SOS - ESPÍRITO SANTO

Como ajudar as vítimas da enchente no Espírito Santo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Pluie de janvier

As tragédias que se abateram sobre Angra dos Reis-RJ, São Luís do Paraitinga-SP e outras paragens por conta das chuvas de fim e começo de ano trazem à tona o lado da solidariedade humana, com várias ações espontâneas pipocando para mobilizar donativos aos desabrigados e outros atingidos (p.e. aqui). (Para doações: aqui e aqui.)

Chuva nesta época, torrencial, não é novidade. Alguns dizem: "Choveu mais de 50% do esperado para o mês todo". Chuvas são assim. Não se distribuem uniformemente por um período. Médias são assim. Representam o valor esperado para um mês, mas não quer dizer que seja um valor fixo - às vezes chove mais, às vezes chove menos. Não tira, portanto, dos ombros das autoridades sua parcela de responsabilidade.

Outros apressam-se em dizer que é tudo culpa do aquecimento global ou das mudanças climáticas. Talvez seja. Mas isso é algo que não se pode saber. As mudanças climáticas são esperadas, mas eventos meteorológicos específicos não podem ser atribuídos ao processo. O que se pode atribuir são mudanças nos *padrões* de longo prazo: e.g. a frequência média de chuvas, a pluviosidade média, a temperatura média. Nunca a quantidade de chuva em um dia em particular - ou mesmo em um mês ou um ano.

Pense, por exemplo, nos balões que são soltos durante as festas de junho. Certamente eles aumentam a ocorrência de incêndios. Mas um incêndio em particular em junho pode não ter nada a ver com balão - pode ter sido um curto-circuito ou algo assim. Só podemos atribuir com maior grau de confiança se encontramos restos de balão no local - ou tivermos testemunhos confiáveis que mostram que um balão começou um incêndio. No entanto, podemos ligar a prática de se soltar balões de são-joão com incêndios ao ver como nos arredores em que se costuma ver balões aumenta o número de incêndios.

Chuvas, como incêndios, possuem várias causas - sim, ao final depende apenas de haver nuvens carregadas cujo vapor se condensa em gotas de chuva suficientemente grandes para vencer a força de ascensão, mas a presença de nuvens no local e sua condensação vai depender de se houve evaporação suficiente de água em uma região, de se ventos sopraram na direção certa, de se massas de ar frias estavam no local correto, etc.

Mas consideremos o caso de Angra dos Reis. Para o mês de janeiro, com os dados disponíveis da década de 1990 (entre os anos de 1991 a 2000 - dados obtidos do banco de dados do CPTEC/INPE), os dias mais chuvosos tiveram uma precipitação de: 36%, 56%, 48%, 19%, 15%, 13%, 13%, 22%, 24%, 47% da média para todo o mês. A média dos dias mais chuvosos é, então, de 29% da precipitação mensal média com uma desvio padrão de 16%. Isso faz com que haja uma probabilidade a cada ano de 5% do dia mais chuvoso ultrapassar os 50% da média mensal. É uma probabilidade maior do que de ocorrer um abalo maior do que 7 graus na escala Richter, p.e., em Tóquio a qualquer ano (cerca de 2%). Imagine se as autoridades japonesas negligenciassem o risco...

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