Lives de Ciência

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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Liguem para o sapo: um conto em contas

Tomei a declaração do cineasta Fernando Meirelles de que ninguém liga para o sapo pesquisado pelos cientistas, que é preciso contar uma história e deixar a numeralha de lado, etc. como um desafio.

Mas, antes, um recado do Calíquio:

"Liga pra mim!"

Abaixo um conjunto de números de por que devemos ligar para o sapo, a rã, a perereca, a cecília, o tritão, a salamandra e outros demais amiguinhos anfíbios nossos. Há várias histórias aí, não estruturadas, questão de ligar os pontos.

Spoiler alert: não tem princesas.
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Imagem: modificada de Pixabay.
- Há cerca de 6.000 espécies conhecidas de anfíbios;
- 1.896 espécies estão em perigo iminente de extinção;
- Aproximadamente de 35 a 130 espécies extinguiram-se desde 1500, entre 9 e 122 desapareceram desde 1980;
- Considerando-se somente os casos de extinção, a taxa atual é 211 vezes a taxa de extinção de fundo;
- Incluindo-se as espécies em perigo iminente de extinção, a taxa atual é de 25.039 a 45.474 a taxa de extinção de fundo;
(Dados e referências em McCallum 2007)

Figura 1. Taxa de extinção de anfíbios. Estimativa inferior e superior do número de espécies extintas de anfíbios desde o ano de 1500 AD. Fonte: McCallum 2007.

- Em uma reserva temperada metropolitana de 80,9 hectares na região de Charlotte, Carolina do Norte, EUA, estima-se haver 105.824 espécimes e 12 espécies de anuros;
- O valor comercial total estimado dos anfíbios na área foi de US$ 6.021.007;
- Valor médio de US$ 56,90 por indivíduo;
(Witzczak & Dorcas 2009)
- No alagado de Elleton Bay, Carolina do Sul, EUA, com 10 ha de área, foram capturados 392.605 anfíbios ao longo de um ano compreendendo 17 espécies;
- O valor comercial total estimado da amostra foi de US$ 3.605.848;
- Desses, US$ 3.413.821 correspondem a girinos produzidos ao longo de um ano;
- Valor médio de US$ 9,18 por indivíduo;
(DeGregorio et al. 2014)

- Um levantamento de 2002 a 2011, em poças d'água de 34 sítios nos EUA, encontrou um declínio anual médio de 3,7% de ocupação das poças por pelo menos uma de 48 espécies de anfíbios;
- Para os anfíbios listados como ameaçados pela IUCN (International Union for Conservation of Nature) a taxa de declínio foi de 11,6% ao ano;
(Adams et al. 2013)

- 6 causas principais de perda de biodiversidade que atuam sobre o declínio dos anfíbios:
a) exploração comercial; b) espécies introduzidas/exóticas competidoras, predadoras e parasitas; c) mudanças de uso de solo; d) contaminantes; e) mudanças climáticas; f) doenças infecciosas emergentes;
.causas históricas (atuando há séculos): a, b, c; causas recentes: d, e, f.
.declínio/extinção: c, e, f; declínio: a, b, d
(Collins 2010)

Serviços ecológicos, econômicos e culturais prestados pelos anfíbios:
- provisão de recursos: alimento e medicamentos: 4.716 ton./ano de pernas de rã (maior parte retirada da natureza);
- controle de pragas e vetores;
- cultural: personagens, fotografias, motivos artísticos, animais de estimação;
- suporte ecológico:
.ambientes aquáticos - dinâmica de nutrientes, bioturbação, cadeia alimentar: controle de população de algas, redução de acúmulo de sedimentos;
.ambientes terrestres - controle de população de invertebrados, alteração física de hábitat e ciclo de nutrientes: redução da decomposição foliar (predação de invertebrados detritívoros);
.fluxo entre ecossistemas (aquático/terrestre);
.alteração física do ecossistema: alteração da taxa de sedimentação e fluxo (eliminação de macrófitas e perífito), escavação de solo;
(Hocking & Babbit 2014)

Upideite(16/set/2015): Mais alguns números.
- Girinos em rios neotropicais mantêm populações de algas até 50% menor do que se não estiverem presentes;
(Ravestel et al. 2004)
- Tritão-de-pintas-vermelhas (Notophthalmus viridescens viridescens) adulto consome 439 ± 20 mosquitos/dia;
- Larva de salamandra-toupeira (Ambystoma talpoideum) consome 316 ± 35 mosquitos/dia;
- Em uma área de 10ha de alagados, uma população de 50.000 anfíbios/ha pode consumir 100.000 larvas de mosquito/noite;
- Há estudos de correlação indicando que áreas de alagados com anfíbios contém até 98% menos mosquitos do que áreas sem anfíbios;
(DuRant & Hopkins 2008)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Luz, câmera, ciência: será que dá mesmo pra ganhar corações no papo, Meirelles?

O jornalista Herton Escobar, em seu Imagine Só!, traz o discurso do cineasta Fernando Meirelles em sua apresentação no 8º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, Curitiba-PR, organizado pela Fundação Grupo Boticário.

Para Meirelles, “[n]ão adianta só números, estatísticas, planilhas … se não vocês estão falando só pra sua tribo. O único jeito é contar histórias”.

Embora à primeira vista pareça um conselho razoável, mantenho minhas reticências. Já expressei minhas preocupações com a ênfase demasiada no storytelling na apresentação do trabalho científico.

Particularmente no processo de engajamento do público na discussão sobre as bases científicas das pesquisas sobre aquecimento global e mudanças climáticas, pelo menos uma estatística parece ter um efeito importante: 90% dos especialistas concordam que está havendo um aumento das temperaturas médias globais causadas, em grande parte, pelas atividades humanas como emissão de CO2 e mudanças no uso do solo.

Segundo van der Linden e colaboradores (2015), a demonstração do consenso a respeito do AGA funciona como elemento de porteira que ajuda a abrir a mente do público leigo para a realidade do fenômeno e das graves perspectivas que nos esperam se nada for feito para diminuir as emissões dos gases-estufa.

"There is currently widespread public misunderstanding about the degree of scientific consensus on human-caused climate change, both in the US as well as internationally. Moreover, previous research has identified important associations between public perceptions of the scientific consensus, belief in climate change and support for climate policy. This paper extends this line of research by advancing and providing experimental evidence for a “gateway belief model” (GBM). Using national data (N = 1104) from a consensus-message experiment, we find that increasing public perceptions of the scientific consensus is significantly and causally associated with an increase in the belief that climate change is happening, human-caused and a worrisome threat. In turn, changes in these key beliefs are predictive of increased support for public action. In short, we find that perceived scientific agreement is an important gateway belief, ultimately influencing public responses to climate change." Van der Linden et al. 2015.
["Há uma compreensão errônea disseminada entre a população a respeito do grau do consenso científico em torno das mudanças climáticas causadas pelos seres humanos, nos EUA e em outros países. Além disso, estudos anteriores identificaram importante associação entre a percepção pública a respeito do consenso científico, crença nas mudanças climáticas e apoio às políticas climáticas. Este artigo estende essa linha de pesquisa apresentando e fornecendo indícios experimentais para o 'modelo da porteira de crença' (GBM, 'gateway belief model'). Com o uso de dados nacionais (n = 1.104) de um experimento de mensagem de consenso, encontramos que um aumento na percepção publica do consenso cientifico é associado significativa e causalmente com um aumento na crença de que as mudanças climáticas estão ocorrendo, são causadas pelos seres humanos e são uma ameaça preocupante. Por outro lado, mudanças nessas crenças-chave são preditivas de um aumento no apoio à ação pública. Em suma, encontramos que o consenso científico percebido é uma importante porteira de crença, influenciando decisivamente na resposta do público às mudanças climáticas."]

Claro, se interpretarmos a fala do cineasta com uma ênfase diferente: "não adianta números, estatísticas, planilhas", podemos compatibilizar com o que foi apresentado acima do efeito da percepção do consenso científico em torno do AGA (o número *é* importante para o efeito - não adianta apenas dizer que há um consenso ou vagamento dizer que a maioria dos cientistas acredita). Mas é mais complicado compatibilizar com a segunda parte: "O único jeito é contar histórias". Não que histórias não contem, mas é bastante discutível de que seja o único jeito.

