PESQUISA

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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Por que pesquiso?

O que leva uma pessoa a se embrenhar no mundo das ciências? Certo, a pergunta não é original. E eu não tenho uma resposta e talvez nem haja ou haja uma infinidade: cada pessoa tem suas razões que a motivam a tomar um caminho e não outro - e por vezes essas razões são obscuras até para si.

Ingressar em cursos de graduação de áreas científicas pode se dever à influência de um professor no ensino médio, a programas de televisão, aos pais (para seguir-lhes a carreira ou simplesmente irritá-los fazendo algo contrário ao desejo deles) ou talvez porque a concorrência para aquele curso era menor do que para o de medicina, engenharia ou direito. Mas, e depois? E quem continua o caminho da pós-graduação, do pós-doutorado, tenta uma vaga em alguma universidade de pesquisa? Pode ser por ter gostado mesmo do curso - ou então por tê-lo detestado e se debandado para uma área totalmente distinta -, influência de um outro professor (estou usado o masculino como genérico - naturalmente inclui as professoras), ter deixado o "piloto-automático" ligado (não é raro uma crise pós-defesa - logo depois do mestrado, quando se pensa: "e agora?", "é isso que quero para minha vida?"). Pode ser até por causa das bolsas - não são grandes coisas, mas só ver as filas que fazem para concursos públicos que pagam muito menos (aquela história de doutores no concurso para gari).

Há o lado desgastante da rotina do laboratório - como em qualquer outro trabalho. Às vezes há problemas de relacionamento - como em qualquer trabalho. Problemas pessoais que interferem no projeto e problemas de projeto que intereferem na vida pessoal ("ih! mau aê, galera, meu experimento micou e não vou poder ir na balada, tenho que refazer"). Mas qual a real compensação? É um modo de vida?

Existe reconhecimento social? Às vezes, sim. (Serei cabotino e usarei situações por que passei como exemplos). Em parte do meu círculo social, causa uma sensação de, como direi, deslumbramento ao saber que eu faço doutorado. E nessas horas eu penso: "Não é nada demais!" (penso e tento passar essa ideia). No Brasil, proporcionalmente não há tantas pessoas com pós-graduação. Em parte desse círculo também é motivo de certa admiração estudar em uma universidade pública de certo renome. Mesma coisa: "Não é bem assim!". Mas outras vezes, não, não há esse reconhecimento. Em parte (que pode até ser a mesma de outra) desse círculo, estudar não é exatamente algo útil, fazer ciência é coisa de quem não tem muito o que fazer: é uma brincadeira, um exercício de curiosidade. (E tento desfazer essa ideia.)

Essa contradição existe também em mim. Afinal, qual a utilidade de se estudar a emissão de sons por moscas? Há um interesse teórico nisso. [Um dos pontos mais candentes da Biologia é uma questão velha: como surgem as espécies? Sim, o grande pano de fundo é a grande teoria do titio Chuck (Darwin, não o Norris). Mas há detalhes nisso. São diversos modelos que explicam diferentes situações. Porém há elementos ainda não totalmente claros: algum processo é mais comum? um processo que vale em um caso pode valer para outro?] Mas, convenhamos, a pesquisa que eu faço não sai de graça, e quem paga é o contribuinte (a bolsa pode não ser grande coisa, mas há gastos com materiais, energia, funcionários e infraestrutura....) - há uma satisfação a dar. Sim, o conhecimento em si - se é que irá gerar algum (ei, estou me esforçando pra isso, sério) - é válido, porém há um retorno a se dar. Comentei de passagem essa questão aqui.

No entanto, isso seria uma motivação externa. O que os outros esperam de mim e de minha pesquisa. Mas por que me sujeito a esse tipo de cobrança? Isto é, uma vez que estou dentro, isso faz parte do jogo. Porém, por que estou jogando esse jogo? Poderia estar em outra - e não é apenas uma possibilidade genérica (eu poderia realmente estar em outra - eu voltei para os braços da ciência - passei por aquela crise pós-defesa logo após o mestrado, saí e não estava mal).

Oquei, parte do retorno foi também por uma motivação externa: "quando você vai fazer o doutorado?", "vai mesmo continuar a trabalhar com eventos?" De qualquer modo, e acho que estou sendo honesto quando digo isto, a motivação interna pesou mais: vou dizer que é pelo desafio intelectual (como se não fosse necessário planejamento na organização e realização de eventos), porém é um de natureza diferente. Se eu disser a palavra especulativo (ué, e eu não acabei de dizer/escrever?) poderão me interpretar mal. Mas é um modo de se indagar a respeito do funcionamento do mundo - do que convencionamos a chamar de natureza - que é um tanto distinto das questões com que lidamos em uma empresa. Claro, há paralelos que se podem traçar na resolução de problemas nas duas situações. É perfeitamente possível se aplicar um pensamento científico para, p.e., solucionar a aglomeração de pessoas em um dado local que comprometa a circulação dos visitantes. (Sim, haverá sérias restrições quanto ao tamanho amostral disponível. Por isso teóricos da administração, como médicos-pesquisadores, trabalham tanto com estudos de caso e não com sistema de teste-controle com resultados submetidos à análise estatística.)

