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sábado, 5 de maio de 2012

Jogo dos erros 3b*

Continuando os comentários e, principalmente, as contestações às declarações do Prof. Dr. Felício do Departamento de Geografia da FFLCH/USP, mais trechos abaixo:


10'13: "Não, mas o melhor é o preço que vai ser o substituto, que as empresas agora falaram que vão garantir que não vai mais dar nenhum problema. Ah, hã, né? US$ 128/kg. E também não vão funcionar nos outros equipamentos. Se vocês perceberem agora a... mas não é só trocar o gasinho do refrigerante. Parques industriais inteiros têm que ser trocados, porque existem os sistemas de refrigeração centrais, caldeiras e tudo o mais. Se vocês perceberem agora, todos os produtos estão passando a butano de novo. Os CFCs, quando eles vieram no final dos anos 1940, 1950, eles vieram justamente para resolver o problema de explosões em fábricas, porque é um gás totalmente inerte, não tem nenhum problema com ele. Então, hoje nós estamos voltando para trás, no começo de século 20 de novo, por uma mentira que é que esse gasinho destrói o... a camada de ozônio. Que eles, hã... a hipótese, que é uma hipótese, de novo, a antrópica, que nunca foi provada, é que os CFCs, os gases organofluorclorados, conseguem destruir a camada de ozônio. O butano não. Ele fica lá. Por enquanto né? Até alguém arrumar um problema com ele."
Vamos ver, estão substituindo por butano... mas butano não dá royalties de patente. Como fica a tese de que estão pressionando a troca de HCFCs por causa do vencimento da patente? E mais, trocar por butano é ruim porque volta à situação da década de 1940, ok. Mas usar o CFC que volta à situação da década de 1950 é bom por quê? Um dos grandes problemas das teses conspiracionistas são isso; em um exame, mesmo superficial, aparecem uma série de contradições. É preciso torturar os fatos para que as coisas se encaixem; ignorar o que contradiz. (E mais uma vez aquela concepção estranha de hipótese científica.)
A ação do CFC foi discutida na postagem anterior: não apenas em laboratório temos a catálise da quebra do ozônio em oxigênio por moléculas de CFCs, como após o banimento das moléculas e subsequente diminuição de sua concentração atmosférica, a concentração de ozônio sobre a Antártica começa a parar de cair e inicia um aumento.

Jô Soares 11'31: "Tem uma coisa que me chama muito a  atenção, Ricardo, é que sempre que você vê o anúncio de um fenômeno astronômico ou a queda de um meteoro ou um fenômeno geográfico e físico, sempre é assim: a temperatura chegou a não sei quantos graus que não acontecia desde 1920, a nevasca que aconteceu esse ano não se via desde 1887. Quer dizer que sempre anteriormente teve alguma coisa pior? Pois é, então por que essa coisa catastrófica, não é?, de achar que a próxima será a pior, se nunca acontece isso?"
Minha intenção aqui não é me focar em Jô Soares. Respeito muito seu trabalho e sou um sincero admirador. Mas este trecho sinto-me compelido a reproduzir e rebater. Claro, há um componente jocoso aí, mas é uma preparação para mais um "levantamento de bola" para o entrevistado "cortar".
Fenômenos astronômicos são chamados à baila para mudanças de ciclo longo nos padrões climáticos da Terra, em particular, os ciclos de Milankovitch para a glaciação. O fenômeno astronômico cuja ligação é hipotetizada com o atual aquecimento global são os ciclos de atividades solares - mas isso exatamente pelos que *negam* a influência antrópica (e reconhecem que a temperatura da superfície da Terra está em elevação) - na segunda parte da série de postagens do GR sobre o aquecimento global, no entanto, mostro como a atividade solar não consegue explicar o aumento da temperatura na Terra.
Não há muitos estudos sobre eventual ligação de quedas de meteoros e aquecimento global. Mas se houvesse vínculo, deveríamos estar a experimentar um período de maior chegada de meteoros, não há nenhum indício de que seja o caso. Há pelo menos um estudo (p. 26, German 2008) que investiga a possibilidade do efeito do meteoro ou cometa a atingir Tunguska em 1908, mas um efeito duradouro é descartado (a dessincronia entre as temperaturas dos hemisférios norte e sul é detectada apenas nos 10 anos seguintes à queda).
Mas, normalmente, quando dizem que é a maior (ou menor) medição desde o ano X, não quer dizer que é porque se sabe que antes do ano X houve medições maiores (ou menores). É simplesmente porque as medições registradas começaram no ano X. A meteorologia como ciência começa a tomar forma no séc. 17  com o desenvolvimento de instrumentos adequados e as medições meteorológicas começam a ser registradas de modo sistemático e contínuo somente no séc. 19.
De todo modo, mais do que o registro de extremos, o importante na questão do aquecimento global é o padrão. Não importa se eventualmente houve um ponto isolado no passado com temperatura mais elevada, importa se a tendência é de aquecimento ou não. Se a tendência não for de aumento, registros de recorde de temperatura alta são ou cada vez mais esparsos - se a temperatura estiver caindo ao longo do tempo - ou estão espalhados no tempo; se a tendência for de aumento, então é mais provável que o ano seguinte apresente um novo recorde. Esta última situação é mais ou menos o que temos ouvido a respeito da temperatura. É tão claro pelos dados (veja a primeira parte da série no GR sobre o aquecimento global) que muitos negacionistas aceitam que a temperatura superficial da Terra está mesmo a aumentar, mas procuram uma causa não-humana.