De outra feita, "Cidade de Deus" é uma obra prima. Importantíssima. Tocante. Chocante. Um tapa na cara. Mas o quanto isso mudou a percepção do público em relação à questão não apenas do tráfico de drogas, mas, principalmente, da vida das comunidades nas favelas do Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo? Não apenas a visão estereotipada da violência, da resposta padrão da repressão policial?

Como eu disse aqui no GR em outra ocasião, não que a história do storytelling seja fajuta, mas precisamos de indícios mais sólidos a respeito de sua eficácia e funcionamento - e dos eventuais problemas -, antes de sair abraçando-a como *a* solução da comunicação pública de ciências. Será que Meirelles engajar-se-ia em financiar pesquisas científicas sobre o tema (não necessariamente metendo a mão no próprio bolso, mas ajudando a convencer as empresas a pingarem suas contribuições)?

Upideite(28/set/2015): Vídeo da apresentação de Meirelles no 8o. CBUC.
via Débora Menezes fb.

Upideite(02/out/2015): Complementos: "Liguem para o sapo: um conto em contas", "Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 23".

Outra(s) leitura(s):
Ceticismo.net "Cineastas, eu não quero saber da sua opinião sobre Ciências"

Upideite(24/out/2015): Minha leitura da proposta de Meirelles.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cultura nerde e machismo

Um bochincho se formou em parte das redes sociais em função de um episódio do podcast Anticast a respeito do machismo que há em meio aos nerdes brazucas (a transcrição do episódio está disponível)**. No twitter muito da discussão está rolando sob a tag #AntimachismoNerd.

Não tenho condições de dar meus pitacos sobre isso por vários motivos:
1) não ouvi ainda o episódio referido;
2) não tenho familiaridade suficientemente profunda com a cultura nerde (sim, tenhos vários amigos que se identificam como nerde ou geek, mas não vivo nesse círculo - não sei quais são os últimos lançamentos de consoles e jogos, há tempos não leio quadrinhos de modo sistemático, nunca fui a convenções do gênero, não participo de fóruns sobre ficção científica e fantasia, há anos não jogo RPG, não coleciono cards nem pokémons, entendo quase nada de programação e menos ainda de ciência e engenharia da computação, não acompanho podcasts, blogues, videoblogs nerdes, etc, etc, etc - ok, quando minha internet permite assisto ao Nerdologia).

O máximo que posso fazer é dar meu posicionamento genérico contra o machismo, o sexismo e a misoginia em qualquer esfera. Não sei dizer o quão justa ou injusta são as alegações a respeito desta ou daquela personalidade da comunidade nerde do Brasil. E também trazer, talvez como elementos de apoio à discussão, o que diz a literatura acadêmica sobre o tema: sim, a questão do gênero na cultura nerde já é tema de análise científica (principalmente nos EUA) há cerca de duas décadas.

Sonnet Robinson, em sua tese "Fake geek girl: the gender conflict in nerd culture", defendida em junho de 2014 na University of Oregon, apresenta a cultura nerde como uma "subcultura dentro de uma cultura dominante". É uma subcultura na medida em que consiste de um grupo de pessoas com um modo de pensar, sentir e agir distintivo e que difere um tanto da sociedade mais ampla. É uma contracultura na medida em que, ativamente, rejeita certos aspectos da cultura dominante. Mas, qual a cultura dominante, apresenta um conjunto de "valores, símbolos, normas, práticas específicas de linguagens, sanções e hierarquias". Não difere de outras subculturas no policiamento (quase que exclusivamente informal) da associação à subcultura: quem tem o direito ou não de se dizer ou se identificar como nerde (na blogosfera filomática, p.e., há intensos debates e preocupações quanto a se se pode ou não classificar um dado blogue como científico ou não - ativamente, ainda que informalmente, rejeitamos blogues que identificamos como pseudocientíficos). Estando mergulhado em uma cultura dominante, não é de se surpreender que certos valores presentes nesta percolem a subcultura: incluindo valores sexistas.

Há inúmeros relatos de primeira mão de casos de assédio moral contra mulheres em fóruns, seção de comentários, comunidades, etc. sobre games, no exterior e no Brasil - inclusive sob a tag referida acima: #AntimachismoNerd. Essa discussão sobre a interdição ("gate-keeping") de mulheres ao universo nerde gerou o meme "fake geek girl".

Em sua revisão de literatura sobre o tema, Robinson encontrou apenas um estudo sobre as nerdes mulheres (um sobre aspectos linguísticos de adolescentes em colégios), mas há vários sobre masculinidade e identidade nerde, ausência de mulheres nas carreiras científicas - como dito, são uns vinte anos em que a temática é explorada na academia. Mas a raridade de estudos sobre a perspectiva das mulheres em meio à cultura nerde é também reveladora - da situação de interdição das mulheres aos círculos nerdes e do desinteresse da academia sobre certos aspectos da questão feminina.

Robinson, através de um formulário online*, elaborou uma perfil das opiniões, atitudes e percepções de pessoas que se identificam como mulheres nerdes. 149 respostas válidas (formulários completos, idade acima de 18 anos) foram tabuladas. Somente 22% das respondentes sentem-se sempre bem-vindas nas comunidades; 30,6% sentem-se sempre confortáveis nas comunidades. Apenas 17,5% das respondentes disseram nunca terem sofrido insultos baseados em gênero/sexo nas comunidades em que participam, apenas 9,1% disseram nunca terem experimentado ações de gate-keeping (checagem de conhecimento para saber se podem ou não se considerarem membros da comunidade); 29,6% nunca passaram pela experiência de despertar reações de surpresa dentro da comunidade nerde ao revelarem seu gosto pela temática, fora da comunidade, a reação de choque com a relevação é bem maior: apenas 7,8% das respondentes nunca passaram pela experiência.

(Seria interessante se o formulário tivesse incluído uma pergunta sobre o quanto as respondentes sentem-se confortáveis *fora* das comunidades nerdes - no geral e expressando seus gostos geeks. A única comparação é quanto ao choque causado pela revelação.)

Jason Tocci em sua tese "Geek Cultures: Media and Identity in the Digital Age", defendida em 2009 na University of Pennsylvania, observa que:
"Oftentimes, the girls who fit into male-dominated geek groups are those who feel they fit in better with the boys; several of the female geeks I interviewed noted that they had been "tomboys" or considered "just one of the guys" in school. In a response to a blog post about sexism in geek culture, for instance, one visitor explained that she often felt more welcome among geeky guys than among other girls."
["Com frequência, garotas que se sentem bem em grupos geeks dominados por homens são as que se sentem melhor entre garotos; várias garotas geeks que entrevistei notaram que elas eram 'molecas' ou consideradas 'mais um dos caras' na escola. Em resposta a uma postagem no blogue sobre sexismo na cultura geek, por exemplo, uma visitante explicou que ela muitas vezes se sentia mais bem-vinda entre os garotos geeks do que entre as outras garotas."]

Obviamente não significa que seja a maior parte das garotas que se identificam como nerdes tenham o mesmo histórico; por outro lado, isso pode explicar, ao menos parcialmente, a permanência de garotas em um meio hostil - a alternativa (comunidade da cultura dominante) pode ser ainda mais hostil.

A academia brasileira não está totalmente alheia ao fenômeno da participação feminina na cultura nerde (e.g. a dissertação de Lívia Lenz Fonseca "GamerGirls: As mulheres nos jogos digitais sob a visão feminina", defendida em 2013 na Unisinos), mas parece ser ainda um campo bem incipiente por aqui. Gostaria de saber se há estudos acadêmicos mapeando e delineando o sexismo entre os nerdes brazucas: seria aqui pior do que nos EUA?

Uma compilação sobre o #AntimachismoNerd (atualizo à medida em que souber de mais textos/áudios/vídeos):

Blogs:
Rock Me On 04/set/2015: "Anticast 198: Vamos cutucar o Elefante Branco!"