Se eu disser que era a vontade de lidar com "grandes questões", seja lá o que isso seja, não estarei mentindo, mas: pesquisar as diferenças de padrões de sons de moscas é uma grande questão? A rigor não é. No entanto, eu sinto que há uma ligação mais imediata disso com o arcabouço teórico mais amplo por trás, do que entre a análise do sucesso de um evento pelo número de visitantes e respostas em formulários de satisfação e a teoria econômica.

Engraçado como nos dois casos tenho que desenvolver relatos do progresso do trabalho. E até demonstrá-lo numericamente. Embora, no segundo caso, jamais pudesse falar em nível de significância, teste de Tukey e coisas assim: era "o número de visitantes subiu 5% em relação ao ano passado", mesmo que isso, estatisticamente, não significasse nada. Não por enganação. Nunca. Mas simplesmente porque o que não significaria nada ao cliente é essa questão estatística. Já, se em meu relatório periódico de bolsista eu disser que a média da frequência fundamental do som da espécie 1 é 2,4 Hz maior do que a espécie 2 e pronto, o parecerista imediamente me questionaria se essa diferença tem algum significado estatístico e biológico - "é significativo?", "é", "mas então o que causa essa diferença? tamanho maior menor da asa?", "talvez". (Claro que se o total de visitantes tivesse caído, aí teríamos que buscar explicações, mas, de novo, pelo sistema heurístico - estaria sendo maldoso se dissesse agora "chutômetro".) Uma comparação que me vêm à mente é a diferença de linguagem entre o relatório do sumário executivo e a parte científica dos painéis do IPCC. No primeiro caso, há basicamente as explicitações das conclusões, quando muito uma argumentação resumida ligando A e B. No segundo caso, há toda a construção do argumento que resgata os antecedentes, os raciocínios intermediários são desenvolvidos e sustentados por uma pletora de dados e as conclusões são contrastadas com o que se sabia antes ou o que outras pesquisas encontraram.

Em um ambiente voltado ao ganho econômico - e não há censura nessa observação - toda essa argumentação são rodeios, coisas de desocupados. As coisas são (ou deveriam ser) pá-pum. Um "por outro lado", não que seja mal visto, mas não é bem vindo. De certo modo o oposto ocorre em um ambiente, digamos, acadêmico. E antes que os cientistas naturais torçam o nariz em desdém ao ambiente mercantil, é uma diferença simétrica a que muitos destes (os cientistas naturais) costumam achar do ambiente dos cientistas das humanas - "há volteios demais". Do ponto de vista acadêmico, porém, o que os empresários chamariam de eficiência comunicativa pode ser visto como debilidade interpretativa, ou, soltando os cachorros: preguiça intelectual.

Racionalmente não coaduno com a etiqueta da preguiça intelectual para os procedimentos empresariais, mas eu sentia falta do "mas". E, em parte, é isso também que mais me atrai à Biologia do que, digamos, à Química ou à Física. Em Biologia nunca podemos dizer "nunca" e sempre devemos evitar o "sempre". Em Física todos os elétrons são iguais, em Biologia nenhum indivíduo é igual, exceto os clones (e ainda temos que fazer a exceção da exceção - observando que mesmo clones podem apresentar diferenças entre si). Essa diversidade entre elementos que de outro modo são iguais - o que Mayr chamou de biopopulação (e eu acho que 'bio' é redundante - embora possamos ter populações não biológicas, seria mais o caso de criar um termo para estas) - é um "memento mori" constante alertando para as armadilhas das generalizações apressadas, das denegações precipitadas. E, se de um lado pede cautela em nossas afirmações e negativas, de outro, instiga-nos com um "decifra-me": bilhões e bilhões de pequenos mistérios (ei, sem conotações místicas, tá?) que tecem o quadro maior (ou seria melhor dizer "pintam"). É um tempero, a pimenta que nos diz "sou perigosa, estou queimando sua língua" (sei, pimentas não falam - ou pelo menos acredita-se que as pimentas de modo geral não falem) ao mesmo tempo em que sua ardência é exatamente o que almejamos para "colorir" o paladar de algo que, de outro modo, não teria tanta graça em mastigar. Não, seus pervertidos, não pensem em uma sessão sadomasô à luz de um microscópio. Pensem, antes, na teoria do humor (a da incongruência - há outras) que advoga que a essência do humor está no paradoxo, no jogo dos contrários. É por isso que, pra mim, a Ciência (em particular a Biologia) é divertida. É essa contradição que me motiva. Essa contradição que também existe dentro do mim.

Mas essa não é a história toda.

Upideite(12/fev/2012): Há uma subárea nova da psicologia dedicada à questão. Uma reportagem de Sabine Righetti publicada hoje na Folha Online aborda a questão.

9 comentários:

Joey Salgado disse...

