Lives de Ciência

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domingo, 16 de outubro de 2016

Produção de alimentos e mudanças climáticas

Uma das grandes preocupações com as mudanças climáticas é o impacto que elas têm sobre a produção de alimentos.

As grandes culturas vegetais: trigo, milho, soja, cevada, arroz e aveia - de 1960 a 2010, tiveram suas safras triplicadas; a quantidade de tubérculos e raízes: mandioca e batata, aumentou em 50% durante o mesmo período. Atualmente a produção de frango é cinco vezes a de seis décadas atrás; duas vezes e meia mais porcos são criados e 50% mais de gados bovinos, bubalinos, ovinos e caprinos. (Godfray et al. 2010.) Esse aumento foi essencial para atender ao crescimento da demanda com o correspondente aumento da população humana e mudanças nos padrões de consumo - embora a distribuição dessa produção seja ainda um grande desafio (uma fração substancial vive em regime de subnutrição).

Nos próximos 40 anos, a pressão para o aumento da produção deve continuar com o aumento da população mundial para estimados 9 bilhões de pessoas. (Godfray et al. 2010.) Mas as áreas com problemas de produtividade têm aumentado. Ray et al 2012, examinando dados de censos agropecuários ao redor do mundo de 1961 a 2008, encontraram que, a despeito de a produção crescer em várias áreas, em entre 24 e 39% das áreas de cultivo de milho, soja, arroz e trigo a produção não tem aumentado ou vem decaindo por vários motivos. Um esforço muito maior, então, acaba tendo que ser aplicado para que as áreas produtivas tenham uma safra suficiente para atender à demanda.

Além disso, as mudanças climáticas estão alterando as temperaturas - aquecimento global em função do aumento da concentração de CO2 -, e os padrões de pluviosidade. Como isso afeta a agricultura?

As temperaturas afetam a produtividade por:
a) acelerar o crescimento das plantas, reduzindo o tempo da safra, o que, para muitas culturas, significa uma menor produção;
b) alterando as taxas de respiração, fotossíntese e formação dos grãos;
c) elevando a pressão de vapor de saturação: aumentando as situações de déficit hídrico, aumentando a perda de água das plantas para a atmosfera;
d) temperaturas elevadas danificam as células diretamente;
*obs. por outro lado, o aumento da temperatura tende a diminuir a incidência de geadas - culturas sensíveis ao congelamento tendem a se beneficiar;
e) junto com teores mais altos CO2 de pode beneficiar pragas e doenças.
(Lobell & Gourdji 2012.)

O aumento de CO2 tende a ser benéfico para as plantas:
a) espécies de metabolismo C3 como milho, trigo e outros tendem a se beneficiar pela maior concentração de CO2 diminuir os custos energéticos dessa via fotossintética;
b) os estômatos podem permanecer mais tempo fechados, evitando a perda de água;
*obs. por outro lado, o valor nutricional das culturas pode ser afetado pela redução da concentração de proteínas uma vez que diminui a eficiência da absorção de nitratos do solo pelas plantas.
(Lobell & Gourdji 2012.)

Mas no balanço entre benefícios e prejuízos como tem sido o efeito das mudanças climáticas e quais as perspectivas dos efeitos futuros?

Lobell et al. 2011 analisaram as tendências de alteração de temperatura e precipitação nas áreas de cultivo dos quatro principais grãos (milho, soja, trigo e arroz) de 1960 a 2008. Não se detectaram mudanças em relação à pluviosidade, mas as temperaturas nas áreas de cultivo entre 1980 e 2008 estiveram mais altas cerca de 2 desvios padrões a mais em relação à variação entre 1960 e 2000. Na modelagem usada pelos autores, isso significou uma queda de 3,8% da produção do milho e de 2,5% na de trigo em relação a uma situação sem mudanças climáticas e sem aumento nos teores atmosféricos de CO2. Para a soja, deve ter havido um incremento de 1,3%, e de 2,9% para o arroz. Mas isso em uma escala global, em perspectiva local, houve perdas significativas para vários produtores importantes: a produção de soja no Brasil, p.e., deve estar cerca de 5% menor do que seria caso as temperaturas não tivessem aumentado (na Argentina, a produção de soja deve ter se beneficiado com uma produção cerca de 2 a 3% aumentada em relação a uma ausência de aumento global de temperatura); já na produção de milho, o impacto negativo das temperaturas mais elevadas são ainda maiores para o Brasil: uma perda entre 7 e 8% na produtividade, isso porque a cultura de milho não tende a se beneficiar com o aumento observador nos teores de CO2 no ar.

Lobell et al. 2008 identificam o Sul da Ásia e o Sul da África como as regiões sob maiores riscos de sofrerem com queda de produção devido às mudanças climáticas, sendo as áreas prioritárias para as medidas de adaptações até 2030. As regiões tropicais são as que enfrentarão os impactos mais negativos até 2080 (Fig. 1), enquanto a agricultura das regiões temperadas e frias, especialmente do hemisfério norte, devem se beneficiar das alterações; exatamente as regiões com maiores índices absolutos e per capita de emissão de gases de efeito estufa (Fig. 2).

Figura 1. Impacto previsto das mudanças climáticas sobre a produção agrícola. Fonte: Wikimedia Commons.

a)
b)
Figura 2. Emissões de equivalentes de CO2  por país: a) emissões totais (ano base 2005); b) per capita . Fonte: a) Wikimedia Commons b) Wikimedia Commons.

Challinor et al. 2014, em uma meta-análise de mais de 1.700 artigos, concluem que um aumento de 2°C ou mais na temperatura média local deve levar a uma queda de cerca de 20% na produção dos grãos. Mas medidas de adaptação (alteração no calendário de plantio, uso de fertilizantes, irrigação, cultivares adaptados e outras medidas agronômicas) podem aumentar a produção em 7 a 15% contrabalançando o efeito das perdas pelas alterações climáticas: a adaptação de cultivares tendo o maior efeito, seguido da irrigação; e tendo maior efeito para o trigo e arroz do que para o milho. Mas as perdas pelas alterações podem ser ainda maiores porque, até o momento, os modelos utilizados pouco levam em conta o aumento da incidência de pragas e doenças com o aumento das temperaturas e variação da pluviosidade.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Liguem para o sapo: um conto em contas

Tomei a declaração do cineasta Fernando Meirelles de que ninguém liga para o sapo pesquisado pelos cientistas, que é preciso contar uma história e deixar a numeralha de lado, etc. como um desafio.

Mas, antes, um recado do Calíquio:

"Liga pra mim!"

Abaixo um conjunto de números de por que devemos ligar para o sapo, a rã, a perereca, a cecília, o tritão, a salamandra e outros demais amiguinhos anfíbios nossos. Há várias histórias aí, não estruturadas, questão de ligar os pontos.

Spoiler alert: não tem princesas.
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Imagem: modificada de Pixabay.
- Há cerca de 6.000 espécies conhecidas de anfíbios;
- 1.896 espécies estão em perigo iminente de extinção;
- Aproximadamente de 35 a 130 espécies extinguiram-se desde 1500, entre 9 e 122 desapareceram desde 1980;
- Considerando-se somente os casos de extinção, a taxa atual é 211 vezes a taxa de extinção de fundo;
- Incluindo-se as espécies em perigo iminente de extinção, a taxa atual é de 25.039 a 45.474 a taxa de extinção de fundo;
(Dados e referências em McCallum 2007)

Figura 1. Taxa de extinção de anfíbios. Estimativa inferior e superior do número de espécies extintas de anfíbios desde o ano de 1500 AD. Fonte: McCallum 2007.

- Em uma reserva temperada metropolitana de 80,9 hectares na região de Charlotte, Carolina do Norte, EUA, estima-se haver 105.824 espécimes e 12 espécies de anuros;
- O valor comercial total estimado dos anfíbios na área foi de US$ 6.021.007;
- Valor médio de US$ 56,90 por indivíduo;
(Witzczak & Dorcas 2009)
- No alagado de Elleton Bay, Carolina do Sul, EUA, com 10 ha de área, foram capturados 392.605 anfíbios ao longo de um ano compreendendo 17 espécies;
- O valor comercial total estimado da amostra foi de US$ 3.605.848;
- Desses, US$ 3.413.821 correspondem a girinos produzidos ao longo de um ano;
- Valor médio de US$ 9,18 por indivíduo;
(DeGregorio et al. 2014)

- Um levantamento de 2002 a 2011, em poças d'água de 34 sítios nos EUA, encontrou um declínio anual médio de 3,7% de ocupação das poças por pelo menos uma de 48 espécies de anfíbios;
- Para os anfíbios listados como ameaçados pela IUCN (International Union for Conservation of Nature) a taxa de declínio foi de 11,6% ao ano;
(Adams et al. 2013)

- 6 causas principais de perda de biodiversidade que atuam sobre o declínio dos anfíbios:
a) exploração comercial; b) espécies introduzidas/exóticas competidoras, predadoras e parasitas; c) mudanças de uso de solo; d) contaminantes; e) mudanças climáticas; f) doenças infecciosas emergentes;
.causas históricas (atuando há séculos): a, b, c; causas recentes: d, e, f.
.declínio/extinção: c, e, f; declínio: a, b, d
(Collins 2010)

Serviços ecológicos, econômicos e culturais prestados pelos anfíbios:
- provisão de recursos: alimento e medicamentos: 4.716 ton./ano de pernas de rã (maior parte retirada da natureza);
- controle de pragas e vetores;
- cultural: personagens, fotografias, motivos artísticos, animais de estimação;
- suporte ecológico:
.ambientes aquáticos - dinâmica de nutrientes, bioturbação, cadeia alimentar: controle de população de algas, redução de acúmulo de sedimentos;
.ambientes terrestres - controle de população de invertebrados, alteração física de hábitat e ciclo de nutrientes: redução da decomposição foliar (predação de invertebrados detritívoros);
.fluxo entre ecossistemas (aquático/terrestre);
.alteração física do ecossistema: alteração da taxa de sedimentação e fluxo (eliminação de macrófitas e perífito), escavação de solo;
(Hocking & Babbit 2014)

Upideite(16/set/2015): Mais alguns números.
- Girinos em rios neotropicais mantêm populações de algas até 50% menor do que se não estiverem presentes;
(Ravestel et al. 2004)
- Tritão-de-pintas-vermelhas (Notophthalmus viridescens viridescens) adulto consome 439 ± 20 mosquitos/dia;
- Larva de salamandra-toupeira (Ambystoma talpoideum) consome 316 ± 35 mosquitos/dia;
- Em uma área de 10ha de alagados, uma população de 50.000 anfíbios/ha pode consumir 100.000 larvas de mosquito/noite;
- Há estudos de correlação indicando que áreas de alagados com anfíbios contém até 98% menos mosquitos do que áreas sem anfíbios;
(DuRant & Hopkins 2008)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Luz, câmera, ciência: será que dá mesmo pra ganhar corações no papo, Meirelles?

