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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Humanas, demasiado Humanas

Eu mesmo tenho lá meus preconceitos com a área das Humanidades e Ciências Humanas e Sociais, mas é um campo do conhecimento que é vítima de muita incompreensão.

Luis Nassif chama bem a atenção para o fato de que é preciso um olhar crítico em relação ao financiamento de pesquisas em Ciências Sociais - e eu ampliaria dizendo que é preciso o mesmo olhar crítico para o financiamento público de todas as áreas: Biológicas e Saúde, Ciências Exatas e da Terra... Nassif, porém, pega desnecessariamente pesado, carregando nas tintas de sua crítica ema um trabalho proposto pelos Profs. Drs. Josimar Jorge Ventura de Morais, da UFPE, e Túlio Augusto Velho Barreto de Araújo da UFPEFundação Joaquim Nabuco: "As regras do futebol e o uso das tecnologias de monitoramento".

Duncan Watts, pesquisador da Microsoft, físico de formação que migrou para o estudo sociológico por meio de análise de redes, frente às propostas de corte de financiamento de estudos em áreas como Ciências Políticas, acredita que essa visão depreciativa das Ciências Sociais se deve a terem como objeto de estudos nós mesmos. Como todas as pessoas têm experiência direta em ser... bem, humano, todo mundo tende a ter uma opinião a respeito do que os cientistas sociais estudam. Uma visão altamente contaminada por subjetividades e o que forma o senso comum - o que as pessoas tomam por bom senso.

É o mesmo espírito que parece ter atacado outra jornalista, Ruth de Aquino, não se restringindo, porém, apenas às Ciências Sociais, mas de todo modo as críticas foram centradas em pesquisas a respeito do ser humano.

O próprio Watts escreveu um livro somente para atacar essa que talvez possamos denominar de "síndrome do desdém ao óbvio": "Tudo é óbvio*. *Desde que você saiba a resposta. (Como o senso comum nos engana.)" (2011. Ed. Paz e Terra, 328 pp.)

Como humano e como cidadão do país do futebolbalípodo, pode parecer óbvio para mim o que pode sair da discussão a respeito das visões e opiniões das pessoas sobre o emprego da tecnologia no futebol. Mas há dimensões para além da análise superficial: p.e. que implicações isso teria a respeito do chamado "jeitinho brasileiro"? teria alguma ligação com a tecnofobia manifestada por uma parte não desprezível da sociedade? da desconfiança de tecnologias de monitoramento como chips em automóveis, bafômetro, pontos eletrônicos?

Nassif ironiza a respeito do "papel do 'juiz ladrão'", mas lhe passa despercebido exatamente o paradoxo: o brasileiro (como a maioria dos cidadãos de outros países) critica as injustiças, então por que parte substancial crê que isso seja defensável no contexto esportivo?

Não me parece que a consideração superficial de um único estudo e de modo tão desrespeitoso seja uma contribuição positiva para a questão da qualidade da pesquisa e do financiamento público.

Obs: Estou tentando contato com os pesquisadores mencionados para uma entrevista.

Upideite(22/set/2012): Nassif volta ao tema em mais duas postagens. Em uma, anuncia que abrirá o blogue dele para a resposta dos pesquisadores (e inclui algumas perguntas); em outra, sobe um comentário que reproduz texto opinativo publicado em outro sítio web, criticando o funcionamento atual da pesquisa em universidades.

4 comentários:

Kentaro Mori disse...

http://scienceblogs.com.br/100nexos/2009/03/mas_isso_eu_ja_sabia/

“As ciências sociais não revelam nenhuma idéia ou conclusão que não possa ser encontrada em qualquer enciclopédia de ditados… Dia após dia cientistas sociais perambulam pelo mundo. E dia após dia descobrem que o comportamento das pessoas é bem aquilo que você esperaria”.

none disse...

Salve, Mori,

Valeu pela visita e comentário.

Às vezes parece que enxugamos gelo com isso. Parece que nunca avançamos com a discussão. Volta e meia surge uma derrapada dessas de preconceito que não nos leva a lugar algum - ou melhor, leva: de volta ao início.

O mais engraçado é que são jornalistas. Em tese, estão na mesma grande área de Humanidades. Não dá nem pra creditar como uma cisão das Duas Culturas.

[]s,

Roberto Takata

Eli Vieira disse...

Há sempre bons exemplos de pesquisas a encontrar em qualquer campo. Que um campo esteja mais contaminado que outro pela falta de rigor é questão de política e "polícia" - o policiamento crítico que deveria vir dos próprios pesquisadores.

Como estamos nos comportando como sociedade sob a influência das novas tecnologias da informação? Qual sistema econômico pode melhor atender o que nós prometemos fazer na Constituição?

São perguntas difíceis, cujas respostas certamente existem, e é papel dos profissionais das ciências sociais tentar responder.

Abraço

none disse...

Salve, Vieira,

Valeu pela visita e comentários.

Sim, há boas e más pesquisas. Neste caso, acho que fizeram uma análise superficial do trabalho dos pesquisadores.

Certamente as Ciências Sociais têm grandes contribuições a fazer (o próprio Nassif começa sua crítica fazendo essa ressalva para a área). Mas sinto que, de modo geral, há pouca compreensão pelo público leigo (eu incluído).

[]s,

Roberto Takata

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