por exemplo, palavra 'espécie' em biologia.)

O que seria importante enfatizar disso é que:
1) A prática científica é um empreendimento humano, social - há uma comunidade por trás: o que traz uma série de implicações - as disputas de poder, os modismos, o corporativismo, as sensibilidades, o sentimento estético, a moralidade, etc.
2) Isso estaria inextricavelmente imbricado no tecido das teorias científicas: sua criação, manutenção e desenvolvimento não estariam a cargo unicamente da racionalidade.

São elementos que levam Kuhn a defender a tal incomensurabilidade: quando se muda o paradigma (no sentido amplo), muda-se toda uma cultura, uma visão de mundo, de modo que seriam essencialmente incomparáveis. Mas e, como mencionamos na postagem anterior, o progresso científico?

Kuhn propõe uma visão selecionista - brevemente mencionada na primeira postagem da série - quando um novo paradigma se instala, ele basicamente deve resolver os problemas (as anomalias) acumuladas, mas também precisa explicar o essencial do que era explicado pelo paradigma anterior. Quando propostas de futuros paradigmas são colocadas durante a crise, um embate ocorre entre elas, terminando por prevalecer - e instalando um novo paradigma - aquela que melhor equilibrar as duas partes: o novo e o antigo.

Porém essa visão acima não é compatível de todo com a incomensurabilidade: se há progresso, se o novo paradigma explica mais coisas, então temos efetivamente um modo de comparação.

O leitor atento - como é todo leitor deste blogue - coçará a cabeça: "Alto lá! Você disse que a incomensurabilidade seria um conceito mais útil do que paradigma, mas se não há incomensurabilidade... Como uma palavra para designar o inexistente seria mais útil do que uma para designar o indefinível?"

Conforme adiantei parcialmente na primeira parte deste texto sobre a análise kuhniana, não digo que não haja incomensurabilidade - talvez seja possível criar duas explicações incompatíveis entre si e que, no entanto, não nos seja permitido dizer qual a que melhor explica a natureza ou parte dela. O que mais se parece aproximar dessa situação são, como já escrevi, as mecânicas quântica e relativística. Mas parece que as mudanças nos esquemas científicos não se dão, em geral, por meio de tais incomensurabilidades.

E quanto às mudanças de paradigmas? Há bastante debate a respeito de se a evolução das ciências ocorre ou não por meio de mudanças de paradigmas. Alguns aceitam que seja um modelo válido para parte das ciências: notadamente a física e a cosmologia, mas não de modo generalizado - e.g. Ernst Mayr considera que em biologia, essencialmente desde Darwin, não há tais rupturas.

Pode ser ainda o caso de ocorrer mudanças paradigmáticas, mas não necessariamente por crises - além de ocorrer crises sem necessariamente levar a mudanças de paradigma.

Upideite(13/03/2010): Assim resumiu Mayr sua análise sobre a inaplicabilidade da teoria kuhiana no campo da biologia:
1) Há, sim, efeitos de grandes e pequenas revoluções na história da biologia;
2) Porém, as principais revoluções não necessariamente levam a rupturas de paradigmas: um paradigma anterior e o seguinte podem coexistir por longos períodos e não são necessariamente incomensuráveis;
3) Subáreas mais ativas da biologia não apresentam períodos de ciência normal: há uma contínua série de pequenas revoluções intercaladas a revoluções maiores;
4) A epistemologia "evolucionista darwiniana" parece explicar melhor as mudanças em biologia do que as revoluções kuhnianas;
5) É provável que um paradigma predominante seja mais afetado por um novo conceito do que por uma nova descoberta.
(Mayr, E. 2005 - Cap. 9 As revoluções científicas de Thomas Kuhn acontecem mesmo? In: Biologia - ciência única. São Paulo: Cia. das Letras. 266 pp. Pp: 174-84.)

O item 2 na verdade nega a existência de revoluções propriamente ditas - que, por definição, implicam em rupturas. Mayr enxerga mais uma evolução gradual e contínua - o que ele chama de "epistemologia evolucionista darwiniana" (em um sentido, o próprio Kuhn aceitava a ideia de competição darwniana entre paradigmas, mas a visão de Mayr difere por ser gradualista).

11 comentários:

Ari disse...

Nessa série caberia a ciência pós-normal de Ravetz? Ou essa tese é apenas pseudo-ciência?

none disse...

Ari,

Não dá pra falar em pseudociência para isso simplesmente porque não é uma tentativa de se passar por ciência: é um ponto de vista filosófico.

Mas como tal não compraria muito essa ideia de ciência pós-normal de Ravetz e Funtowicz. Embora tampouco eu tenha um conhecimento mais aprofundado sobre isso.