O jornalista Herton Escobar, em seu Imagine Só!, traz o discurso do cineasta Fernando Meirelles em sua apresentação no 8º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, Curitiba-PR, organizado pela Fundação Grupo Boticário.

Para Meirelles, “[n]ão adianta só números, estatísticas, planilhas … se não vocês estão falando só pra sua tribo. O único jeito é contar histórias”.

Embora à primeira vista pareça um conselho razoável, mantenho minhas reticências. Já expressei minhas preocupações com a ênfase demasiada no storytelling na apresentação do trabalho científico.

Particularmente no processo de engajamento do público na discussão sobre as bases científicas das pesquisas sobre aquecimento global e mudanças climáticas, pelo menos uma estatística parece ter um efeito importante: 90% dos especialistas concordam que está havendo um aumento das temperaturas médias globais causadas, em grande parte, pelas atividades humanas como emissão de CO2 e mudanças no uso do solo.

Segundo van der Linden e colaboradores (2015), a demonstração do consenso a respeito do AGA funciona como elemento de porteira que ajuda a abrir a mente do público leigo para a realidade do fenômeno e das graves perspectivas que nos esperam se nada for feito para diminuir as emissões dos gases-estufa.

"There is currently widespread public misunderstanding about the degree of scientific consensus on human-caused climate change, both in the US as well as internationally. Moreover, previous research has identified important associations between public perceptions of the scientific consensus, belief in climate change and support for climate policy. This paper extends this line of research by advancing and providing experimental evidence for a “gateway belief model” (GBM). Using national data (N = 1104) from a consensus-message experiment, we find that increasing public perceptions of the scientific consensus is significantly and causally associated with an increase in the belief that climate change is happening, human-caused and a worrisome threat. In turn, changes in these key beliefs are predictive of increased support for public action. In short, we find that perceived scientific agreement is an important gateway belief, ultimately influencing public responses to climate change." Van der Linden et al. 2015.
["Há uma compreensão errônea disseminada entre a população a respeito do grau do consenso científico em torno das mudanças climáticas causadas pelos seres humanos, nos EUA e em outros países. Além disso, estudos anteriores identificaram importante associação entre a percepção pública a respeito do consenso científico, crença nas mudanças climáticas e apoio às políticas climáticas. Este artigo estende essa linha de pesquisa apresentando e fornecendo indícios experimentais para o 'modelo da porteira de crença' (GBM, 'gateway belief model'). Com o uso de dados nacionais (n = 1.104) de um experimento de mensagem de consenso, encontramos que um aumento na percepção publica do consenso cientifico é associado significativa e causalmente com um aumento na crença de que as mudanças climáticas estão ocorrendo, são causadas pelos seres humanos e são uma ameaça preocupante. Por outro lado, mudanças nessas crenças-chave são preditivas de um aumento no apoio à ação pública. Em suma, encontramos que o consenso científico percebido é uma importante porteira de crença, influenciando decisivamente na resposta do público às mudanças climáticas."]

Claro, se interpretarmos a fala do cineasta com uma ênfase diferente: "não adianta só números, estatísticas, planilhas", podemos compatibilizar com o que foi apresentado acima do efeito da percepção do consenso científico em torno do AGA (o número *é* importante para o efeito - não adianta apenas dizer que há um consenso ou vagamento dizer que a maioria dos cientistas acredita). Mas é mais complicado compatibilizar com a segunda parte: "O único jeito é contar histórias". Não que histórias não contem, mas é bastante discutível de que seja o único jeito.

De outra feita, "Cidade de Deus" é uma obra prima. Importantíssima. Tocante. Chocante. Um tapa na cara. Mas o quanto isso mudou a percepção do público em relação à questão não apenas do tráfico de drogas, mas, principalmente, da vida das comunidades nas favelas do Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo? Não apenas a visão estereotipada da violência, da resposta padrão da repressão policial?

Como eu disse aqui no GR em outra ocasião, não que a história do storytelling seja fajuta, mas precisamos de indícios mais sólidos a respeito de sua eficácia e funcionamento - e dos eventuais problemas -, antes de sair abraçando-a como *a* solução da comunicação pública de ciências. Será que Meirelles engajar-se-ia em financiar pesquisas científicas sobre o tema (não necessariamente metendo a mão no próprio bolso, mas ajudando a convencer as empresas a pingarem suas contribuições)?

Upideite(28/set/2015): Vídeo da apresentação de Meirelles no 8o. CBUC.
via Débora Menezes fb.

Upideite(02/out/2015): Complementos: "Liguem para o sapo: um conto em contas", "Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 23".

Outra(s) leitura(s):
Ceticismo.net "Cineastas, eu não quero saber da sua opinião sobre Ciências"

Upideite(24/out/2015): Minha leitura da proposta de Meirelles.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jogo dos erros 6

Não sei se podemos chamar de "virada de tempo", mas há uma certa coincidência temporal em que a Folha de São Paulo tenha intensificado o espaço para os negacionistas climáticos e demitido o jornalista Claudio Angelo (melhor para o Scienceblogs, que agora conta com o texto acurado, apurado e afiado do brasiliense). O que esses fatos significam só os tempos (cronológico e meteorológico) poderão dizer.

De todo modo, Molion emplacou mais um texto no jornal paulista (reproduzido no Quiprona, de Roberto Berlinck). Torno a dizer que respeito a produção científica do pesquisador no que se refere à meteorologia, mas discordo de muitas coisas que ele diz, sobretudo em seu posicionamento de negação do aquecimento global.

Um resfriamento global, com mais invernos rigorosos e má distribuição de chuvas, é esperado nos próximos 20 anos, em vez do aquecimento global antropogênico (AGA) alardeado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
Uma coisa boa aqui: Molion faz uma previsão testável. Uma coisa não tão boa: ele vem dizendo a mesma coisa desde pelo menos 2005: "O clima global poderá experimentar um resfriamento paulatino nos próximos 25 anos se a ODP comprovadamente permanecerem sua nova fase fria." Já são pelo menos sete anos dessa previsão de resfriamento que não se concretiza. Há um fator complicador: Molion poderia até mesmo acertar com um período de resfriamento por duas décadas, sem que isso representassem um resfriamento global - duas décadas são uma janela curta em relação à tendência maior do aquecimento. O pesquisador até cita período anterior de queda de temperatura global média - essa queda entre o pós-guerra e a década de 1970 não anulou o tendência maior (vide a parte 1 da série sobre o Aquecimento Global).

O AGA é uma hipótese sem base científica sólida. As suas projeções do clima, feitas com modelos matemáticos, são meros exercícios acadêmicos, inúteis quanto ao planejamento do desenvolvimento global.
Molion volta a errar a mão na sua crítica. A base científica da hipótese do AGA é bastante sólida. São milhares de artigos nas últimas décadas publicados em revistas indexadas com processo de revisão por pares que trazem dados que sustentam a hipótese. Até as previsões realizadas sobre tendências de temperatura vem sendo confirmadas - mostrando a robustez dos modelos usados. Por outro lado, com base em quê Molion projeta um período de resfriamento? Oras com base em modelos matemáticos que dão certo peso a fenômenos como a Oscilação Decadal do Pacífico e atividade solar. Mas enquanto o modelo adotado pelo IPCC vem sendo confirmado nos últimos 20 anos, o modelo de Molion vem errando nos últimos 7 anos.

Porém, o efeito estufa jamais foi comprovado, nem sequer é mencionado nos textos de física. Ao contrário, há mais de cem anos o físico Robert W. Wood demonstrou que seu conceito é falso.
O que Robert W. Wood mostrou é que em uma estufa verdadeira - daquelas casas transparentes em que se cultivam plantas tropicais - o efeito do aquecimento se dá pelo impedimento do movimento de convecção do ar aquecido. Mas não é isso o que se entende atualmente pelo nome de 'efeito estufa'. (O termo é, sim, terrível e bastante enganoso - assim como ocorre com vários outros termos de amplo uso nas ciências: Eva mitocondrial, p.e, não se refere nem à única mulher que existiu em um período remoto, nem à única mulher que contribuiu geneticamente com os humanos atuais.)

Na parte 1 da série sobre o Aquecimento Global Antropogênico, apresentei a definição de efeito estufa: "aumento da temperatura média de uma porção de ar (podemos considerar toda a atmosfera, p.e.) pela presença de determinados gases em certas concentrações."