Podcast/videoblogs (não vi nem ouvi):
AntiCast 03/set/2015 "AntiCast 198 – O Machismo (e outras coisas) no mundo Nerd"
Qu4atro Coisas 04/set/2015: "Posicionamento do canal sobre machismo nerd"
Renegados Cast 14/set/2015: "RC #149 - O machismo no mundo nerd e na internet"

Outras leituras:
Geek Studies 28/abr/2008: "How People Explain Female Geeks"
Geek Studies 29/abr/2008: "Sexism and Misogyny in Geek Culture"
ForbesWoman 26/mar/2012.: "Dear Fake Geek Girl: Please Go Away"
The Geek Anthropologist 09/set/2014: "Violence and Victimization: Misogyny in Geek Culture (And Everywhere Else)"
Ana Freitas 02/fev/2015 "Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans"
Não me Kahlo 24/mar/2015: "O machismo no universo geek e a luta para salvar a Mulher-Maravilha desse mal"
JMTrevisan 29/mai/2015: "O Nerd Padrão é Imbecil e Preconceituoso"
Matando Robôs Gigantes (Jovem Nerd) 23/jun/2015 "Pode mulher no Fifa?" (não vi/vídeocast)
Quem Curte? 24/jul/2015: "Existe machismo no mundo nerd, geek e de cosplayers?"
Laura Buu 29/ago/2015: "O que aconteceu com o Pink Vader?"
Drops de Jogos 03/set/2015: "O caso Pink Vader, o machismo no meio nerd e o nosso posicionamento"

*Upideite(08/set/2015): Claro que a metodologia torna um pouco complicada a representatividade da amostra para fins de extrapolação para todo o universo nerde anglófono.
**Upideite(08/set/2015): adido a esta data.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ReprodutivaMente: da reprodutibilidade em Psicologia e nas ciências

Não tenho muito o que falar sobre o recente estudo com um índice relativamente baixo de replicação de resultados de estudos psicológicos publicados em três importantes revistas da área. Reproduzo a conclusão dos 270 autores do artigo (felizmente a Science deixou o artigo em acesso aberto):

"After this intensive effort to reproduce a sample of published psychological findings, how many of the effects have we established are true? Zero. And how many of the effects have we established are false? Zero. Is this a limitation of the project design? No. It is the reality of doing science, even if it is not appreciated in daily practice. Humans desire certainty, and science infrequently provides it. As much as we might wish it to be otherwise, a single study almost never provides definitive resolution for or against an effect and its explanation. The original studies examined here offered tentative evidence; the replications we conducted offered additional, confirmatory evidence. In some cases, the replications increase confidence in the reliability of the original results; in other cases, the replications suggest that more investigation is needed to establish the validity of the original findings. Scientific progress is a cumulative process of uncertainty reduction that can only succeed if science itself remains the greatest skeptic of its explanatory claims.

The present results suggest that there is room to improve reproducibility in psychology. Any temptation to interpret these results as a defeat for psychology, or science more generally, must contend with the fact that this project demonstrates science behaving as it should. Hypotheses abound that the present culture in science may be negatively affecting the reproducibility of findings. An ideological response would discount the arguments, discredit the sources, and proceed merrily along. The scientific process is not ideological. Science does not always provide comfort for what we wish to be; it confronts us with what is. Moreover, as illustrated by the Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), the research community is taking action already to improve the quality and credibility of the scientific literature.

We conducted this project because we care deeply about the health of our discipline and believe in its promise for accumulating knowledge about human behavior that can advance the quality of the human condition. Reproducibility is central to that aim. Accumulating evidence is the scientific community’s method of self-correction and is the best available option for achieving that ultimate goal: truth."
["Depois desse esforço intenso para reproduzir uma amostra de achados em Psicologia publicados, quantos desses efeitos estabelecemos como verdadeiros? Zero. E quantos desses efeitos estabelecemos como falso? Zero. É uma limitação do desenho do projeto? Não. Essa é a realidade de se fazer ciência, mesmo quando isso não é apreciado na prática do dia-a-dia. Os humanos desejam certezas e as ciências raramente podem dá-las. A despeito de nossos desejos de que as coisas fossem diferentes, um único estudo quase nunca dá uma resposta definitiva a favor ou contra um efeito e sua explicação. Os estudos originais examinados aqui ofereceram indícios provisórios: as réplicas que conduzimos ofereceram indícios adicionais confirmatórios. Em alguns casos, as réplicas aumentaram a segurança da confiabilidade dos resultados originais; em outros casos, as réplicas sugeriram que mais investigações são necessárias para estabelecer a validade dos achados originais. O progresso científico é um processo cumulativo de redução da incerteza que só pode ser bem sucedido se as próprias ciências permanecerem céticas a respeito de suas alegações explicativas.

Os resultados presentes sugerem que há espaço para a melhoria da reprodutibilidade na Psicologia. Qualquer tentação de interpretar estes resultados como uma derrota da Psicologia ou das ciências em geral devem ser contestada com o fato que este projeto mostra as ciências funcionando como deveria. Há uma abundância de hipóteses que a presente cultura nas ciências possa estar afetando negativamente a reprodutibilidade dos achados. Uma resposta ideológica irá desconsiderar os argumentos, desacreditar as fontes e simplesmente seguir adiante. O processo científico não é ideológico. As ciências nem sempre traz conforto para o que gostaríamos que fosse; elas podem nos confrontar com o que de fato é. Além disso, como ilustrado pelas Orientações da Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), a comunidade de pesquisa está tomando ações para melhorar a qualidade e a credibilidade da literatura científica.

Conduzimos este projeto porque nos importamosentos profundamente com a saúde de nossa disciplina e acreditamos em sua promessa de acumular conhecimento sobre o comportamento humano que pode aumentar a qualidade da condição humana. A reprodutibilidade é central nesse objetivo. A acumulação de indícios é o método de auto-correção da comunidade científica e é a melhor opção disponível para atingir sua meta definitiva: a verdade."]

Podemos relativizar a questão da 'verdade' e 'conhecimento cumulativo', mas é isso. Nenhum estudo isolado tem a palavra final sobre um dado tema. É preciso considerar o conjunto de indícios disponíveis. O processo científico se consolida nisso, com replicações (e revisões sistemáticas, e meta-análises).

O fato de conseguirem obter um resultado, dentro da margem de erro, igual ao original em 47 dos 100 estudos mostra como o processo científico, mesmo em sua fase inicial: da publicação de estudos originais, já atua como um filtro poderoso. (Não consigo pensar em outros processos de geração de conhecimento com essa taxa de confirmação independente.) Que isso possa ser ainda melhor, pra mim, é só motivo de otimismo.

Upideite(30/ago/2015): Uma análise bayesiana que procura evitar um binarismo (falha/sucesso) na análise. (via @andrelesouza RT)

Upideite(01/set/2015): Carlos Orsi "Crise na psicologia mostra ciência em ação"

Upideite(18/set/2023): Bom dizer que há contestações desse estudo da Open Science Collaboration. A reprodutibilidade real seria maior - o grupo que concluiu pela reprodutibilidade reduzida teria usado metodologia inadequada.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Zoológico = prisão animal?

Na postagem anterior abordei uma queixa (que considero injusta) (de parte) dos defensores dos direitos animais em relação à experimentação animal. Aproveito o embalo para comentar sobre outra queixa, também injusta, deles, a de que zoológicos são cativeiros cruéis de animais e que deveriam ser desativados.

"Pela Extinção do Zoológico, liberdade para os animais inocentes presos sem cometer crime!" bradam alguns ativistas.

É verdade que os animais não cometeram nenhum crime - por definição são incapazes de fazê-lo (ainda que alguns espécimes sejam capturados após ataque a seres humanos e suas propriedades). Mas zoológicos modernos não são meros gabinetes de curiosidades. Desde a década de 1990, os principais zoos do mundo passaram e continuam a passar por uma reformulação em seu papel, assumindo uma importância cada vez maior na conservação biológica.

Os zoos são também centros fundamentais de educação ambiental e de pesquisa biológica/veterinária.