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Mayr é gradualista, mas o equilibrio puntuado não venceu a discussão?

A epistemologia evolucionaria é compativel com Kuhn desde que a evolução seja entendida como um processo com criticalidade auto-organizada, que preve avalanches co-evolucionárias (revolucoes) de todos os tamanhos, seguindo uma lei de potencia. Ver aqui:

Filosofia da Física e Física da Filosofia

http://stoa.usp.br/osame/files/1310

none disse...

"o equilibrio puntuado não venceu a discussão?"

Não. Não chegou a perder tb. Aparentemente tem mais apoio entre os paleontólogos do que entre os biólogos evolutivos.

É bem possível que a evolução ocorra por equilíbrio puntuado em algumas linhagens e de modo gradual em outras. Pode ainda ser uma questão de visão temporal.

Em parte a discussão ficou um pouco complicada porque Gould alterou com o tempo os termos do equilíbrio puntuado. (Ou os críticos não conseguiram entendê-los.)

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Entre os físicos o equilibrio puntuado (dinamica de avalanches evolucionarias) é padrao na modelagem de processos de evolução biologica.

Mesmo os algoritmos geneticos tem uma dinamica de equilibrio puntuado.

A distribuição de periodos de estase segue uma lei de potencia.

O.

http://arxiv.org/find/all/1/all:+AND+stasis+AND+biological+evolution/0/1/0/all/0/1

http://arxiv.org/find/all/1/all:+AND+equilibrium+punctuated/0/1/0/all/0/1

Osame Kinouchi disse...

O link saiu cortado. Ver aqui:

http://migre.me/VmBS

http://migre.me/VmCK

none disse...

Kinouchi,

Não estou convencido de que esse modelo seja amplamente generalizável. É possível, a partir de bases físicas razoáveis (como imaginar a evolução como um processo difusivo dentro do morfoespaço), modelar-se de modo gradualista tb.

Quanto à aplicabilidade ou não do modelo kuhninano à biologia, a questão é se a história das *ciências biológicas* seja um processo de crise-mudança de paradigma. Mayr e outros historiadores da biologia sustentam que não.

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Bom, não acho que Mayr seja um historiador ou filosofo da ciência, vc concorda? Ele publicou em alguma revista de História da Biologia ou filosofia da ciência?

Eu sugiro que o conservadorismo dentro da biologia é maior que o da física, e que portanto, a evolução dentro da biologia é mais presa a paradigmas, mais lenta.

A razão do conservadorismo é o forte espirito empirista indutivista (biólogos teoricos matemático-computacionais tem baixo status na comunidade, ao contrário da física).

Exemplos: Embora os primeiros papers sobre sinapses eletricas no cérebro são da decada de 60 (na Nature e Science), só agora está acontecendo uma revolução na área (quebra do paradigma da sinapse quimica).

Outros exemplos de revoluções:

1.A transferencia horizontal de genes pelas bactérias (de modo que em vez de uma árvore evolutiva, agora temos loops dentro dessa árvore)
2. A percepção de que o genoma é uma rede de genes interagentes, ou seja, a queda da visão antiga de genoma como blueprint do organismo.
3. A Teoria de evolução simbiotica de Margulis
4. Uma revolução para daqui a alguns anos (a teoria de Gaia entendida nos termos dos físicos como sistema de ciclos biogeoquimicos auto-organizados).
5. A própria queda final do uniformitarismo, com as ideias de avalanches coevolucionarias.
6. As grandes extinções como determinantes da evolução da biosfera, introduzindo forte componente de acaso na sobrevivencia dos mais sortudos.
7. A propria ideia de sobrevivencia dos mais sortudos em vez dos mais adaptados...

none disse...

Opa! Mayr é os três: cientista, epistemólogo e historiador. Vide, p.e., "Desenvolvimento do pensamento biológico".

Ele tem artigos no Journal of History of Biology, Philosophy of Science, Biology and Philosophy, Proceedings of American Philosphical Society, Journal of History of Ideas, Journal of the History of Behavioral Sciences. Teve artigo convidado no Proceedings of the Biennial Meeting of the Philosophy of Science de 1984.

A filosofia de Mayr tem merecido até análise de outros filósofos: http://philbioihpst.free.fr/DelisleArticle.pdf
--------------

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Takata, a pergunta era retórica...

Vc poderia verificar com que idade ele publicou o primeiro artigo de filosofia da biologia? 90 anos?

none disse...

Mayr, E. (1961). Cause and Effect in Biology. Kinds of Causes, Predictability, and Teleology are Viewed by a Practicing Biologist. Science, 134, 1501–1506.

Bem antes dos 90 anos portanto.

[]s,

Roberto Takata

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