O efeito estufa assim definido é amplamente comprovado: desde estudos em laboratório e demonstrações didáticas, até observações interplanetárias. E é mencionado em livros-textos de física: e.g. Giordano, 2012, College Physics vol. 1 (p. 471 – Cengage Learning, 608 pp). Mas vamos supor que não fosse mencionado, há vários fenômenos que não são mencionados em livros-texto de física já que o espaço é limitado - mesmo um livro eletrônico deve ter um tamanho razoável que possa ser coberto em dois semestre de introdução à Física. Além disso, o efeito estufa é um fenômeno que se casa mais bem em um livro sobre física atmosférica - e lá encontramos menções em abundância. De modo geral, há pouca menção sobre dinâmica de atmosférica em livros básicos de física introdutória de graduação.


As temperaturas já estiveram mais altas com concentrações de CO2 inferiores às atuais. Por exemplo, entre 1925 e 1946 o Ártico, em particular, registrou aumento de 4 °C com CO2 inferior a 300 ppmv (partes por milhão em volume). Hoje, a concentração é de 390 ppmv.//Após a Segunda Guerra, quando as emissões aumentaram significativamente, a temperatura global diminuiu até a metade dos anos 1970.//Ou seja, é obvio que o CO2 não controla o clima global.
Aqui o Molion dá a entender que entre 1925 e 1946 as temperaturas globais médias foram mais altas. Não é o que os dados mostram. Vide, por exemplo, as Figs. 1 e 2 da parte 1 da série sobre o AGA para as médias globais e para as médias locais, veja a Figura 1 abaixo.
Figura 1. Variação da temperatura superficial em Godthab Nuuk, Groenlândia. Fonte: Giss/Nasa.

Há a variação mencionada por Molion, mas a tendência geral é de aumento da temperatura*. E mesmo com outros fatores a atuar, há correlação entre a temperatura local e a concentração atmosférica de CO2 (Figura 2). Poderia não haver, já que temperaturas locais sofrem influência de outros fatores - como padrão de massas de ar.

Figura 2. Covariação entre temperatura local em Godthab Nuuk e concentração atmosférica global de CO2. Fonte (concentração de CO2): Giss/Nasa.

**Deve-se notar também que entre o fim da Segunda Guerra e a década de 1970, houve um grande aumento de emissão de particulados na atmosfera. A Hipótese do Escurecimento Global leva isso em conta.Com a introdução de medidas de controle de emissão de particulados e fuligem - necessárias por conta de problemas à saúde - houve um clareamento da atmosfera a partir da década de 1970, o que deve ter levado aos níveis de incidência solar de volta aos valores pré-guerra, anulando o efeito de resfriamento observado no período.

Após a Segunda Guerra, quando as emissões aumentaram significativamente, a temperatura global diminuiu até a metade dos anos 1970 // Ou seja, é obvio que o CO2 não controla o clima global..
Não é verdade. Houve diminuição, mas até meados dos anos 1950. Depois disso, a tendência de aumento voltou a ocorrer (vide as Figuras 1 e 2 da parte 1 da série). Mas até poderia ter ocorrido tal redução. A hipótese do AGA não diz que a temperatura sempre sobe a todo instante, e sim que há uma *tendência* de aumento da temperatura média global na superfície ao longo do tempo - pode haver reduções momentâneas de temperatura (por exemplo, quando ocorre uma grande erupção vulcânica, cujas cinzas bloqueiam parcialmente a incidência solar).

A ideia não é que o CO2 *controle* o clima, mas sim que sua concentração aumentada influencie no aumento da temperatura média global.

[R]eduzir emissões significa reduzir a geração de energia e condenar países subdesenvolvidos à pobreza eterna, aumentando as desigualdades sociais no planeta.
Nope. É possível de se reduzir as emissões por meio da redução do consumo por aumento da eficiência energética, por exemplo: algo em torno de 30% podem ser economizados. E, principalmente, pode-se reduzir as emissões pela substituição gradual da matriz energética por fontes renováveis como biomassa, eólica e solar e até algumas não renováveis como energia nuclear.

A trama do AGA não é novidade e seguiu a mesma receita da suposta destruição da camada de ozônio (O3) pelos clorofluorcarbonos (CFC) nos anos 1970 e 1980.
Suposta? A redução é medida. Vide Figura 3 da primeira parte da análise sobre as alegações de Felício.

Criaram a hipótese que moléculas de CFC, cinco a sete vezes mais pesadas que o ar, subiam a mais de 40 km de altitude, onde ocorre a formação de O3.
Sim, essa hipótese foi aventada. Mas Molion parece ignorar que essa previsão foi testada e... sim, *há* de fato moléculas de CFC a 40 km de altitude. Balões meteorológicos com armadilhas que fecham e capturam amostras de ar permitem que se analise a composição química da mistura gasosa a diferentes altitudes. E moléculas de CFC, a despeito de sua densidade massa molecular, são encontradas a altitudes de 30, 40 km.


Figura 3. Perfil vertical de concentração atmosférica de CFC-11 sobre Fort Sumner, Novo México, EUA, 1996. Fonte: NOAA. (A tropopausa fica a uma altitude entre 9 km - nos polos - e 17 km - no equador; a altitude de 50 km tem em torno de 110 mb. Nota: O link original encontra-se quebrado, uma cópia pode ser lida aqui.

Em 1995, os autores das equações químicas que alegadamente destruíam o  O3  receberam o Nobel de Química. Porém, em 2007 cientistas do Jet Propulsion Laboratory da NASA demonstraram que as suas equações não ocorrem nas condições da estratosfera antártica e que não são a causa da destruição do ozônio.
Por algum motivo, Molion não cita que desde 2009 a discrepância dos resultados está resolvida. A técnica usada pela equipe de Pope (pesquisador do JPL) necessitava de amostras de alta pureza do gás CFC testado para se medir o efeito catalisador. A suspeita desde o início era de que as amostras analisadas estivessem contaminadas. Usando uma técnica que não depende do grau de pureza da amostra de gás, a equipe taiuanesa de Hsueh-Ying Chen obteve uma atividade compatível com o mecanismo proposto pelos nobelistas Molina, Crutzen e Rowland***.

*Updieite(11/ago/2012): A média da variação das temperaturas médias anuais registradas nas estações da Groenlândia é similar ao padrão de Godthab Nuuk (Figuras 4 e 5****).
Figura 4. Variação das temperaturas anuais médias nas estações de Groenlândia. Fonte: GISS.

**Upideite(11/ago/2012): adido a esta data.
***Upideite(11/ago/2012): corrigido a esta data.

****Upideite(13/ago/2012):
Figura 5. Correlação entre as anomalias das temperaturas médias anuais da Groenlândia e as anomalias das temperaturas médias anuais em Godthab Nuuk. (Base: média entre 1881-2011.) Fonte: GISS.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Jogo dos erros 5

Claudio Angelo, da Folha de São Paulo, cantou a bola, uma onda negacionista estava por vir. Veio. No Brasil, foi uma entrevista no programa do Jô, uma carta dos negacionistas, uma série de reportagens no Jornal da Band, uma no Jornal Nacional, um debate no Entre Aspas da Globo News e várias reportagens na mídia impressa.

Quem vem à carga agora é um colunista da Folha de São Paulo, o engenheiro-civil e de petróleo Rodolfo Landim: "Influência humana em mudanças climáticas é discutível".

É discutível apenas no sentido de que, como toda hipótese científica, é aberta à discussão e à contestação. Mas não no sentido que ele quer passar: de que as bases factuais em apoio sejam suspeitas e fracas.

"Há uma clara divisão de opiniões sobre o tema: existe um grupo de cientistas que acredita que o comportamento da humanidade nos coloca a caminho de grandes desastres, enquanto outros defendem que o aquecimento global que estamos vivenciando é apenas parte de um processo cíclico que vem ocorrendo na face da Terra ao longo dos últimos milhares de anos."
De fato, a divisão é relativamente clara no sentido de que é mais ou menos fácil de se distinguir membros de um grupo do de outro*. Mas não no sentido que invoca: de que a divisão separa em grupos mais ou menos equivalentes. A divisão não é equivalente nem numericamente (alhures mostro como a visão de que não há influência humana significativa é minoritária entre os especialistas: só 6% dos membros da Associação Meteorológica acreditam que o aquecimento não é antropogênico em nenhuma extensão e 82% dos cientistas da Terra concordam que há aquecimento e os humanos têm um papel nisso), nem - o que realmente importa - em termos de embasamento factual, os melhores indícios disponíveis apontam para o aquecimento global antropogênico (como mostro na série sobre o AGA e outras postagens compiladas aqui).

O que o colunista diz é o equivalente a dizer que há uma clara divisão de opiniões sobre a evolução biológica - existe um grupo de cientistas que acredita que a vida evoluiu, enquanto outros que ela surgiu mais ou menos da mesma forma que se encontra atualmente, ou que há uma clara divisão entre os cientistas que acreditam que a Aids é causada pelo HIV e os que acham que é por outra coisa.

"Os impactos causados pelo lançamento de compostos de carbono de origem humana na atmosfera afetariam apenas os locais onde eles se situam, ou, no máximo, o seu entorno, e sem nenhuma expressão em termos de abrangência global."
O colunista deve achar que a atmosfera é uma coisa estática, que não há mistura gasosa - fora isso verdade, as cidades morreriam sufocadas sem oxigênio (localmente não é produzido quase nenhum). Também deve achar que na Antárctica tem fábricas de CFCs.