"Zoological parks are evolving institutions in respect to the conservation of biological diversity. From past functions in recreation as menageries and in education as living museums, they are coming to discharge these functions, plus other meaningful ones in research and conservation, as internationally oriented conservation centers. Education is the primary function in conservation, but zoos have begun to make significant contributions as genetic refuges and reservoirs, especially for large vertebrate species threatened with extinction. In developing this capacity zoos have fostered investigations into several facets of small population biology. These have extended to simulation modelling to help predict the outcome of various combinations of ecological, genetic, and demographic factors on the viability of populations in captivity and in the wild. Because resources of zoos are limited in respect to their enlarged functions in conservation and research, they are encouraging development of criteria to help prioritize actions for conservation of biodiversity. North American, European, and Australian zoos are meanwhile assisting the development of technical capacities among zoo counterparts, government agencies, and protected areas in both developing and developed countries of the world to further the conservation of biodiversity. Similar involvement by other biological institutions and by biological professional associations can make important contributions to policies of nations and actions of people that determine the prospects for survival of much of the biota.Rabb 1994*

["Parques zoológicos são instituições em evolução no que diz respeito à conservação da diversidade biológica. De funções pretéritas de recreação como mostruário de feras e na educação como museus vivos, eles estão cumprindo essas funções, além de outras igualmente significativas em pesquisa e conservação, como centros de conservação orientados internacionalmente. Educação é a função primária na conservação, mas os zoos começaram a ter contribuições significativas como refúgios genéticos e reservas, especialmente para grandes espécies vertebradas ameaçadas de extinção. Ao desenvolver essas capacidades, os zoos alimentaram pesquisas em várias facetas da biologia de pequenas populações. Isso se estendeu à modelagem de simulações para ajudar a prever o resultado de várias combinações de fatores ecológicos, genéticos e demográficos na viabilidade de populações em cativeiro e na natureza. Como os recursos dos zoos são limitados face à ampliação de suas funções na conservação e pesquisa, eles incentivam o desenvolvimento de critérios para ajudar na definição de ações prioritárias para a conservação da biodiversidade. Zoos norte-americanos, europeus e australianos, enquanto isso, estão auxiliando no desenvolvimento de capacidades técnicas entre suas contrapartes zoológicas, agências governamentais e áreas de proteção, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, para melhor conservação da biodiversidade. Envolvimento similar por parte de outras instituições biológicas e por associações profissionais biológicas podem dar importante contribuição para as políticas nacionais e ações pessoais que determinem as chances de sobrevivência de boa parte da biota." Raab 1994]

Boa parte da população de grandes centros urbanos têm pouca ou nenhuma oportunidade de contato com ambientes silvestres; os zoológicos oferecem oportunidade de uma experiência próxima com elementos da biota mundial. Praticamente apenas nos zoológicos podem conhecer e ter uma experiência mais próxima com exemplares de várias espécies - inclusive nativas de sua região.

Em vários zoos ocorrem pesquisas comportamentais, fisiológicas, veterinárias importantíssimas que ajudam a fornecer informações para orientar a conservação in situ de diversas espécies e biomas ameaçados. Algumas pesquisas só são possíveis com animais mantidos em cativeiro - ou, pelo menos, são grandemente facilitadas por se poder acompanhar o animal ao longo do tempo e ter controle sobre sua dieta, luminosidade, temperatura ambiente...

Programas de procriação e intercâmbio genético nos zoos são fundamentais para espécies que têm seu hábitat fortemente ameaçado: por caça ilegal, desmatamento, poluição, queimada, especulação imobiliária, expansão das fronteiras agrícolas, presença de espécies invasoras, doenças, etc.

Zoológicos modernos procuram oferecer condições 'humanitárias' de cativeiro, com enriquecimento ambiental, reprodução de características dos hábitats (plantas, iluminação, sombreamento, relevo, textura)...

A ararinha-azul-de-lear, natural do norte da Bahia, encontrava-se em situação de "criticamente ameaçada" até 2008. Graças a programas de reintrodução, que contou com a colaboração de programas de procriação de diversos zoos, a população na natureza aumentou, chegando a pouco mais de 950 indivíduos. Atualmente é classificada como "em perigo" - ainda inspira cuidados, mas houve uma melhora.

O órix-do-saara encontra-se extinto na natureza. Graças a exemplares mantidos em zoológicos, há esperanças de haver reintrodução em seu hábitat - claro, o Saara - de exemplares para repovoamento.

O panda-gigante provavelmente é o símbolo mais famoso dos esforços de conservação que passam pela reprodução em cativeiro, com fundamental participação de intercâmbio genético entre populações de diversos zoológicos.

Há zoológicos sem condições de funcionamento. Estes devem ser readequados e, em último caso, desativados. Mas campanhas genéricas contra zoológicos mostra uma falta de compreensão do valora importância desse importante instrumento de educação, pesquisa e conservação.

*Upideite(15/fev/2016): link atualizado.

Upideite(02/jun/2016): Veja também reportagem em duas partes no programa Oxigênio:
Zoológicos: por que eles ainda existem? (parte I)
Importância dos zoológicos para a pesquisa e preservação (parte II)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Experimentação animal: cientistas brutos?

Já abordei a questão da experimentação animal aqui no GR à época da invasão e destruição das instalações do Instituto Royal e São Roque, SP.

Retomo por causa de uma acusação feita por uma pessoa envolvida em ativismo das causas animais. Segundo essa pessoa: "cientistas brasileiros não buscam alternativas porque não se preocupam o suficiente com os animais que utilizam".

Se a afirmação/negação é falsa em pelo menos um dos dois pontos: "cientistas brasileiros não buscam alternativas ao uso de modelos animais na experimentação científica", "cientistas não se preocupam com os animais que usam", ela será falsa no conjunto.

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Em um levantamento publicado em 2009 com pesquisadores da Universidade Federal de Goiás, com 38 questionários respondidos:

a) sobre o uso de animais dentro da própria linha de pesquisa dos respondentes:
"03. Assinale a opção que mais se aproximaria de sua opinião sobre o uso de animais na sua linha de pesquisa?
(1) uso os animais, pois estes não sofrem, ou sofrem muito pouco, com os procedimentos que utilizo;
(2) o fato de que os animais foram criados para esta finalidade faz com que seu uso seja mais aceitável eticamente;
(3) tenho pena de usar os animais, mas não vejo outra forma de obter resultados;
(4) não tenho pena dos animais. A saúde humana é o que realmente me importa;
(5) se houvesse outras metodologias disponíveis, não utilizaria os animais por consideração aos mesmos;
(6) é uma metodologia padrão adotada praticamente em todo mundo nesta linha de pesquisa, logo não vejo nenhum problema com este uso."

43,2% utilizariam modelos alternativos se disponíveis; 20,5% não levantaram nenhum questionamento quanto às metodologias atualmente predominantes; 18,2% ignoravam ou desconsideravam o sofrimento animal;

b) sobre o uso de animais nas pesquisas em geral:
"04. Com qual das opiniões mais se identifica, sobre a experimentação animal em geral:
(1) não vejo motivos para controvérsias sobre a experimentação animal;
(2) quem critica a experimentação animal não entende, ou entende muito pouco, de pesquisa ou de ciência;
(3) a crítica à experimentação animal, quando bem feita, é saudável à ciência e à pesquisa;
(4) isso deve ser discutido entre especialistas no assunto, e não pela sociedade civil;
(5) a experimentação animal é indispensável à ciência e ao progresso para saúde animal e humana;
(6) a ciência é capaz de encontrar outros métodos que não envolvam a experimentação em animais, e isso deve ser tarefa da ciência;"

40% apresentaram abertura à crítica, consideram que esta, quando bem feita, é saudável à pesquisa; 36,4% apontam que o uso de animais é indispensável;

c) quanto ao incômodo moral com o uso de animais:
"05. Atualmente, ao manipular os animais em experimentos, sente algum tipo de incômodo moral?
( ) sempre / ( ) quase sempre / ( ) poucas vezes / ( ) nunca
06. Ao manipular os animais em experimentos, no início de sua formação acadêmica, costumava sentir algum tipo de incômodo moral?
( ) sempre / ( ) quase sempre / ( ) poucas vezes / ( ) nunca "

no início da formação acadêmica - 63,1% sentem algum incômodo, 28,9% nunca se sentiram incomodados; no estágio então atual da carreira - 55,2% sentiam algum incômodo, 36,8% nunca sentem tal incômodo;

d) percepção de sofrimento animal em suas pesquisas:

"08. Qual o nível de sofrimento animal (dor, estresse, angústia...) causado pelos procedimentos empregados em sua linha de pesquisa?
( ) nenhum sofrimento
( ) pouco sofrimento
( ) algum sofrimento
( ) muito sofrimento
( ) não saberia dizer"

65% consideram que os animais têm algum sofrimento; 21,1% consideram que os animais não passam por nenhum sofrimento em suas pesquisas;

e) justificação do uso de animais:

"10. Assinale a opção que mais corresponde à sua opinião: “O uso de animais pela ciência apenas pode ser eticamente justificado quando”:
( ) tem potencial de trazer benefícios à saúde humana;
( ) tem potencial de trazer benefícios à saúde de animais domésticos, além da saúde do próprio homem;
( ) além dos possíveis benefícios à saúde, tem potencial de trazer benefícios econômicos;
( )faz avançar o conhecimento humano;"

47,6% quando beneficia os seres humanos e animais domésticos; 31% quando faz avançar o conhecimento;

f) debate bioético promovido durante a formação dos respondentes:

"12. Na sua formação enquanto pesquisador (graduação e pós-graduação), os questionamentos e debates voltados à experimentação animal, provocados pelos professores em discussões abertas e críticas, eram
( ) muito freqüentes
( ) freqüentes
( ) ocasionais
( ) raros
( ) inexistentes
( ) não lembra"

42,1% ocasionalmente; 26,3% em raras ocasiões;

g) disciplina de ética na formação dos respondentes:

"13. Na sua formação enquanto pesquisador (graduação e pós-graduação), o papel da disciplina de ética, em seus conteúdos voltados à ética na experimentação animal a partir de perspectivas mais críticas, pode ser considerada como:
( ) satisfatório ( ) parcialmente satisfatório ( ) insatisfatório ( ) inexistente "

36,8% parcialmente satisfatória;

h) modelos substitutivos:

"14. Escolha a opção abaixo que melhor reflete sua opinião em relação aos métodos de pesquisa substitutivos ao modelo animal:
( ) envolvem grande investimento financeiro;
( ) não possuem validade científica;
( ) não oferecem um caminho seguro de investigação;
( ) são pouco conhecidos;
( ) na grande maioria dos casos, não é possível substituir o modelo animal na pesquisa científica;"

>50% experimentação animal é insubstituível; >20% pouco conhecidos;

Com esses dados é um tanto estranha a conclusão dos autores desse estudo de que: "O que temos aqui é uma situação provavelmente que mistura interesse e falta de informação. Os/as pesquisadores/as que disseram que substituiriam a experimentação animal parecem ter assinalado essa somente por ser, aparentemente, uma situação hipotética, já que a maioria considera que na maior parte dos casos ela não é substituível.

[Lista de métodos substitutivos: cultura de células e tecidos, simulações, nanotecnologia, etc.]

Como vimos, é bastante possível considerar a substituição de animais em procedimentos experimentais. O que parece se demonstrar é uma possível falta de interesse em desenvolver novas metodologias e até mesmo de buscar as existentes, uma vez que 23,3% dos/as pesquisadores/as amostrados/as tenham alegado ser tais técnicas pouco conhecidas. Com isso, parece haver a sugestão de uma resistência em abandonar uma prática à qual estão acostumados/as a empreender".

No questionário utilizado os pesquisadores não foram perguntados se utilizaram ou se procuraram utilizar dessas e outras alternativas.

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Um outro levantamento foi feito com pesquisadores do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu-SP apresentado em 2010: 34 questionários foram respondidos.

a) Justificativa:
"4)Justificativa do trabalho com os animais" (questão aberta)

~90% melhoria da saúde humana ou animal; ~10% avanço do conhecimento;

b) Preocupação com o bem estar animal:
"6)Existe incômodo moral ?(de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo de incômodo) 

7)Existe preocupação em relação ao sofrimento do animal ?(de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo de preocupação)"

"Sendo que, no geral, todas as pessoas com mais de 20 anos de trabalho com animais possuem
preocupação máxima com a minimização do sofrimento do animal, porém não demonstram
possuir incômodo moral em relação à prática, o que pode ser justificado pela consciência de
estar fazendo da melhor forma possível, ou pela cegueira ética condicionada com o tempo,
visto que as pessoas que possuem menor tempo de trabalho, abaixo de 10 anos são as que
demonstraram sentir pelo menos algum incômodo moral."

c) debate bioético promovido durante a formação dos respondentes:
"9) Houve debate sobre o assunto em sua formação?
( )sim, bastante ( )sim, suficiente ( )sim, pouco ( )não"

~50% sim; ~50% pouco ou nenhum.

d) modelos substitutivos:
"10) Opinião sobre a viabilidade de modelos alternativos (de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo para a possibilidade)"

média 5,6

A conclusão da autora, no entanto, também é um tanto estranha: "As sinalizações gerais apontam para uma opinião simpatizante por parte dos pesquisadores na adoção dos modelos substitutivos para algumas pesquisas que não sejam a deles, demarcando também a falta de informação ou até mesmo de interesse por parte dos pesquisadores em buscar metodologias que não necessite de animais e que sejam tão ou até mais eficientes".

Não há no questionário nada relacionado ao interesse dos pesquisadores em modelos substitutivos.
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De modo geral, os pesquisadores respondentes estão preocupados com o bem estar dos animais utilizados em seus próprios experimentos e nos experimentos científicos de modo geral.

Os pesquisadores demonstram algum ceticismo da viabilidade da substituição do uso de animais em determinadas pesquisas sem perda importante de generalidade e precisão. Os autores dos dois estudos aqui citados interpretam isso como desconhecimento, mas os questionários utilizados não permitem essa conclusão - ainda que seja uma possível.

Embora o tamanho amostral seja reduzido, baseando-nos em uma certa homogeneidade (ainda que nem de longe absoluta) dos pesquisadores, podemos extrapolar (com o devido cuidado) que os pesquisadores brasileiros preocupam-se, sim, em minimizar o sofrimento de seus sujeitos experimentais: camundongos, ratos, sapos, peixes, alunos de graduação e pós-graduação... (nem que seja para atender às demandas e exigências dos comitês de ética).

Assim:

"cientistas brasileiros não buscam alternativas ao uso de modelos animais na experimentação científica" (V/F)
"cientistas não se preocupam com os animais que usam" (F)
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"cientistas brasileiros não buscam alternativas porque não se preocupam o suficiente com os animais que utilizam" (F)

Claro que se pode fazer alguma discussão em torno do termo "suficiente".

Upideite(21/ago/2015): Um levantamento online obteve 12 respostas com pesquisadores brasileiros que trabalham com diagnóstico da raiva. As justificativas mais frequentes para o uso de inoculação cerebral em camundongos em vez de métodos in vitro validados foram:
a) falta de recursos humanos e capacitação profissional - 5 respostas;
b) acomodação, hábito e falta de boa vontade das pessoas - 4;
c.i) falta de recursos financeiros - 3;
c.ii) barreiras regulatórias e falta de incentivo do governo - 3;
c.iii) barreiras cultural e ética - 3;
d.i) falta de estrutura dos laboratórios, equipamentos e materiais - 2;
d.ii) falta de conhecimento e conscientização - 2;
d.iii) importância dos fatores orgânicos para observação da doença - 2;
e.i) baixa sensibilidade ou falhas das técnicas in vitro - 1;
e.ii) facilidade e baixo preço do IVC - 1;
e.iii) falta de tempo - 1.

Com a mesma plataforma online os autores obtiveram respostas de 35 pesquisadores anglófonos e 12 lusófonos (dos quais 11 trabalhavam no Brasil).
7 anglófonos e 6 lusófonos utilizavam o método in vivo de diagnóstico de raiva.
1 anglófono e 5 lusófonos responderam que o custo de implementação do método in vitro levava a escolherem o procedimento in vivo.

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Para um trabalho de conclusão de curso de 2013, foram entrevistados 20 pesquisadores do Instituto de Biociências da Unesp/Botucatu-SP. Os entrevistados foram divididos em dois grupos: os contratados antes da lei Arouca 11.794/2008 e os contratados depois (mas no relato não é dado o tamanho de cada grupo).

