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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Retocando o retrato de família

ResearchBlogging.orgTrês trabalhos foram comentados recentemente pela impressa a respeito da origem e da evolução dos humanos.

Estudo de restos alimentares em dentes de neandertais de Henry et al. 2010.
Dentes humanóides datados de 300 mil a 400 mil anos e atribuídos a Homo sapiens, de Hershkovitz et al. 2010.
Contribuição genética aos humanos modernos de uma espécie desconhecida - conhecida apenas por fragmentos, de Reich et al. 2010.

Há mais um, não tão comentado, mais sobre o aspecto do canibalismo, com estudos genéticos de fósseis de neandertais indicando sua estrutura familiar, de Lalueza-Fox et al. 2010.

Não que cheguem a reescrever completamente a história evolutiva dos seres humanos - abalando as estruturas da catedral do cenário até aqui aceito -, mas, em conjunto, modificam-na, sim. Se não racham os pilares de Notre Dame, talvez sejam como poeira tirada de um vitral que traga uma nova luz.

Não irei descrever detalhadamente os achados e os estudos, posto que isso já foi feito nas reportagens indicadas.

O mais polêmico, parece-me, ser o de Hershkovitz e cols. A datação parece ser bem sólida, mas a interpretação da natureza dos dentes foi feita em cima de base morfológica que pode ser posta em dúvida, por exemplo, com o trabalho de Reich e cols. Aparentemente deve haver mais espécies de humanos que conviveram com os nossos ancestrais sapientes. Os dentes da caverna israelense poderia ser de outro hominídeo que desenvolveu algumas estruturas dentais similares à nossa. Se puder ser extraído e analisado o material genético desses restos poderemos ter dados mais embasados a respeito do parentesco - com a consequente revisão ou não do tempo de evolução de nossos ancestrais.*

O trabalho de Reich e cols. conta com pessoas que já haviam detectado a contribuição dos neandertais no genoma de humanos modernos.

O de Henry et al. e de Lalueza-Fox et al. ajudam a desenhar melhor o modo de vida de nossos primos-irmãos neandertais. A sofisticação dietária, incluindo aparentemente o uso de fogo (indicado pela alteração na estrutura do amido dos restos de grãos analisados), remete mais ou menos diretamente à capacidade intelectual deles. Porém, a análise genética parece indicar que vivam em grupos pequenos, com todos aparentados por parte de pai, resultando em baixa variabilidade genética.

Bem, isso não vai nos ajudar a resolver a questão do desaparecimento dos neandertais: foram absorvidos? sucumbiram às doenças trazidas pelos sapientes? Podem até ter sido extintos por meio de guerra, mas o cenário precisa ser mais elaborado do que: "humanos inteligentes e de tecnologia muito superior eliminou uma espécie estúpida e incapaz de resistir à competição".

Estúpidos certamente não eram. E, pelo menos os machos, foram capazes de deixar uma contribuição na espécie sobrevivente. Se é que poderemos falar em *a* espécie sobrevivente em vez de um *emaranhado* genético resultado da contribuição de diferentes patrimônios genéticos ao longo de sua linha evolutiva.

Os vitrais de Notre Dame talvez ilustrem, ao fim, não os seres celestais, santos que ascenderam aos céus e deuses que por cá baixaram, mas o mosaico multicolorido de nossa condição: e o um sãoeram três, e os três são um.

Referências
Henry, A., Brooks, A., & Piperno, D. (2010). Microfossils in calculus demonstrate consumption of plants and cooked foods in Neanderthal diets (Shanidar III, Iraq; Spy I and II, Belgium) Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.1016868108

Hershkovitz, I., Smith, P., Sarig, R., Quam, R., Rodríguez, L., García, R., Arsuaga, J., Barkai, R., & Gopher, A. (2010). Middle pleistocene dental remains from Qesem Cave (Israel) American Journal of Physical Anthropology DOI: 10.1002/ajpa.21446


Lalueza-Fox, C., Rosas, A., Estalrrich, A., Gigli, E., Campos, P., Garcia-Tabernero, A., Garcia-Vargas, S., Sanchez-Quinto, F., Ramirez, O., Civit, S., Bastir, M., Huguet, R., Santamaria, D., P. Gilbert, M., Willerslev, E., & la Rasilla, M. (2010). Genetic evidence for patrilocal mating behavior among Neandertal groups Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.1011553108

Reich, D., Green, R., Kircher, M., Krause, J., Patterson, N., Durand, E., Viola, B., Briggs, A., Stenzel, U., Johnson, P., Maricic, T., Good, J., Marques-Bonet, T., Alkan, C., Fu, Q., Mallick, S., Li, H., Meyer, M., Eichler, E., Stoneking, M., Richards, M., Talamo, S., Shunkov, M., Derevianko, A., Hublin, J., Kelso, J., Slatkin, M., & Pääbo, S. (2010). Genetic history of an archaic hominin group from Denisova Cave in Siberia Nature, 468 (7327), 1053-1060 DOI: 10.1038/nature09710

*Upideite(31/dez/2010): Carl Zimmer faz uma ótima postagem detalhando os problemas do caso - inclusive de onde surgiu a ideia de dizer que o dente é de Homo sapiens, sendo que isso não é cravado em nenhum lugar do artigo original.

*Upideite(28/jan/2011): Mais um retoque no quadro. Datação de ferramentas de pedras encontradas na Península Arábica pode indicar uma saída mais precoce da África: algo como 100 mil a 125 mil anos atrás. (Alguns estudos genéticos sugerem também várias ondas de dispersão a partir do continente africano, o novo estudo não é incompatível com isso.)

Upideite(31/mai/2011): Um artigo resume muitas dessas últimas descobertas sobre as relações do H. sapiens sapiens com seus parentes próximos.

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