"Toda a energia consumida pela humanidade por dia equivale a sete milésimos da que o nosso planeta recebe do Sol no mesmo período."
Verdade. Mas completamente irrelevante para a questão. Nenhum modelo que indica a AGA diz que o aquecimento se deve à introdução de mais energia no sistema pela energia consumida pelos seres humanos. A questão é a mudança na composição atmosférica que leva a uma maior captura da energia solar (na verdade, a uma menor saída de energia solar na faixa do infravermelho).

"Em recente carta enviada à Presidência da República, um grupo de renomados cientistas brasileiros de algumas das mais importantes instituições do país (como USP, UFRJ, Inpe, ITA, Unesp e CPRM), formado por geólogos, geógrafos, físicos, meteorologistas, engenheiros e ambientalistas, defenderam essa visão de forma clara e objetiva."
Aceitemos que seja de forma clara e objetiva. Mas foi de uma forma clara, objetiva e errada.

"Considerando apenas o período dos últimos 20 mil anos, ou seja, a partir do início do degelo da última glaciação, as evidências geológicas demonstram ter havido períodos em que as variações de temperatura e do nível do mar foram várias vezes maiores que no período de 1.850 a 2.000, pós-Revolução Industrial, quando a temperatura subiu 0,74ºC (grau centígrado) e o mar subiu 20 centímetros."
Deveria considerar também que a variação foi em cima do último máximo *glacial*. O aumento de 0,74ºC e 20 cm observados entre 1850 e 2000 foi em cima já de um nível aumentado. Se as temperaturas globais médias tivessem partido da temperatura equivalente do último máximo glacial - alguma coisa como 10ºC menos do que hoje - aí, sim, não deveríamos nos preocupar com o aquecimento atual. Mas sair de uma temperatura média de 14ºC para 16ºC ou mais provavelmente não será uma boa ideia.

A ideia sugerida de que a variação atual estaria dentro da variação observada anteriormente e, portanto, que isso indicaria causas naturais, não se sustenta pelos indícios a favor da hipótese do AGA. O que essa variação mostra é que a temperatura da Terra tem seguido muito de perto os níveis de CO2 na atmosfera (Figura 1 e 2*).

Figura 1. Correlação da concentração atmosférica de CO2 e a temperatura. Fontes: CDIAC, concentração de CO2 em Vostok/Antártica; NOAA, temperatura na Groenlândia. (Nota: a concentração de CO2 usada foi a média para as idades imediatamente anterior e posterior correspondentes às datas para as temperaturas.)


Figura 2. Evolução da temperatura atmosférica (Groenlândia) - em  ºC - e da concentração atmosférica de CO2 (Vostok/Antárctica) - em ppmv. Fontes: CDIAC, concentração de CO2 em Vostok/Antártica; NOAA, temperatura na Groenlândia.*

"A 'descarbonização' da economia seria desnecessária e contraproducente por buscar uma pseudosolução para um problema inexistente, já que, além de não implicar nenhum efeito palpável sobre o clima, levaria ao encarecimento das tarifas de energia pelo uso de outras fontes alternativas mais caras ou subsidiadas, cujos recursos poderiam ser mais bem direcionados."
Dá para responder em duas palavras: wishful thinking. Vamos voltar para a hipótese do gajo de que os problemas do carbono lançados na atmosfera seriam apenas locais. Vamos, por caridade, considerar tal hipótese verdadeira, então, como assim, desnecessária? A poluição nas cidades não é um fato? Não temos problemas com chuva ácida (pelo enxofre presente nos combustíveis fósseis), fuligem, monóxido de carbono?

"Assim, a humanidade, que hoje detém um enorme acervo de conhecimentos e recursos técnicos e humanos, deveria deixar de lado o alarmismo climático e dirigir seu foco para viabilizar de forma sustentável a universalização de melhores níveis de bem-estar por meio de obras de infraestrutura de água, saneamento, transportes, comunicação, serviços de educação e saúde e prover eletricidade a mais de 1,5 bilhão de pessoas hoje desassistidas."
Há concordância quanto aos problemas do alarmismo climático e há concordância em relação às necessidades de desenvolvimento sustentável (tanto é que é dos poucos pontos que ficaram no texto base para a discussão dos chefes de estado na Rio+20). O problema é que não se pode negligenciar as mudanças climáticas sob o risco desse bem estar se perder, afetando-se, entre outras coisas, as infraestruturas, a produção de alimentos e acesso à água.

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*Obs: Só mais ou menos porque se descermos aos detalhes, a divisão não é tão nítida assim: por exemplo, há os que acham que não ocorrem aquecimento algum; há os que acham que há aquecimento, mas os humanos não têm influência nenhuma; há os que acham que os humanos estão causando um aquecimento global, mas que isso é benéfico e por aí vai. Para complicar um pouco mais, há os que oscilam entre as diferentes posições.

Upideite(22/jun/2012): Carlos Orsi tem uma postagem analisando a estrutura geral dos argumentos negacionistas.
*Upideite(23/jun/2012): Adido a esta data.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Jogo dos erros 4: A carta dos negacionistas climáticos

Mais uma vez, o blogue do Luis Nassif serve de plataforma para a divulgação das teses dos negacionistas climáticos.

Agora, Molion, Felício e outros estão juntos no mesmo documento. Analiso abaixo os principais pontos das alegações.

1) Não há evidências físicas da influência humana no clima global
Não é verdade como procurei demonstrar na série sobre aquecimento global, especialmente na parte 3. Uma das evidências da participação humana é a variação do teor de carbono-13 na atmosfera, como na figura 3 da resposta a Molion.

baseiam-se em projeções de modelos matemáticos, que constituem apenas simplificações limitadas do sistema climático
Toda previsão se baseia em simplificações limitadas - de sistemas climáticos, meteorológicos, astrofísicos,  biológicos, epidemiológicos, etc.

A questão é se as previsão são ou não sólidas. Por exemplo, as previsões meteorológicas têm uma taxa de acerto de mais de 90% para um prazo de alguns dias. E no caso de previsões climáticas? Elas têm tido um grande grau de acerto como mostro aqui.

Para que a ação humana no clima global ficasse demonstrada, seria preciso que, nos últimos dois séculos, estivessem ocorrendo níveis inusitadamente altos de temperaturas e níveis do mar e, principalmente, que as suas taxas de variação (gradientes) fossem superiores às verificadas anteriormente.
De modo algum isso seria necessário. Basta que haja uma "assinatura humana" (já citei o exemplo do C-13, mas há compostos que não são produzidos na natureza, como moléculas de CFCs).

O fato de, no passado, ter havido uma taxa maior do que a atual não indica que as atividades humanas são inocentes. No passado, houve extinções em massa cataclísmicas - algumas talvez por impacto com um bólido extraterrestre; não significa que a extinção atual não seja causada pela ação de seres humanos: destruição de hábitats, sobrecaça e sobrepesca, poluição, introdução de espécies invasoras...

Do mesmo modo como a extinção atual está acima da "taxa de fundo" - taxa normal de extinção não cataclísmica - atualmente verificamos uma variação de temperatura acima da taxa normal de variação, excetuando-se pontos de viradas climáticas como passagens por eras glaciais e interglaciais.

Além disso, nos últimos duzentos anos, notamos uma tendência constante de aumento de temperatura e não de simples oscilação em torno de uma média (com temperaturas que ora subam, ora desçam e fiquem, no geral, mais ou menos no mesmo lugar).

2) A hipótese “antropogênica” é um desserviço à ciência:
Não. Ela é fruto da investigação científica. Podemos traçar sua origem a pelo menos até Svante Arrhenius em 1896, quando sugeriu que a emissão de CO2 poderia levar a um aumento global da temperatura. A tese não foi de imediato aceita pela comunidade científica. Demorou, na verdade, mais de um século para que a maioria dos pesquisadores da área considerassem que a influência humana ocorria. Para um resumo da história, veja aqui.

A hipótese foi um grande serviço ao avanço da ciência na medida em que exigiu testes de hipótese para derrubá-la, mas os dados acumulados fizeram foi corroborá-la. Hipóteses alternativas também exigiram que testes fossem feitos, mas calhou que fossem derrubadas: como a de que o aumento atual na temperatura se devesse ao aumento da atividade solar (veja a figura 6 da segunda parte da série sobre o aquecimento global e a figura 2 da parte d da minha resposta a Felício).

Refinamentos de modelos foram levados a cabo. E novos estudos estão sendo feitos em função de se testar a hipótese: especialmente a questão das nuvens e aerossóis (veja uma lista aqui de fontes de incertezas que estão sendo investigadas). Ou seja, está a ocorrer o *oposto* do que os signatários da carta afirmam: os modelos, em função da hipótese da AGA e a discussão em torno dela, têm sido mais e mais *ampliados* para abranger o máximo possível da complexidade climática.

Um exemplo dos riscos dessa simplificação é a possibilidade real de que o período até a década de 2030 experimente um considerável resfriamento, em vez de aquecimento, devido ao efeito combinado de um período de baixa atividade solar e de uma fase de resfriamento do oceano Pacífico (Oscilação Decadal do Pacífico-ODP), em um cenário semelhante ao verificado entre 1947 e 1976.
Eventualmente pode ocorrer um resfriamento, mesmo sob a hipótese do AGA. A hipótese do AGA prevê uma tendência *geral* de aquecimento, não que o aquecimento seja constante o tempo todo. De fato, entre 1940 e 1950, houve um resfriamento - mas isso não anulou a tendência de aquecimento. Houve até um período mais longo de resfriamento entre 1880 e 1910, que também não anulou a tendência global ao aquecimento. Vide as figuras 1 e 2 da primeira parte da série sobre o aquecimento global.