"1) Do seu ponto de vista, qual é a abrangência da Bioética?"

58,5% citaram a ética na pesquisa e nas relações humanas, sem incluir questões ambientais (como OGMs, bem estar animal, agrotóxicos, etc).

"2) Você tem conhecimento de legislação sobre experimentação animal?
( ) Não.
( ) Sim. Se sim, cite exemplos."

100% dos pós-Arouca demonstraram conhecer a legislação; 75% dos pré-Arouca.

"3) O que mudou no seu laboratório e em suas pesquisas após a criação do comitê de ética na Universidade?"

4) Você teria feito mudanças em seu laboratório e em suas pesquisas caso não houvessem sido criados esses comitês?"

100% dos pré-Arouca mudaram procedimentos.
16,7% dos pré-Arouca disseram que mudariam mesmo sem os comitês.

"5) Durante sua carreira de pesquisador, você já mudou seus sentimentos frente ao sofrimento animal?"

25% dos pós-Arouca relataram ter mudado; 75% dos pré-Arouca.

Novamente, a conclusão dos autores vai além do que os dados permitem entender: "Portanto, conclui-se que em sua maioria, os pesquisadores concebem a ética na experimentação animal como obediência [à]s Leis instituídas e que a consciência ao bem estar animal é algo que ainda está distante e esse tema necessita ser exposto e mais debatido para que se crie uma consciência crítica a respeito". Por exemplo, para uma boa base para se afirmar que é pura obediência formal à lei, sem concordância com seu teor, a pergunta '4' deveria ser complementada com uma questão do tipo: "Se a lei fosse abolida, retornaria aos procedimentos anteriores? Por quê?"

Upideite(22/ago/2015): Levantamento para pesquisa de doutoramento na UFSC em 2012, com 185 docentes de 17 IFES.

a) Conhecimento do conceito dos 3Rs (redução, substituição/replacement, refinamento: redução de sofrimento/estresse):
Entre pesquisadores que publicaram trabalhos com uso de animais:
~80% alto/mediano;
10~20% pouco/nenhum.
Entre os que não publicaram:
40~60% alto/medino;
40~60% pouco/nenhum.

b) Importância dos princípios dos 3Rs:
Entre os docentes dos departamentos de Fisiologia (Gfis):
69% os três igualmente importantes;
12,3% redução;
11% refinamento;
8% substituição.
Entre os docentes dos departamentos de Farmacologia (Gfar):
68% os três igualmente importantes;
18,5% refinamento;
8% redução;
6% substituição.

c) Posicionamento quanto ao uso de animais:

Opção Gfis (%) Gfar (%)
"Acredito que há métodos melhores que a experimentação animal em pesquisas sobre saúde humana e animal. Estou trabalhando ativamente em pesquisas que substituem animais em alguns experimentos em minha linha de investigação" 1,3 3,8
"A experimentação animal é uma necessidade para a maioria das pesquisas atuais. Sua importância é inegável, e tem sido a responsável pela maioria dos avanços na saúde humana e animal" 44,3 38,1
"Não acredito que a pesquisa experimental abandone totalmente o uso de animais, independente de minha opinião sobre este assunto" 20,3 31,4
"Eu entendo que novas tecnologias possam vir a substituir o modelo animal em pesquisas sobre saúde humana e animal, assim como a razão disso acontecer, mas minha área de pesquisa exige usar animais como modelo" 20,3 17,1
Nenhum das opções acima 13,9 9,5

"5) Animais frequentemente utilizados na pesquisa aplicada (como camundongos e ratos) são modelos preditivos para seres humanos"
Gfis: 68% concordam; 9,4% discordam (n=53);
Gfar: 74% concordam; 10% discordam (n=81).

"6) Modelos experimentais baseados em humanos são o melhor caminho para alcançar resultados efetivos relacionados à saúde humana"
Gfis: 42% concordam; 39% discordam;
Gfar: 57,5% concordam; 29% discordam.

"7) A tecnologia aplicada à pesquisa experimental não será capaz de substituir o modelo animal"
Gfis: 63,3% concordam; 19% discordam;
Gfar: 58,5% concordam; 28,3% discordam.

"8) Abandonar a modelagem animal na pesquisa experimental causará sérios atrasos na descoberta de novas drogas e terapias, seja para humanos ou animais"
Gfis: 83,5% concordam; 11,4% discordam;
Gfar: 79,2% concordam; 14,2% discordam.

"9) É um exagero considerar a experimentação animal como principal responsável pelos avanços na saúde humana"
Gfis: 24,1% concordam; 62% discordam;
Gfar: 35,8% concordam; 49,1% discordam.

"10) Problemas éticos suscitados pela experimentação animal são superados pelo impacto positivo que a experimentação animal causa sobre a saúde humana e animal"
Gfis: 49,4% concordam; 30,4% discordam;
Gfar: 50,9% concordam; 31,1% discordam.

"11) Resultados obtidos da experimentação animal são duvidosos e confusos considerando sua aplicação em seres humanos"
Gfis: 3,8% concordam; 84,8% discordam;
Gfar: 13,2% concordam; 70,8% discordam.

"12) As descobertas científicas que mais contribuíram para prolongar a vida humana resultaram basicamente de estudos e observações clínicas, e não de testes feitos em animais vivos de outras espécies"
Gfis: 3,8% concordam; 70,9% discordam;
Gfar: 10,4% concordam; 62,3% discordam.

"13) A pesquisa científica poderá vir a substituir o uso de animais considerando-se um financiamento substancial dirigido ao desenvolvimento de outras técnicas experimentais"
Gfis: 38% concordam; 50,6% discordam;
Gfar: 44,3% concordam; 34,9% discordam.

"14) A tradição é a principal força que mantém a experimentação animal como um método científico da pesquisa experimental"
Gfis: 12,7% concordam; 82,3% discordam;
Gfar: 10,4% concordam; 82,1% discordam.

"15) A experimentação animal é essencial à ciência"
Gfis: 77,2% concordam; 13,9% discordam;
Gfar: 70,8% concordam; 12,3% discordam.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Celebridades científicas são necessárias? - meu centavo e meio

Na postagem anterior comentei de passagem uma discussão que surgiu diante da constatação do baixo conhecimento do brasileiro a respeito de ciências, dos cientistas e das instituições científicas. Ela se conecta com as tentativas de se atrair mais pessoas para as carreiras de STEM (science, technology, engineer and mathematics).

Há várias iniciativas nesse sentido. No ensino básico por meio das "olimpiadas do conhecimento" (sim, eu sei que deveria haver acento no segundo 'i' de olimpiadas, mas como o COI e o COB são extremamente ciosos com o uso do termo e o último já chegou a notificar tais competições para que mudassem de denominação, vai sem acento mesmo) nessas áreas: na última reunião da SBPC foram premiados vencedores em várias categorias nacionais e a olimpiada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, OBMEP, é uma das maiores do gênero. [Artur Avila, nosso medalhista Fields, levou bronze na olimpiada Brasileira de Matemática, OBM (não confundir com a OBMEP), em 1992.] E feiras de conhecimento, como a Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), da LSI/Poli/USP. No ensino superior, o Ciência Sem Fronteiras, originalmente voltada especificamente para os STEM, e, por isso mesmo, alvo de várias críticas por não incluir ciências humanas, p.e. Para o público em geral a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Entre outras iniciativas locais, estaduais, federais, particulares e governamentais.

Na discussão ocorrida na reunião da SBPC a que me referi na postagem passada, surgiu o tema do "cientista celebridade" ou "celebridade cientista". Antes é preciso deixar claro que não se está dando nem um sentido negativo de celebridade (o que se acha, o que amealha para si todas as glórias mesmo a que deveria ser compartilhada ou atribuída a outros, o que trata os demais com descaso), nem o sentido que atualmente seria o mais convencional: alguém simplesmente famoso por ser famoso (e não por ser um destaque em uma área relevante na vida das pessoas - ao contrário, a ideia é exatamente que se destaquem por isso - aproximar-se do sentido anterior ligado exatamente ao termo primitivo 'célebre': no sentido, p.e., em que Einstein foi um célebre físico e não apenas um físico célebre). Em uma postagem do Rafael Bento, do RNAm, com o link para o artigo de André Rabelo, do SocialMente, um comentarista disse: "mais ego é algo que a ciência realmente não precisa".