11'20: "Não. Registros paleoclimáticos mostram coisas muito piores, tipo o nível do mar subir 50 m em 100 anos, a temperatura subir em 50 anos 8 graus. E pessoal tá falando que vai subir meio grau em 100? Ih, isso é piada, isso. Isso é uma piada."
Não é uma piada. Na verdade meio grau é o quanto já subiu, as projeções são em torno de 2oC em 100 anos (vide 4o IPCC - o melhor cenário fica entre 1,1–2,9°C; o pior cenário, 2,4–6,4°C). De todo modo, o fato de ter havido variação maior no passado, não significa que uma variação menor agora não seja um problema. É o mesmo que alguém, distante 6 km do abismo, caminhar 6.000 m em direção ao precipício e concluir: "Bem, já andei tanto, um passo a mais não tem problema."

13'11: "É, isso daí [mudança do padrão climático na cidade de São Paulo, antes conhecida como 'terra da garoa']" é o efeito do clima no local, né? Então, né, isso não é um efeito global. É... o caso da garoa, por exemplo, nós tivemos um trabalho científico feito agora em 2009, 2010, mostrando que nos últimos três anos ela voltou com a mesma intensidade dos anos 1930, 1940, então, na verdade, também a garoa é um fenômeno cíclico. O que carece hoje em dia muito é a observação, as pessoas não.. nós temos pouca observação realmente dos fenômenos climáticos dentro da cidade. A gente até fala que é o clima citadino, na verdade, né? Hã... em geral, nós temos também pouca observação, a partir dos anos 1990, fecharam-se estações meteorológicas no mundo inteiro. O próprio presidente Collor de Mello fechou diversas estações meteorológicas aqui no Brasil também. Então, a gente carece bastante de informação meteorológica in loco. Satélites medem, mas sempre tem assim um problema de método, enfim, não é uma coisa tão fácil."
É verdade que a questão da garoa de São Paulo é algo local, não global - embora possa haver influência do padrão global. Não encontrei pelo Google Scholar o trabalho mencionado sobre garoas, nem no lattes do pesquisador (atualizado em 26/jun/2012).**

14'15: "Não existe [influência do desmatamento no clima global]. Não, infelizmente não. [Existe] mais ou menos [influência no clima local]. É, uma coisa que as pessoas também não sabem... Não, tem que tomar cuidado... Não, nunca foi [a Amazônia o pulmão do mundo]. Nunca foi, essa teoria já foi derrubada nos anos 1980, já. Não, são os oceanos."
O efeito do desmatamento é bem complexo. De um lado, ele altera o albedo (o quanto um objeto reflete da luz que incide sobre ele) da superfície - em latitudes mais altas, a perda da cobertura vegetal corresponde a um aumento do albedo (refletindo mais luz), diminuindo o aquecimento. Em latitudes mais baixas, a cobertura vegetal promove o aumento da umidade atmosférica e maior produção de nuvens, que refletem a luz de volta ao espaço, o desmatamento tem um efeito geral de aumento do aquecimento. As florestas em pé, no dois casos, servem como sorvedouros e reservatórios de carbono, sua derrubada - especialmente na forma de queimada - libera enorme quantidade de CO2. Betts et al. 2007 e Bala et al. 2007 apresentam  modelagens do efeito geral - a perda de cobertura vegetal tem um efeito significativo sobre o clima, mas de resfriamento. O que, claro, não significa que tudo bem desflorestar - elas alteram os padrões hídricos locais, há a perda de biodiversidade e diversos outros serviços ambientais. Além disso, os dois estudos concordam que para as florestas tropicais (como é o caso da Mata Atlântica e da Amazônica), o efeito do desflorestamento é de aquecimento.

*Upideite(06/mai/2012): corrigi o título da postagem, estava 'Jogos' no plural.
**Upideite(06/mai/2012): O padrão da garoa na região de São Paulo pode mesmo não ter uma tendência de diminuição. Gonçalves et al. 2008 encontraram uma ligeira diminuição do número de dias de garoa na RMSP entre 1933 e 2005, com os anos de 2004 e 2005 com índice equivalente aos picos de 1933 e 1934 (Figura 1). O que não quer dizer que o padrão climático paulistano não tenha mudado ao longo do tempo. Outros parâmetros têm uma tendência bem mais clara: dias de neblina (queda), umidade relativa do ar (queda), temperatura média do ar (aumento).
Figura 1. Padrão de variação de (painéis superiores) garoa (esquerda), neblina (direita); (painéis inferiores) umidade relativa do ar (esquerda) e temperatura do ar (direita) na Região Metropolitana de São Paulo, entre 1933 e 2005. Fonte: Gonçalves et al. 2008.

Upideite(06/mai/2012): A terceira parte: Jogo dos Erros 3c.
Upideite(09/mai/2012): O Prof. Dr. Fabio Luiz Teixeira Gonçalves, gentilmente, informou-me por email que os índices de 2008-2010 segundo dados da estação meteorológica do IAG foram respectivamente - 64, 117 e 90 dias (sendo a média histórica de 85 dias de garoa por ano). No artigo original, embora a análise indicasse uma pequena queda, os autores frisam que não é uma tendência clara. Gonçalves diz que pode haver uma variação decadal e é preciso um estudo mais pormenorizado.

2 comentários:

Alexandre disse...

Aqui uma referência adicional pra vc a respeito do efeito do desmatamento e mudanças climáticas no ciclo hidrológico da Amazônia, do José Antonio Marengo.


Você sabe se essa entrevista foi um caso isolado, ou o Jô tem dado espaço pra esse tipo de desinformação mais regularmente?

none disse...

Salve, Lacerda,

Mais uma vez grato pela visita e comentários.

Obrigado pela referência.

Não tenho acompanhado muito o Programa do Jô. Mas pelo que sei não é algo regular, não. Ao contrário, por exemplo, do blogue do Luis Nassif.

[]s,

Roberto Takata

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