A preparação para as possíveis consequências de longo prazo do aumento da temperatura não quer dizer que não sejam necessárias preparações para tendências de mais curto prazo.

3) O alarmismo climático é contraproducente:
Um ponto de forte concordância. O alarmismo é ruim, tanto quanto o negacionismo. Precisamos nos basear nos melhores dados disponíveis.

atitude correta necessária diante dos fenômenos climáticos, que deve ser orientada pelo bom senso e pelo conceito de resiliência, em lugar de submeter as sociedades a restrições tecnológicas e econômicas absolutamente desnecessárias.
Exato. E o bom senso (incluindo a eventual resiliência ambiental - que tem limites) e os dados nos sugerem que devemos nos preparar para um cenário de temperaturas médias mais altas.

Não devemos nem ser alarmistas, nem negacionistas.

4) A “descarbonização” da economia é desnecessária e economicamente deletéria:
Pelos dados atuais, discutidos nos links citados anteriormente, não é desnecessária. A parte econômica é ainda discutível: certamente seria mais deletério manter as coisas como estão hoje (haveria um ganho comparativo em relação ao cenário de deixar a temperatura subir muito mais - perdas de áreas habitáveis e economicamente exploráveis, perdas de safras, aumento de incidência de doenças...) e pode até ser economicamente positivo em relação ao cenário atual: o maior uso de energia menos poluentes como a solar ou a éolica tende a diminuir a emissão de particulados e gases tóxicos (CO, NOx, O3, etc.) e geradores de chuva ácida - e seus custos estão baixando, sendo competitivos em vários mercados -, demanda investimento em pesquisa, renovação de parte do parque tecnológico, mão de obra especializada: bem gerida, isso significa injeção de recursos na economia, produção mais eficiente, bem o contrário de deleção econômica.

Vale acrescentar que tais mercados têm se prestado a toda sorte de atividades fraudulentas, inclusive no Brasil, onde autoridades federais investigam contratos de carbono ilegais envolvendo tribos indígenas, na Amazônia, e a criação irregular de áreas de proteção ambiental para tais finalidades escusas, no estado de São Paulo.
Verdade, há fraudes em mercado de carbono e isso precisa ser bem regulado e fiscalizado. Do mesmo modo como há fraudes em diversas outras atividades, inclusive a da exploração petrolífera.

5) É preciso uma guinada para o futuro:
Mais um ponto de concordância. A indústria de petróleo, digamos, representa bem o século 19 e 20. Uma guinada espetacular seria uma economia baseada na fusão (e seria muito legal se Fleischmann & Pons não estivessem errados; mas na falta de fusão a frio, esperemos que a fusão a quente se torne economicamente viável). Para um futuro próximo, ainda neste século, esperemos um maior mix tecnológico, com a velha energia emissora de carbono sendo gradualmente substituída por fontes menos poluentes: biomassa (incluindo os biocombustíveis), solar, eólica, geotérmica, das marés...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Jogo dos erros 3d

Segue a parte final da série de postagens analisando a entrevista do Prof. Ricardo Felício da FFLCH/USP ao Programa do Jô. (Reclamaram do uso do cinza para os trechos, mudo para verde.)

21'11: "Não, isso [de avanço do mar sobre a orla] é um fenômeno que já é estudado pela morfologi... geomorfologia, já há muito tempo, e é chamado, então, de agradação e degradação. Então a gente fala assim, a gente usa a palavra degração achando, assim, ah, estamos destruindo o planeta. Não, o próprio planeta se mexe, ele vai mudando suas formas. Então ele também, o mar também faz seus processos de agradação, formar praias, e degradação, ele também desfaz as praias. Isso é um processo natural também."
Há sim processos naturais de formação e erosão de praias e das paisagens em geral. O que não quer dizer que a elevação do nível dos oceanos não estejam sumindo com terras litorâneas. Zhang et al. (2004) concluem que há já avanço da erosão costeira por conta do efeito indireto do aquecimento global, embora Stive (2004) questione a metodologia usada: a aplicação da regra de Bruun (uma equação que relaciona as características do litoral - como sua inclinação - e a elevação do nível do mar com o total de área inundada: detalhes podem ser vistos em Ranasinghe & Stive 2008). Há também um efeito humano causado pela ocupação das áreas litorâneas de modo desordenado, levando à destruição da flora local, potencializando o efeito erosivo das marés e mesmo de fenômenos atmosféricos como tornados e furações (vide Feagin et al. 2010). Para um diagnóstico da situação do litoral brasileiro, veja a série de estudos do Ministério do Meio Ambiente "Erosão e Progradação do Litoral Brasileiro"***

21'46: "Não [a água do aterro não vaza para outro lugar]. Não, a área é mínima não tem como [o mar se expandir para algum lugar por causa do aterro]. Não [não tem influência nenhuma]."
Em termos de deslocamento de massa de água, realmente os aterros têm um volume mínimo comparando-se com o volume dos oceanos. Outros efeitos se fazem sentir localmente, no entanto. Especialmente se mal projetados: impactos sobre a biodiversidade, alterações nos padrões de correntes litorâneas locais e até enchentes (Choudhury 2004).

23'47: "Não, primeiro que não sou nem contra o Código Florestal, não tem... não mexo nada com isso e segundo porque também não tenho nada a ver com a bancada ruralista. Muito menos. Então não sei daonde ele tirou essas informações. São totalmente furadas. Não, isso daí [a ideia do Juca de Oliveira de que a remoção do petróleo do pré-sal com o bombeamento da água do mar faria com que o calor do centro da Terra esquentasse a água, implodisse a região e provasse tsunamis], eu desconheço pra poder falar alguma coisa, eu teria que consultar um... Não [não é possível], não. A influência, 99% da energia que está na superfície da Terra vem Sol. 99%, 99,99%, na verdade. A geotérmica é insignificante em frente ao estrato geográfico, que é a casquinha do planeta. Não, mesmo assim, continua não sendo [influente, mesmo em escala local]. O Sol, por exemplo, todo mundo fala assim: 'Ah, o Sol é uma constante.' Ah, o Galileu quase foi pra fogueira, né? Daí começou a achar manchas no Sol. 'É. Acho que o Sol não é uma constante.' Não é. O Sol tem os seus ciclos, né?, de alteração. O principal é o de 11 anos, então, 11 anos ele vai aumentando sua atividade, e 11, é... diminuindo. Então, mais ou menos, 4 subindo, 7 descendo. E também tem outros ciclos de 90 anos, outros ciclos de 200. Então, agora, por exemplo, estamos entrando num período mais calmo do Sol que vai até 2046. Então se vocês estão pensando que vai ter aquecimento global.. Não, na verdade vai ter é um resfriamento. Que já está na verdade acontecendo desde 1998. Já [está ocorrendo o resfriamento]. As temperaturas na verdade já estão diminuindo."
Aparentemente o entrevistado não compreendeu a proposição do ator Juca de Oliveira. De fato, a geotérmica é um input insignificante no geral. Mas consideremos os terremotos. A energia liberada anualmente pelos abalos sísmicos é estimada em algo como 10^17 a 10^18 J. A energia solar que aporta à Terra anualmente é por volta de 5.10^24 J - uns 30% ésão refletidos (pelas nuvens, atmosfera e solo), então cerca de 10^24 J/ano estão disponíveis para a dinâmica da superfície. Isto é, a energia sísmica equivale a 10^-7 ou 0,00001% da energia solar. E não é correto concluir com base nisso que terremotos não provocam tsunami.
Mas a tese de Oliveira não se sustenta. Se a água é melhor *condutora*, ela simplesmente faria a energia se *dissipar* mais rapidamente, em vez de se acumular perigosamente. Além disso, a temperatura dos depósitos de petróleo de pré-sal sãoé de cerca de 60-70°C. Bem longe de qualquer potencial explosivo. A pressão local é grande, mas há um gradiente de pressão ao longo da coluna de rocha e de água
O Sol, de fato, apresenta ciclos (Figura 1)*. E, de fato, estamos para entrar na fase de diminuição da atividade solar (completando o chamado ciclo 24). O ciclo 24 é predito para ser o ciclo de menor atividade geral nos últimos 100 anos, o que é longe de representar um ciclo de resfriamento - mas até 2020, não até 2046 (embora os ciclos 25 e 26 também possam ser reduzidos - caso o ciclo de Gleissberger de 87-8 anos seja real, vide Peristykh & Damon 2003)**. Entre os anos 2000 e 2010 passamos pela fase de diminuição da atividade solar no ciclo 23, mesmo assim não se observou um resfriamento. Pode significar uma temperatura anual média menor do que a dos últimos tempos, mas ainda dentro da tendência geral de aumento - veja as Figuras 1 e 2 da primeira parte da série sobre o aquecimento global: houve vários períodos em que a temperatura média caiu, mas a tendência geral de subida da temperatura se manteve. Os gráficos das mesmas figuras desmentem que a temperatura esteja caindo desde 1998. A Figura 2 apresenta um gráfico de correlação entre a concentração atmosférica de CO2, atividade solar e temperatura da superfície da Terra - repare como a concentração de CO2 acompanha melhor a temperatura do que o número observado de manchas solares.*
Figura 1. Variação da atividade solar (número de manchas solares mensais) no período 1749-2011.Fonte: MSFC/Nasa. Média do intervalo entre os picos: 10,92±2,08 anos.*