As demais críticas têm sido: há outras coisas a se fazer (como valorizar as ciências dando melhores condições de trabalhos aos cientistas - entre salários, bolsas, direitos trabalhistas, desburocratização para a pesquisa...), linha adotada na crítica de Rabelo e também de Luiz Bento, do Discutindo Ecologia; a questão é superficial; e, para Atila Iamarino, do Rainha Vermelha e Nerdologia, é preciso que a Capes e o CNPq incentivem a divulgação científica de modo geral, reconhecendo a atividade na avaliação do pesquisador e dando verba para isso.

Como adiantei na postagem anterior, eu tendo a me alinhar mais com Stevens Rehen, da UFRJ, e com a Helena Nader, presidente da SBPC, e Jacob Palis, da ABC.

Mas, antes, abordemos as críticas: sim, há mais coisas a se fazer, apenas ter celebridades não é a solução para todos os problemas da ciência brasileira. Esse ponto é pacífico até entre os defensores de que haja mais cientistas conhecidos e admirados pelo grosso da população. Só que o fato de haver outras coisas não quer dizer que seja inútil haver os tais cientistas celebridades, ponto reconhecido pelo próprio Rabelo, crítico à ideia. Creio que esse ponto seria relevante se se propusesse que a promoção de "heróis da ciência" fosse a única ou a principal ação para a melhoria da ciência nacional. Não é o caso. Ou se fosse concorrente por recursos escassos. O que não é necessariamente o caso. A construção de reputação popular de indivíduos pode demandar muito dinheiro - como pagar anúncios em veículos de comunicação -, mas, aqui, não é algo que seja preciso. Agências de fomento, associações científicas, órgãos de governo têm seus relações públicas. E, não se trata aqui de personalismo, podemos eleger notáveis na forma de instituições ou mesmo personalidades já com boa reputação entre os pares - claro, há que se cuidar da transparência e não de fomentar panelinhas e intrigas de salão (infelizmente nada raro na comunidade científica). Bastaria, por exemplo, que órgãos de governo trabalhassem mais na promoção da *premiação* José Reis de divulgação científica junto aos veículos de comunicação (incluindo aí os social media): Artur Avila, não obstante o reconhecimento entre os pares pela qualidade de seu trabalho, ganhou boa notoriedade popular por meio da Fields - comparecendo à FLIP deste ano. Fora um Nobel, então, sua fama iria às alturas.

O ponto levantado por Atila, talvez um dos que podemos considerar o mais próximo de uma celebridade científica (é reconhecido por um bom público de jovens estudantes e alvo de tietagem), é interessante, mas também não é exatamente algo contrário à ideia de eleição de "campeões da ciência". E, sim, pode até ser, como argumenta, um meio indutor para o surgimento das celebridades.

Porém, todo esse blablablá acima serve mais como um intróito do que eu gostaria de realmente argumentar. Eu, confessadamente, não tenho conhecimento suficiente para argumentarpredicar a respeito de políticas públicas e apontar caminhos que devemos ou não trilhar. Então, mais do que apenas falar do que eu acho, é melhor eu trazer argumentos *científicos*. A questão dos "role models", dos modelos de vida, é bastante discutida mesmo na questãono problema da atração para as áreas STEM. Sapna Cheryan e colaboradores (2011) avaliaram a influência desses modelos na visão de mulheres quanto a suas possibilidades de sucesso nas STEM.

"Women who have not yet entered science, technology, engineering, and mathematics (STEM) fields underestimate how well they will perform in those fields (e.g., Correll, 2001; Meece, Parsons, Kaczala, & Goff, 1982). It is commonly assumed that female role models improve women’s beliefs that they can be successful in STEM. The current work tests this assumption. Two experiments varied role model gender and whether role models embody computer science stereotypes. Role model gender had no effect on success beliefs. However, women who interacted with nonstereotypical role models believed they would be more successful in computer science than those who interacted with stereotypical role models. Differences in women’s success beliefs were mediated by their perceived dissimilarity from stereotypical role models. When attempting to convey to women that they can be successful in STEM fields, role model gender may be less important than the extent to which role models embody current STEM stereotypes."
["Mulheres que ainda não entraram nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) subestimam quão bem elas irão desempenhar nessas áreas. Geralmente se assume que modelos femininos de vida melhoram a crença das mulheres em que elas serão bem sucedidas nas STEM. O presente trabalho testa essa suposição. Dois experimentos variaram o gênero do modelo e se o modelo incorpora estereótipos das ciência da computação. O gênero do modelo não teve efeito sobre a crença no sucesso. No entanto, mulheres que interagiram com modelos não-estereotípicos acreditaram que elas podem ser mais bem sucedidas em ciência da computação do que as que interagiram com modelos estereotípicos. Diferenças nas crenças no sucesso das mulheres foram mediadas pela dissimilaridade percebida em relação ao modelo estereotípico. Na tentativa de convencer mulheres que elas podem ser bem sucedidas nas áreas STEM, o gênero do modelo deve ser menos importante do que a extensão em que os modelos incorporam estereótipos correntes sobre as STEM."]

Seria, claro, pretensioso acreditar que isso encerra a discussão. A literatura é extensa e nem sempre há concordância quanto a isso. Mas espero que esse exemplo sirva para demonstrar que a proposta não é despropositada. E, embora eu não queira ser pretensioso de dar a palavra final, eu sou pretensioso o suficiente para querer que esta abordagem incentive a discussão a tomar uma base mais factualmente embasada. Opiniões pessoais (e históricos de vida) e ideologias importam, no entanto, a análise fica mais rica e sólida quando podemos amarrar com base em dados e estudos.

Upideite(28/set/2015): Um interessante artigo de Declan Fahy na revista da CSI (Committee for Skeptical Inquiry): "A brief history of scientific celebrity" via Rodrigo Veras fb.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Percepção Pública da Ciência e Tecnologia 2015

A quarta edição da pesquisa de “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil”, agora conduzida pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos coordenado pelo MCTI, não traz muitas novidades em relação a outras.

Mostra a tendência geral de melhora das atitudes em relação às ciências: mais pessoas consideram que a atividade traz só benefícios ou mais benefícios do que malefícios (o que não deixa de ser também um fato preocupante*) - tendência que se dá por motivos não muito claros. (Fig. 1.)

Figura 1. Atitude do brasileiro em relação às ciências. Percepção de benefícios x malefícios. Fonte: CGEE 2015.

Em relação ao interesse declarado, não é possível uma comparação com toda a série pela mudança na metodologia de codificação das respostas na pesquisa de 2010. Mas é possível se verificar que praticamente não há alteração pelo interesse declarado em ciências - a maior variação ocorre em relação à moda, por motivo que desconheço - em relaçãocomparação ao último levantamento.(Fig. 2a e b.)

a) 
b) 
Figura 2. Interesse declarado do brasileiro por a) temas selecionados com destaque para b) ciências. Fonte: CGEE 2015.

Como comentei em uma análise sobre os resultados do Indicador de Letramento Científico da Abramundo, esses valores devem ser tomados com um bom grau de reticências. Há incongruências quando comparamos atitudes declaradas e ações medidas. O interesse manifestado não se concretiza, por exemplo, na busca pelas informações sobre o tema - 93,3% dos entrevistados não se lembram do nome de nenhum cientista brasileiro, 87,2% não sabem o nome de nenhuma instituição de pesquisa; além disso, a visão de que a ciência só traz benefícios não se casa com a opinião de que os cientistas têm poderes que os tornam perigosos (31,5% concordam totalmente, 35,9% concorda em parte), que a C&T é responsável pela maior parte dos problemas ambientais (21,9% totalmente e 34,6% em parte)*.