Bom, mesmo tendo em vista que seu texto aborda a questão de forma retórica, não posso deixar de compartilhar minha motivação para entrar na pós-graduação: sinto-me bem fazendo pesquisa.

E na verdade, acho que me sentiria bem fazendo pesquisa em diversas áreas diferentes, até mesmo fora da Química, como também acho que trabalharia numa boa fora da Academia. Acredito que o único pré-requisito para me interessar por uma função seria a necessidade de pensar. Se tem que pensar, deve ser legal, seja como cientista ou piloto de testes de palavras-cruzadas.

Pensando bem, o fato de eu ter parado na pós-graduação tem muito a ver com uma vontade incrível de fazer alguma coisa que poucas pessoas consigam entender. Nem mesmo eu.

Acho que é isso...

Abraço!

none disse...

Valeu pelo depoimento Salgado,

Eu ia mesmo mais pra frente deixar um convite aos dois leitores desde blogue que falassem de suas motivações pessoais.

Eu gosto muito de todas as áreas, mas suspeito fortemente que não teria competência para trabalhar nelas - se é que eu tenho competência na área em que trabalho.

[]s,

Roberto Takata

Joey Salgado disse...

A competência... Somente o tempo nos dirá se a possuímos, enquanto isso, basta ser o mais responsável possível para com aquilo em que se trabalha/pesquisa, hehe!

Ju Galak disse...

"...pesquisar as diferenças de padrões de sons de moscas é uma grande questão?"
Bom, sou suspeita para responder a esse tipo de pergunta. É como pensar se elaborar uma hipótese evolutiva sobre um gênero de cigarrinhas é uma grande questão.
É um pedaço de quebra-cabeças. Perceber que resolver partes do quebra-cabeça colaboram para resolver (ou ao menos ter a intenção de resolver)a grande questão é o que torna a pesquisa tão gratificante.
Pensar em como escolhi a biologia, e especificamente a área acadêmica é um tanto curioso. Talvez porque tenha decidido na infância, meus motivos eram (e ainda são) pueris: eu queria saber como a vida funciona. Claro que o fato de ter sido criada em uma família de professores influenciou muito.
Enfim, acredito que tenha acabado parando na pesquisa por um egoísmo saudável, por essa satisfação pessoal de saciar a curiosidade de "como a vida funciona". Tô quase ficando louca, mas não me imagino fazendo outra coisa.

Mauro disse...

Ótimo texto. Abordou bem algumas questões entre o meio acadêmico e o mercado.
Não é apenas a ciência que é contraditória, mas toda a natureza de maneira geral é contraditória. Vejo como esse sendo o "motor" da curiosidade humana e realização da pesquisa.

Mônica Lobo disse...

Ainda tô aqui rindo com seus comentários bem-humorados ao longo do texto...
É, também sofri dessa crise pós-mestrado. Não por questionar se o que eu fazia tinha sentido/importância ou não. Pesquisar é algo que sempre quis fazer, desde criancinha (rsrs). Sou muito interessada em ciência de maneira geral. E não gosto de usar a palavra "curiosidade" por ciência porque sempre me dá a sensação de ser algo volúvel... Sou até fiel demais (quanta nerdice!).Trabalhei com pesquisa básica...
Sei bem dessa coisa de desmistificar a figura do pesquisador, embora não precise fazer isso com muita frequência porque a maioria dos meus amigos fazem pesquisa.
Só posso dizer que é algo que não vivo sem. Sou nutricionista e tentei trabalhar em empresa, consultório depois do mestrado, mas o comichão da pesquisa sempre aparecia. É um chamado irresistível. Eu fugia e para onde quer que eu fosse, acabava voltando pra pesquisa.
Hoje faço doutorado fora da área que trabalhei no mestrado e estou feliz. Não era pesquisar que estava errado, era o tipo de pesquisa que eu tinha escolhido.
Seja lá porque for que trabalhamos com ciência, deve ser culpa de alguma mutação genética ou algo do tipo. rsrsrsrs

none disse...

Ju, Mauro, Mônica,

Valeu muito pelas visitas e comentários.

Irei subir seus comentários tb em uma postagem - o da Ju já subi com o do Joey Salgado.

[]s,

Roberto Takata

Felipe Beijamini disse...

Parabéns pelo texto, pelas ironias e pela paixão.

Tentando responder a pergunta do tópico, de modo sucinto:

Após a tão comentada crise "pós mestrado" fui para o mercado de trabalho, vivi o suficiente da vida de professor, mas em momento algum consegui me desligar da academia, permaneci acompanhando os grupos de estudo, participando das discussões de resultados, lendo e bolando perguntas. Até que um dia bolei a pergunta, ao MEU ver, forte o suficiente para se transformar no meu projeto de doutorado.
Sendo assim, pesquiso para TENTAR responder perguntas.

Parabéns pelo blog também.

Att.

Felipe Beijamini

none disse...

Valeu pela visita e comentários, Beijamini.

Mais tarde subo seu comentário em um dos posts.

[]s,

Roberto Takata

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