Figura 2. Correlação entre temperatura da superfície da Terra, concentração atmosférica de CO2 e atividade solar (normalizado entre 0 e 1). Fontes: temperatura - GISS/Nasa, atividade solar - MSFC/Nasa e CO2 - GISS/Nasa.*

25'16: "Total, [a influência do Sol no nosso clima] é 100%. Aí depois você tem Lua, um pouco de Júpiter também, e Saturno, mexendo nos campos gravitacionais. Mas o resto vai ser o Sol, no primeiro escalão, o segundo escalão são os vulcões e aí o pessoal do terceiro escalão são os oceanos. É, os vulcões. Não [não tem a ver com a teoria do Juca de Oliveira], os vulcões na verdade tem o problema ao contrário. A resposta deles é negativa, porque eles jogam cinzas vulcânicas na estratosfera, que seria a segunda principal camada da atmosfera, e aí não deixa a energia solar ir para a superfície. Então quando tem atividade vulcânica, em geral, assim intensa, você já o próximo verão, inverno mais frios. Krakatoa foi um grande problema, né? O ano seguinte não teve verão. É, depois que ele entrou em atividade, o ano seguinte não teve verão. De tanta cinza vulcânica que ele jogou na estratosfera. Mas não tem problema [o fato de não termos grandes vulcões no Brasil]. Em qualquer lugar que eles estiverem... O chileno, agora, o ano passado. Acho [graça], é bonito. O chileno agora no final do ano entrou em erupção... bom, afetou até aqui, os estados do Sul, né?"
Bom notar que, embora o Sol, a Lua e os planetas tenham efeito gravitacional sobre a Terra, a questão climática não está diretamente ligada a esse efeito, mas sim a eventuais mudanças na orientação do eixo de rotação - que alteram a distribuição de luz pelo globo - à na excentricidade da órbita - que alteram as distâncias em relação ao Sol (componentes do ciclo de Milankovitchi).
É verdade que vulcões, por meio de cinzas e particulados, têm um efeito de resfriamento. Mas as cinzas acabam se assentando e o efeito passa. Por outro lado, atividades vulcânicas emitem CO2.
Como observado na parte 2 da série, o Sol, no entanto, não parece explicar o aquecimento (no máximo, deve contribuir com 30% da variação) e, como observado na parte 3, o vulcanismo não parece contribuir com o aumento de CO2 - pela assinatura do isótopo de C13.
Então, embora sem dúvida o Sol e os vulcões sejam importantes para o clima na Terra, não devem ser eles os responsáveis pela *alteração* atual.

26'56: "É, o El Niño é um fenômeno bem interessante, totalmente desconhecido. Muito complicado, é um fenômeno de alta frequência. Ele às vezes ele fica quatro, cinco meses, desaparece mais uns quinze. Polarizado, né?, tem o El Niño, La Niña, às vezes ele fica meio intermediário, não joga nem para um lado nem para o outro. Tem La Niña também, é... e eles também estão atrelados a outro fenômeno chamado Oscilação Decadal do Pacífico. Esse é o mais longo, que foi descoberto sem querer com a pesca no Pacífico, né? Que os peixes desapareciam durante uma época e depois era uma abundância total de peixes. Aí, viam que estava ligado com a temperatura da superfície da água do mar. Então o Pacífico, ele tem uma polaridade de estar mais frio ou mais quente, muito próxima à oscilação do Sol. E tinha que ser né? A gente sempre esquece, o Pacífico é um terço do tamanho da Terra. Um terço do tamanho da Terra é o Pacífico."
O El Niño/La Niña são, de fato, importantes fenômenos a impactarem o clima na Terra, estando ligados a modificações mais ou menos periódicas dos índices de pluviosidade (aumentando em um lugar, diminuindo em outro); assim como a Oscilação Decadal do Pacífico, embora a ligação entre os fenômenos seja ainda alvo de debates (vide Mantua & Hare 2002).
Só uma nota de certo estranhamento. Bem acertadamente o professor chama a atenção para a extensão do Pacífico e que isso implica na influência do clima. Mas em uma fala anterior diz: "Coitadinhos dos continentes, né?, aquelas coisinhas de nada". O Pacífico tem uma área de cerca de 165,2 milhões de km2; os continentes totalizam 148,6 milhões de km2.

*Upideite(08/mai/2012): Adido a esta data.
**Upideite(11/mai/2012): A depender da metodologia, no entanto, o ciclo 24 pode não ser particularmente baixo. Modelos de Dínamo de Fluxo de Transporte com dominância do fluxo meridional prevê uma amplitude de 165±15 manchas (entre 30 e 50% *maior* do que o ciclo 23), vide Dikpati et al. (2006). O ciclo atual servirá de teste entre diversos modelos de predição da duração e intensidade dos ciclos solares.
***Upideite(14/mai/2012): Adido a esta data.

domingo, 6 de maio de 2012

Como estão as previsões sobre a temperatura?

Faço uma pequena pausa em minha análise da entrevista de Ricardo Felício, da USP, ao Programa do Jô. Mas continuo ainda no tema do aquecimento global.

O primeiro relatório do IPCC já tem 20 anos, atualmente estamos com o quinto relatório em andamento: os trabalhos serão liberados a partir do ano que vem.

Já é possível fazer um balanço das previsões anteriores sobre a evolução da temperatura média da superfície da Terra e comparar com os dados reais obtidos desde então.

A Figura 1 faz a comparação para as previsões dos três primeiros relatórios do IPCC - não incluí o 4o relatório, por ser relativamente recente: de 2007, haveria apenas uma meia dúzia de pontos para comparação efetiva.

Figura 1. Evolução da temperatura média global versus evolução predita nos modelos usados pelo IPCC. Para os dois primeiros painéis, em laranja, são os pontos da média do ano, em verde, os pontos da média de 5 anos; no terceiro painel, por causa do contraste, a média do ano está em amarelo e a média de 5 anos, em azul claro. Fonte: GISS/Nasa.

Como não tenho acesso aos valores numéricos ponto a ponto das previsões dos modelos usados pelo IPCC, plotei os valores reais calculados pelo GISS/Nasa - na verdade, a diferença ano a ano em relação ao valor base de 1990 - sobre as figuras dos gráficos das previsões*. Assim também o exame será só visual, não sendo possível um teste estatístico.

Os dados não acompanham muito bem as previsões do 1o IPCC - que ainda só considera dois cenários: um em que nada muda em termos de emissão e outro em que as emissões são reduzidas à metade. É possível se ver que os modelos ainda estavam razoavelmente pouco elaborados.

A partir do 2o IPCC, há mais cenários, incluindo aumento no ritmo de emissão, mas que não divergem muito de início. Os dados reais acompanham bem, especialmente a média de 5 anos, que elimina a grande variação interanual.

No 3o IPCC, os dados reais parecem estar bem dentro das projeções, que agora incorporam as regiões de incertezas. Mais um vez, os dados das médias de 5 anos se encaixam melhor.

E podemos acompanhar a melhora do poder preditivo dos modelos ao longo de pouco mais de uma década que separa o 1o relatório do 3o, mostrando o refinamento das simulações à medida em que mais conhecimento é incorporado. Ainda temos bastante incertezas a respeito de cenários mais longos de 20, 30 anos ou 100 anos, mas, pelos dados disponíveis e nosso nível de conhecimento atual, há uma tendência de aumento - bem como as alterações climáticas associadas. E, por mais que não haja certezas, é bom se precaver. Especialmente com as previsões de modelos que têm se mostrado robustos.

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O Concurso Cultural GR valendo um exemplar gratuito de "O que é vida?" de Lynn Margulis e Dorion Sagan continua. Tente decifrar o enigma ou arrisque um palpite.

*Upideite(07/mai/2012): adido a esta data.

*Upideite(08/mai/2012): Claudio Angelo, no Entre Colchetes, apresenta outros gráficos, entre os quais um que compara o ritmo de perda do gelo marinho do Ártico e o previsto no IPCC (a postagem comenta, e rebate, a entrevista de James Lovelock em que diz que não houve aumento de temperatura em anos recentes).
Carlos Orsi, também comentando sobre as declarações de Lovelock, apresenta outro gráfico de comparação entre o previsto e o obsevado - de temperatura, de James Hansen de 1981.

Upideite(10/dez/2012): Estudo recém-publicado na Nature Climate Change analisa as previsões feitas no 1o IPCC - os resultados batem de modo geral. E os gases estufa parecem estar dominando sobre outras forçantes radioativas. via @carlosom71.

Upideite(08/dez/2019): Em um estudo recém-publicado, Hausfather e cols. avaliaram as previsões de modelos criados entre 1970 e 2007. Dos 17 modelos avaliados, 10 tiveram previsões acertadas das temperaturas médias até 2017 - com a inclusão da variação real das emissões de CO2 (e não as projetadas à época), 14 modelos acertam a variação da temperatura no período. Via @MarceloNLeite tw.

Jogo dos erros 3c


Continuando os esclarecimentos sobre as afirmações (ou, antes, negações) do Ricardo Augusto Felício, da Geografia da FFLCH/USP em entrevista ao Programa do Jô, seguem mais trechos e as observações.

15'40: "Tem que tomar cuidado com isso, porque quando eu falo isso, não significa que estou autorizando a destruir a floresta. Não, mas a gente tem que tomar cuidado porque a... o aporte do ambientalismo é esse contra as pessoas que falam, é... negam a hipótese do aquecimento global, né? Então elas misturam tudo dentro de um saco de gatos, então: 'Ah, tá vendo? Esse cara está autorizando a gente a destruir a floresta.'"
Sim, é preciso tomar cuidado. Seria interessante falar da importância da preservação das florestas além da questão climática, então. Comentei sobre isso - bem como sobre a complexidade do papel das florestas no aquecimento global - na postagem anterior. E, realmente, há uma parte desinformada no movimento ambientalista.