Os resultados de 2015 podem ser analisados online combinando-se vários filtros por categorias socioeconômicas. Ferramente similar à disponível na base dados da GSS americana e do SIDRA do IBGE. Uma sugestão de melhoria é permitir também o cruzamento entre as perguntas, p.e., saber, dentre os que responderam que as ciências só trazem benefícios, quantos acham que os cientistas são perigosos.
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O ponto em que os entrevistados continuam a manifestar um alto grau de desconhecimento sobre cientistas e instituições científicas brasileiras é motivo de preocupação por parte de acadêmicos e autoridades. Uma discussão lateral que surge é sobre o papel que cientistas célebres - ou cientistas "celebridades" - poderiam ter na atração de novos talentos para a área de STEM (ciências naturais, tecnologia, engenharia e matemática). André Rabelo, do DivertidaSocialMente, escreve contrariamente à ideia. Não exatamente contrariamente, mas acha que a questão é outra: a atratividade passaria pela valorização profissional - salários e condições de trabalho. Já Steven Rehen da UFRJ acredita que teria um impacto positivo. Talvez mais tarde eu aborde essa questão aqui no GR. Adiando que por ora tendo a me alinhar com a visão de Rehen e Helena Nader - sem maiores prejuízos à questão da valorização do trabalho do cientista defendida por Rabelo.***

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* É legal que se tenha uma visão positiva das ciências. Sim, as ciências são muito úteis e trazem vários benefícios. Mas, de um lado, claro que é exagero se considerar que ela *só* traz benefícios. Há vários perigos embutidos na atividade científica e em seus produtos. A energia nuclear é útil e pode ser que, em uma análise ponderada sobre riscos e benefícios, conclua-se que valha a pena investir nela. No entanto, não dá para dizer que não haja perigos em sua utilização (Three Miles Island, Chernobyl e Goiânia que o digam). Que 54% acreditem que não haja malefício algum na atividade científica é, assim, problemática. O outro ponto é que, o que em parte explica os 54%, essa visão positiva não se dá através de uma análise ponderada sobre o papel das ciências na sociedade moderna e na vida cotidiana. O baixo conhecimento - declarado e medido - em relação às ciências mostra que essa visão grandemente positiva está calcada exatamente em uma ignorância quanto à questão. Claro que não é apenas uma questão de ignorância: ela provavelmente não explica, por exemplo, um aumento da visão positiva ao longo do tempo - teria o nível de ignorância sobre ciências aumentada com o tempo? Não temos dados diretos a respeito dessa questão, mas os resultados etários do ILC não parece corroborar que haja um decréscimo geracional no grau de conhecimento científico - sempre fomos tão ignorantes em relação às ciências quanto somos hoje (ao menos na janela das últimas três décadas). Retornando à visão positiva calcada na ignorância, bem, esse grau de ingenuidade é bastante perigosa: tanto na manipulação de anúncios do tipo "cientificamente comprovado" quanto em campanhas anticiência baseadas em teorias da conspiração. Verdade que a ingenuidade é longe de total: a maior parte dos entrevistados considera que os cientistas são perigosos e a ciência (e a tecnologia) causam a maior parte dos problemas ambientais**. O que, por uma feita, traz ainda outro problema para os relações públicas das ciências resolverem, e, por outra, estabelece um conundro - que se resolve pela observação da incongruência dos pensamentos da população a respeito da C&T (em parte, certamente o conhecido fenômeno das pesquisas de opinião em que o entrevistado tenta dar a resposta que acha que o entrevistador considera a correta).

Talvez esse problema pudesse ser minorado invertendo-se a ordem das perguntas. A questão sobre se consideram que as ciências trazem mais benefícios do que malefícios ficasse depois de perguntas que dão exemplos de potenciais malefícios: cientistas perigosos por deterem poder do conhecimento e conhecimento e tecnologia que resultam em danos ambientais. Claro que isso criaria outro viés. Então, talvez seja o caso de aleatorizar a ordem das perguntas. Aí seria possível se ter uma ideia de o quanto a visão positiva sobre as ciência dá-se por não se ter à mente um exemplo de malefício das ciências e o quanto dá-se por realmente desconsiderar tais malefícios.

**Upideite(27/jul/2015): corrigido a esta data.
***Upideite(28/ju/2015): meus pitacos sobre a questão de cientistas celebridades.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Biólogo e a Divulgação Científica 2.5

Minha apresentação no último dia 21.jul durante o XII Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia.



As cores ficaram um pouco zoadas na conversão.

Disclêimer: As opiniões apresentadas são de exclusiva responsabilidade do autor. Não refletem necessariamente a visão institucional do Labjor. Nem da Fapesp, nem do IB/Unicamp ou outras instituições citadas.

Upideite (23/jul/2015): Agradecimentos especiais a @marifiora, @luizbento, Simone Pallone e Germana Barata pela revisão de versão preliminar da apresentação. Todos os erros que tenham persistidos são de inteira responsabilidade do autor.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ciência x Mídia x Novas Mídias: a cobertura do IBRO

O neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ, postou em seu perfil na rede do tio Zucko uma reclamação quanto à cobertura da imprensa nacional (mídia impressa e online) do IBRO 2015 - 9° Congresso Mundial da Organização Internacional de Pesquisa do Cérebro, um dos principais eventos científicos da área. Veículos das organizações Globo, onde o pesquisador tem bons contatos, cobriram o evento: CBN, Globo News, Globo Repórter, O Globo (combo quase total: rádio, cabo, tv aberta, impresso; não foi mencionado, mas suspeito que o G1 também ). mais a Record e a Revista Fapesp. (Sinceramente, no Brasil, eu já ficaria mais do que satisfeito com 'apenas' a Globo cobrindo...)

Verdade que o próprio Rehen, um dos organizadores do evento, não postou nada sobre isso em seu blogue (verdade também que eu mesmo não costumo publicar aqui no GR eventos com os quais estou envolvido, então não posso censurar ninguém quanto a isso). A última atualização é de 12/jun "US$ 28 bi jogados no lixo com artigos científicos irreproduzíveis?". Mas sua conta no twitter esteve bem ativa com detalhes sobre o evento, antes mesmo de seu início no último dia 7/jul; bem como seu perfil no facebook.

Rafael Soares, do RNAm e da Numina Labs, foi por conta própria. Mas Silmar Geremias, do SciCast, e o Carlos Cardoso, do Meio Bit, e Luiz Bento, do Discutindo Ecologia*, reclamaram que não houve nenhuma comunicação para os divulgadores científicos que utilizam as novas mídias.

A jornalista Sofia Murtinho, assessora de imprensa do evento, foi um tanto dura nas respostas (ainda que as reclamações também tenham sido duras): "Eu não entendo quem critica mídias tradicionais e fica sentado esperando um release chegar na caixa de e-mail". (Vale a pena conferir - quebrando a zerésima regra da internet - os comentários à postagem de Rehen no facebook.)

Conversando com pessoal de ciências de um importante portal brasileiro, parece que por lá também não chegou nenhuma comunicação sobre o evento.

O perfil do Scienceblogs Brasil no facebook pergunta: "Falta cobertura por falta de interesse da mídia ou dos espectadores? As pessoas gostam de ciências e de neuro!"

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Um elemento que também é preciso se considerar - afora a questão de se a comunicação foi eficiente ou não, de se os alvos escolhidos foram acertados ou não, de se há interesse ou não das mídias ditas tradicionais - é que as redações das empresas de comunicação estão muito reduzidas devido aos sucessivos cortes de pessoal. Nem sempre conseguem destacar gente para cobrir um evento ou mesmo para acompanhá-los via internet. Aí acabam se valendo mesmo de material de agências ainda que seja um evento no próprio país.

Há também um pouco da questão do timing. Parte do evento pegou o feriadão no Estado de São Paulo, da Revolução Constitucionalista de 1932, emendando desde quinta-feira (09/jul). Muitos dos principais veículos atuam de SP. Cobrir o evento em esquema de plantão também pode ser complicado, ainda mais em cenário de crise econômica.

Claro que isso, por outro lado, pode botar pressão para os organizadores apelarem para o "sexing-up". Daí pra aparecerem coisas como "10 motivos científicos por que seu cérebro não resiste a gatinhos na internet" não irá muita distância. Do chamativo ao apelativo não se requerem grandes esforços. Mas pode garantir maior cobertura da mídia (sobretudo online) e atrair mais leitores/ouvintes/espectadores (e, principalmente, clicadores).

*Upideite(10/jul/2015): adido a esta data.

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