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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

SNCT 2013 - Esporte é saúde, pratique. Será?

ResearchBlogging.orgO tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia deste ano, aproveitando que ano que vem será realizada a Copa do Mundo de Futebol por estes solos, é Ciência, Saúde e Esporte.

Há um bom tempo é comuníssima a associação das práticas esportivas com a boa saúde física e mental, além da disciplina e socialização. Porém, nos desportos de alto rendimento é frequente a lesão dos atletas e há casos de morte dos desportistas durante competição - seja por acidentes e até por problemas cardíacos. Mas, então, os esportes fazem bem ou mal à saúde?

Existem na literatura científica diversos estudos a analisar os mais variados aspectos da influência potencial das atividades físicas sobre o bem estar dos atletas.

Page et al.1998, por exemplo, verificaram a associação entre a prática de esportes escolares e comportamentos de risco entre 12.272 adolescentes colegiais. A participação em equipes esportivas correlacionou-se com um comportamento sexual menos arriscado: menor índice de doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez entre as meninas e um maior índice de uso de camisinha e menor número de parceiros sexuais para ambos os sexos. Houve correlação negativa entre a prática esportiva e o porte de armas e pensamentos suicidas tanto nos garotos quanto nas garotas. Entre os meninos, no entanto, houve uma correlação positiva com o uso de cigarro e de esteroides.

Já Baumert e cols. 1998 - em estudo que abrangeu 6.849 estudantes que responderam a um formulário sobre comportamento - encontraram uma associação negativa entre a prática esportiva e o uso de cigarro em adolescentes colegiais, além disso, tendiam a exceder mais a velocidade e a usar menos capacetes quando andavam de moto ou de bicicleta. Por outro lado, os que se exercitavam também tendiam a ter uma melhor alimentação (uma maior proporção tomavam café da manhã diariamente, evitavam sal, consumiam mais cálcio e vegetais), usavam mais cinto de segurança e se sentiam menos desesperançados.

Paffenbarger et al. 1986 acompanharam ao longo de 16 anos 16.936 alunos de Harvard com idades entre 35 e 74 anos. A prática de exercícios como caminhada, subida de escadas e práticas esportivas correlacionaram-se inversamente com a mortalidade por causas cardiovasculares e respiratórias - especialmente quando o gasto energético semanal crescia de menos de 500 kcal para 3.500 kcal; mas a mortalidade aumentava ligeiramente quando o gasto energético era maior do que esse limite. Aos 80 anos, a prática de exercícios deve ter aumentado a expectativa de vida entre 1 a mais de 2 anos.

Polednak (1972) analisou o histórico de 8.403 universitários de Harvard nascidos entre 1860 e 1889. Os que ganharam três ou mais prêmios esportivos morriam de causas naturais um pouco antes do que os que tinham apenas um ou dois prêmios e com mais frequência de problemas cardiovasculares - em particular coronarianos.

A tabela abaixo mostra a longevidade de atletas americanos masculinos multiaurimedalistas nos Jogos Olímpicos nascidos há 100 anos ou mais (considerando-se somente desportos que exigem grande dispêndio energético - deixei de fora modalidades como tiro e arco). Comparando-se com as curvas de expectativas de vida nos EUA ao longo do tempo notamos que a média de sobrevida aos 40 anos é até *menor* do que a expectativa de vida aos 40 anos da população em geral - embora não de modo significativo. Não há muita surpresa que a longevidade média dos atletas seja superior à expectativa de vida ao nascer (ainda que de modo não significativo) - afinal, eles foram atletas multimedalhistas olímpicos: ou seja, fazem parte de um grupo que vive pelo menos 20 a 30 anos (senão não teriam competidos nas Olimpíadas).


O quadro que emerge é que a prática esportiva tende a ser saudável, melhorando o desempenho do sistema cardiovascular e respiratório e a uma melhor saúde mental. Mas um nível *mediano* de atividades físicas tende a ser preferível a uma prática intensiva - como nos desportos de alto rendimento.

As campanhas contra o sedentarismo deveriam vir acompanhadas de um aviso similar a das peças publicitárias de bebidas alcoólicas: "Esporte. Pratique com moderação."

Referências
Baumert PW Jr, Henderson JM, & Thompson NJ (1998). Health risk behaviors of adolescent participants in organized sports. The Journal of adolescent health : official publication of the Society for Adolescent Medicine, 22 (6), 460-5 PMID: 9627816

Page, R.M., Hammermeister, J., Scanlan, A., & Gilbert, L. (1998). Is School Sports Participation a Protective Factor against Adolescent Health Risk Behaviors? Journal of Health Education, 29 (3), 186-192 : 10.1080/10556699.1998.10603332

Paffenbarger, R.S., Jr., Hyde, R., Wing, A.L., & Hsieh, C-s (1986). Physical Activity, All-Cause Mortality, and Longevity of College Alumni N Engl J Med, 314, 605-613 DOI: 10.1056/NEJM198603063141003

Polednak AP (1972). Longevity and cardiovascular mortality among former college athletes. Circulation, 46 (4), 649-54 PMID: 5072766

4 comentários:

Natália disse...

Interessantes as referências que você encontrou, não conhecia. A discussão sobre esta questão, se "Esporte é saúde", foi tema das minhas primeiras aulas como aluna do curso de Educação Física. Na ocasião discutíamos mais o esporte de alto rendimento que, definitivamente, não é para qualquer um.
Esporte ou não, ainda existe muita discussão sobre qual seria a quantidade e intensidade ideal de exercícios físicos recomendados. Já faz um tempo a Associação Americana de Cardiologia está indicando a prática de exercícios moderados a intensos (ou seja, bem mais do que uma caminhada diária). Na época isto gerou bastante polêmica, não sei em que pé está a discussão atualmente.

http://www.heart.org/HEARTORG/GettingHealthy/PhysicalActivity/StartWalking/American-Heart-Association-Guidelines_UCM_307976_Article.jsp

none disse...

Oi, Natália,

Valeu pela visita e comentário.

É, esporte de alto rendimento é sinônimo de departamento médico: dores musculares, fraturas, luxações, torsões, cãibras, articulações detonadas...

Bem, claro que os estudos que citei aqui já são até meio velhinhos - desde então houve mudanças de comportamento (como hábitos alimentares), isso é preciso ser levado em conta.

Mas achar o nível exato de intensidade e carga é mesmo complicado - isso sem levar em conta a variabilidade individual.

[]s,

Roberto Takata

Fernando Ariel Genta disse...

Adorei o texto, muito informativo. Vou repassar. Gde abraço!

none disse...

Salve, Genta,

Valeu, Migs.

[]s,

Roberto Takata

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