16'10: "Não, não é possível [destruir a Amazônia]. São 6.000 km desse novo aquífero que descobriram em baixo da Amazônia. Ganha do aquífero Guarani. Recentemente descoberto. 6.000 km."
O fato de haver um grande aquífero sob a floresta amazônica não a torna indestrutível. O aquífero - ou rio (mais sobre a polêmica de sua natureza no Ciência Hoje) - Hamza está àa 4 km abaixo da superfície, bastante longe do sistema radicular das plantas da Amazônia - que tendem a ser bastante superficialis.

16'43: "É, na verdade é assim, é, a gente tem que entender que quem manda no planeta são os oceanos. Por acaso, existem os continentes. São 3/4 da superfície do planeta com água. Então, a maior parte da troca de massa e energia da... com a atmosfera é feita com os oceanos. Então, de vez em quando eles ficam com pena: 'Coitadinhos dos continentes, né?, aquelas coisinhas de nada, joga um pouquinho de água pra eles.' Esse jogar um pouquinho de água pra eles já faz todo o desastre que a gente imagina. Bom, a principal entrada de água para os continentes vem na parte tropical, que são os ventos alísios. Todo mundo já ouviu falar, estudou na escola um monte de vezes isso daí. O próprio Köppen, que é uma das primeiras pessoas que estudou a climatologia, lá no século 18, 19, né?, começando esses estudos, ele tipo falou assim: 'como é que vou estudar o clima, que a atmosfera é uma coisa que é invisível, altamente dinâmica e não dá pra fazer nada.' Bem, ele conseguiu verificar que as.. a vegetação respondia ao clima. Então ele viu assim: 'Olha, gozado, né?, nessa parte toda do planeta, salvo algumas exceções regionais, você tem florestas extremamente virtuosas, enor.. imensas, e é justamente onde chove bastante, onde você tem as principais células de trovoadas, né? Os relâmpagos é, fixam o nitrogênio na chuva e portanto jogam isso na superfície.' Então tem toda uma simbiose entre os fenômenos da atmosfera, então as florestas, o nome técnico da floresta em inglês, por exemplo, se chama rainforest, então 'florestas de chuva', é, a floresta está lá porque chove, não chove porque tem florestas, entenderam? Então quer dizer que se você cortar... vamos supor que você,né?, vamos fazer isso um cenário hipotético. Já que eles adoram fazer cenário, vamos também. Vamos supor que você tira toda a Amazônia de lá, tira tudo, tira assim, tudo, tudo... 20 anos depois tá tudo de novo nascendo, tudo de novo nascendo, tudo de novo nascendo... 20 anos. Que não é nada na história do planeta."
Os oceanos realmente têm papel de destaque na regulação do clima. O que não quer dizer que apenas eles contem. Sem continentes, seria virtualmente impossível a formação de calotas polares, p.e. Os continentes também alteram a circulação de correntes marinhas - e, portanto, o padrão de distribuição de calor. A alteração de albedo da superfície continental - por exemplo, quando há avanço de geleiras, ou mudança de uso do solo - também influencia em muito o clima.
Wladimir Köppen, na verdade, é do século 19 para 20.
O papel da floresta amazônica na formação da chuva zenital é bem conhecido. A quantidade de água evaporada pela superfície foliar também. Vide, p.e., Williams et al. 1998.
Se a floresta tropical em pé não tivesse nenhum efeito, o padrão de precipitação na bacia amazônica não deveria ser afetado ao longo do tempo à medida em que o desmatamento progride. Mas, p.e., Marengo (2004) detectou uma tendência de queda no índice pluviométrico na região desde 1929. Em um período mais curto, entre 1976 e 1996, detectou-se uma diminuição da circulação atmosférica na região - havendo queda do fluxo de umidade atmosférica para dentro e para fora da região de lá. Isso deveria causar uma diminuição da precipitação local, caso as árvores não importassem. Mas detectou-se um aumento da evapotranspiração foliar e, ao mesmo tempo, o padrão de chuva pouco se alterou (Costa & Foley 1999). O que, claro, não significa que a circulação atmosférica não tenha importância - ela afeta, por exemplo, quando ocorre o El Niño, a chuva na Amazônia diminui. (Fato que é mais um motivo de preocupação com o aumento da temperatura da superfície dos oceanos com o aquecimento global.)
É bem possível ainda assim que mesmo que a floresta fosse derrubada completamente, em 20 anos *começasse* a se formar uma nova floresta. Mas provavelmente levaria alguns séculos a milênios para se recompor - e em toda sua biodiversidade, alguns milênios (há estudos que indicam que áreas desmatadas há cerca de 500 anos e depois abandonadas, embora tenham se reconstituído como floresta, não recuperaramou sua diversidade original de espécies). E, até que a floresta se recuperasse, o padrão local de chuva seria alterado, bem como um padrão de maior alcance da circulação atmosférica.

19'13: "Eles vão discutir [na Rio+20] como manter as suas colônias na coleira. Olha, vamos lá, 1492, chegam aqui e nos convenceram que nós precisávamos de espelhinhos pra sobreviver. 1992, quinhentos anos exatamente eles vêm com a história da Rio, né? Todo esse negócio, o mundo está acabando, etc. e tal. Tem os precedentes disso, 1980, então começou com a historinha da camada de ozônio. 1987 se forma o primeiro painel intergovernamental, chamado IOTP, para a camada de ozônio, 1987. 1988, o IPCC, que é o painel das mudanças climáticas. 1989, cai o Muro de Berlim. Aí você fala assim: 'O que tem a ver?' Tem tudo a ver. É o sistema capitalista se, né?, expandindo. E ao mesmo tempo quando você tem isso, nossa, metade do efetivo dos cientistas do mundo trabalhavam para a Guerra Fria. Acabou a mamata. Se você for pegar o histórico desses cientistas que trabalham com o aquecimento global hoje são os mesmos que trabalhavam para todos os desastres atômicos e nucleares, etc e tal. Então o que esses cientistas sabiam fazer? Cenários em computadores. 'Programo e faço cenários. Olha se jogar uma bomba nuclear aqui faz isso, não sei o quê.' Eles só trocaram o negócio chamado guerra termonuclear global por aquecimento global."
Um levantamento parcial (75 casos) do ano de doutoramento de cientistas do IPCC, mostra que, embora, de fato, uma grande maioria tenha iniciado sua vida acadêmica durante a Guerra Fria, 17% doutoraram-se depois de 1989 (Figura 1).
Figura 1. Distribuição de tempo de doutoramento de painelistas do IPCC, em referência a 1989. Azul escuro: antes de 1989; azul claro, em 1989; amarelo: depois de 1989. Fonte: Wikipédia, usuário Gergyl.

O que será discutido e como estão as tratativas para o Rio+20 (com diversos imbróglios econômicos e diplomáticos) podem ser acompanhados no excelente blogue do jornalista Claudio Angelo, Entre Colchetes.
Embora muitos acordos internacionais do ambiente ocorram depois de 1972, quando se dá a Conferência das Nações Unidas de Stockholm  Estocolmo sobre o Ambiente Humano (como nota, mais uma vez a teoria conspiracionista não cola - seria engraçado supor que tentaram colocar coleira na Suécia; a Rio92 foi na verdade um StockholmEstocolmo+20), as convenções ambientais têm uma história mais antiga: o Tratado sobre Aves Migratórias é de 1918, a Convenção sobre Caças à Baleia, de 1946, a Convenção sobre Poluição por Petróleo, de 1954;

De qualquer maneira, haver trabalhado durante a Guerra Fria não traz problema algum. A questão é de examinar os trabalhos desses cientistas.

Upideite(06/mai/2012): O teste de D'Agostino-Pearson para a normalidade dos dados sobre as datas de doutoramento não rejeita H0 (DP = 0,528; p = 0,767), então podemos assumir que o tempo de doutorado tem distribuição normal. A média é de -10,17 anos a partir de 1989, ou seja, a média do ano de doutoramento é 1978,83, com desvio padrão de 9,44 anos. Se assumirmos uma idade média de defesa do doutorado de 30 anos, em 2007, a idade média dos painelistas seria algo como 58 anos. Pode parecer uma idade avançada, mas se considerando que é um painel de especialistas, haveriam de chamar os com mais experiência. E o fato de os dados distribuírem-se normalmente indica que não parece ter havido barreira de idade.

Upiteide(08/mai/2012): Jogo dos erros 3d, parte final.

sábado, 5 de maio de 2012

Jogo dos erros 3b*

Continuando os comentários e, principalmente, as contestações às declarações do Prof. Dr. Felício do Departamento de Geografia da FFLCH/USP, mais trechos abaixo:


10'13: "Não, mas o melhor é o preço que vai ser o substituto, que as empresas agora falaram que vão garantir que não vai mais dar nenhum problema. Ah, hã, né? US$ 128/kg. E também não vão funcionar nos outros equipamentos. Se vocês perceberem agora a... mas não é só trocar o gasinho do refrigerante. Parques industriais inteiros têm que ser trocados, porque existem os sistemas de refrigeração centrais, caldeiras e tudo o mais. Se vocês perceberem agora, todos os produtos estão passando a butano de novo. Os CFCs, quando eles vieram no final dos anos 1940, 1950, eles vieram justamente para resolver o problema de explosões em fábricas, porque é um gás totalmente inerte, não tem nenhum problema com ele. Então, hoje nós estamos voltando para trás, no começo de século 20 de novo, por uma mentira que é que esse gasinho destrói o... a camada de ozônio. Que eles, hã... a hipótese, que é uma hipótese, de novo, a antrópica, que nunca foi provada, é que os CFCs, os gases organofluorclorados, conseguem destruir a camada de ozônio. O butano não. Ele fica lá. Por enquanto né? Até alguém arrumar um problema com ele."
Vamos ver, estão substituindo por butano... mas butano não dá royalties de patente. Como fica a tese de que estão pressionando a troca de HCFCs por causa do vencimento da patente? E mais, trocar por butano é ruim porque volta à situação da década de 1940, ok. Mas usar o CFC que volta à situação da década de 1950 é bom por quê? Um dos grandes problemas das teses conspiracionistas são isso; em um exame, mesmo superficial, aparecem uma série de contradições. É preciso torturar os fatos para que as coisas se encaixem; ignorar o que contradiz. (E mais uma vez aquela concepção estranha de hipótese científica.)
A ação do CFC foi discutida na postagem anterior: não apenas em laboratório temos a catálise da quebra do ozônio em oxigênio por moléculas de CFCs, como após o banimento das moléculas e subsequente diminuição de sua concentração atmosférica, a concentração de ozônio sobre a Antártica começa a parar de cair e inicia um aumento.

Jô Soares 11'31: "Tem uma coisa que me chama muito a  atenção, Ricardo, é que sempre que você vê o anúncio de um fenômeno astronômico ou a queda de um meteoro ou um fenômeno geográfico e físico, sempre é assim: a temperatura chegou a não sei quantos graus que não acontecia desde 1920, a nevasca que aconteceu esse ano não se via desde 1887. Quer dizer que sempre anteriormente teve alguma coisa pior? Pois é, então por que essa coisa catastrófica, não é?, de achar que a próxima será a pior, se nunca acontece isso?"
Minha intenção aqui não é me focar em Jô Soares. Respeito muito seu trabalho e sou um sincero admirador. Mas este trecho sinto-me compelido a reproduzir e rebater. Claro, há um componente jocoso aí, mas é uma preparação para mais um "levantamento de bola" para o entrevistado "cortar".
Fenômenos astronômicos são chamados à baila para mudanças de ciclo longo nos padrões climáticos da Terra, em particular, os ciclos de Milankovitch para a glaciação. O fenômeno astronômico cuja ligação é hipotetizada com o atual aquecimento global são os ciclos de atividades solares - mas isso exatamente pelos que *negam* a influência antrópica (e reconhecem que a temperatura da superfície da Terra está em elevação) - na segunda parte da série de postagens do GR sobre o aquecimento global, no entanto, mostro como a atividade solar não consegue explicar o aumento da temperatura na Terra.
Não há muitos estudos sobre eventual ligação de quedas de meteoros e aquecimento global. Mas se houvesse vínculo, deveríamos estar a experimentar um período de maior chegada de meteoros, não há nenhum indício de que seja o caso. Há pelo menos um estudo (p. 26, German 2008) que investiga a possibilidade do efeito do meteoro ou cometa a atingir Tunguska em 1908, mas um efeito duradouro é descartado (a dessincronia entre as temperaturas dos hemisférios norte e sul é detectada apenas nos 10 anos seguintes à queda).
Mas, normalmente, quando dizem que é a maior (ou menor) medição desde o ano X, não quer dizer que é porque se sabe que antes do ano X houve medições maiores (ou menores). É simplesmente porque as medições registradas começaram no ano X. A meteorologia como ciência começa a tomar forma no séc. 17  com o desenvolvimento de instrumentos adequados e as medições meteorológicas começam a ser registradas de modo sistemático e contínuo somente no séc. 19.
De todo modo, mais do que o registro de extremos, o importante na questão do aquecimento global é o padrão. Não importa se eventualmente houve um ponto isolado no passado com temperatura mais elevada, importa se a tendência é de aquecimento ou não. Se a tendência não for de aumento, registros de recorde de temperatura alta são ou cada vez mais esparsos - se a temperatura estiver caindo ao longo do tempo - ou estão espalhados no tempo; se a tendência for de aumento, então é mais provável que o ano seguinte apresente um novo recorde. Esta última situação é mais ou menos o que temos ouvido a respeito da temperatura. É tão claro pelos dados (veja a primeira parte da série no GR sobre o aquecimento global) que muitos negacionistas aceitam que a temperatura superficial da Terra está mesmo a aumentar, mas procuram uma causa não-humana.

11'20: "Não. Registros paleoclimáticos mostram coisas muito piores, tipo o nível do mar subir 50 m em 100 anos, a temperatura subir em 50 anos 8 graus. E pessoal tá falando que vai subir meio grau em 100? Ih, isso é piada, isso. Isso é uma piada."
Não é uma piada. Na verdade meio grau é o quanto já subiu, as projeções são em torno de 2oC em 100 anos (vide 4o IPCC - o melhor cenário fica entre 1,1–2,9°C; o pior cenário, 2,4–6,4°C). De todo modo, o fato de ter havido variação maior no passado, não significa que uma variação menor agora não seja um problema. É o mesmo que alguém, distante 6 km do abismo, caminhar 6.000 m em direção ao precipício e concluir: "Bem, já andei tanto, um passo a mais não tem problema."

13'11: "É, isso daí [mudança do padrão climático na cidade de São Paulo, antes conhecida como 'terra da garoa']" é o efeito do clima no local, né? Então, né, isso não é um efeito global. É... o caso da garoa, por exemplo, nós tivemos um trabalho científico feito agora em 2009, 2010, mostrando que nos últimos três anos ela voltou com a mesma intensidade dos anos 1930, 1940, então, na verdade, também a garoa é um fenômeno cíclico. O que carece hoje em dia muito é a observação, as pessoas não.. nós temos pouca observação realmente dos fenômenos climáticos dentro da cidade. A gente até fala que é o clima citadino, na verdade, né? Hã... em geral, nós temos também pouca observação, a partir dos anos 1990, fecharam-se estações meteorológicas no mundo inteiro. O próprio presidente Collor de Mello fechou diversas estações meteorológicas aqui no Brasil também. Então, a gente carece bastante de informação meteorológica in loco. Satélites medem, mas sempre tem assim um problema de método, enfim, não é uma coisa tão fácil."
É verdade que a questão da garoa de São Paulo é algo local, não global - embora possa haver influência do padrão global. Não encontrei pelo Google Scholar o trabalho mencionado sobre garoas, nem no lattes do pesquisador (atualizado em 26/jun/2012).**

14'15: "Não existe [influência do desmatamento no clima global]. Não, infelizmente não. [Existe] mais ou menos [influência no clima local]. É, uma coisa que as pessoas também não sabem... Não, tem que tomar cuidado... Não, nunca foi [a Amazônia o pulmão do mundo]. Nunca foi, essa teoria já foi derrubada nos anos 1980, já. Não, são os oceanos."
O efeito do desmatamento é bem complexo. De um lado, ele altera o albedo (o quanto um objeto reflete da luz que incide sobre ele) da superfície - em latitudes mais altas, a perda da cobertura vegetal corresponde a um aumento do albedo (refletindo mais luz), diminuindo o aquecimento. Em latitudes mais baixas, a cobertura vegetal promove o aumento da umidade atmosférica e maior produção de nuvens, que refletem a luz de volta ao espaço, o desmatamento tem um efeito geral de aumento do aquecimento. As florestas em pé, no dois casos, servem como sorvedouros e reservatórios de carbono, sua derrubada - especialmente na forma de queimada - libera enorme quantidade de CO2. Betts et al. 2007 e Bala et al. 2007 apresentam  modelagens do efeito geral - a perda de cobertura vegetal tem um efeito significativo sobre o clima, mas de resfriamento. O que, claro, não significa que tudo bem desflorestar - elas alteram os padrões hídricos locais, há a perda de biodiversidade e diversos outros serviços ambientais. Além disso, os dois estudos concordam que para as florestas tropicais (como é o caso da Mata Atlântica e da Amazônica), o efeito do desflorestamento é de aquecimento.

*Upideite(06/mai/2012): corrigi o título da postagem, estava 'Jogos' no plural.
**Upideite(06/mai/2012): O padrão da garoa na região de São Paulo pode mesmo não ter uma tendência de diminuição. Gonçalves et al. 2008 encontraram uma ligeira diminuição do número de dias de garoa na RMSP entre 1933 e 2005, com os anos de 2004 e 2005 com índice equivalente aos picos de 1933 e 1934 (Figura 1). O que não quer dizer que o padrão climático paulistano não tenha mudado ao longo do tempo. Outros parâmetros têm uma tendência bem mais clara: dias de neblina (queda), umidade relativa do ar (queda), temperatura média do ar (aumento).
Figura 1. Padrão de variação de (painéis superiores) garoa (esquerda), neblina (direita); (painéis inferiores) umidade relativa do ar (esquerda) e temperatura do ar (direita) na Região Metropolitana de São Paulo, entre 1933 e 2005. Fonte: Gonçalves et al. 2008.

Upideite(06/mai/2012): A terceira parte: Jogo dos Erros 3c.
Upideite(09/mai/2012): O Prof. Dr. Fabio Luiz Teixeira Gonçalves, gentilmente, informou-me por email que os índices de 2008-2010 segundo dados da estação meteorológica do IAG foram respectivamente - 64, 117 e 90 dias (sendo a média histórica de 85 dias de garoa por ano). No artigo original, embora a análise indicasse uma pequena queda, os autores frisam que não é uma tendência clara. Gonçalves diz que pode haver uma variação decadal e é preciso um estudo mais pormenorizado.

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