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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

"Publique ou pereça", um breve histórico

Em 1996, Eugene Garfield se impôs a tarefa de buscar as origens da expressão "publish or perish" ("publique ou pereça"). A mais antiga referência que encontrou foi no livro "The Academic Man: A Study in the Sociology of a Profession", publicado em 1942, de autoria do sociólogo  Logan Wilson. Mas Wilson não cita ninguém em específico como autor do termo. Garfield, em conversa com sociólogos como Robert Merton, acredita que, de todo modo, era uma expressão já corrente à época.

Em um obituário de William Morris Davis, o pai da Geografia americana, publicado em 1934, Isaiah Bowman relata um evento ocorrido ainda no início do século 20:
"To Professor Davis is due the organization of the Association of American Geographers in 1904, at a meeting in his native Philadelphia. He immediately urged that the Association 'publish or perish.' 'If it's worth doing it's worth printing,' was his advice to students." (Bowman 1934; grifo meu)
["Ao Professor Davis devemos a organização da Associação Americana de Geógrafos em 1904, em um encontro em sua Filadélfia natal. Ele imediatamente pediu para a Associação 'publique ou pereça'. 'Se vale a pena fazer, vale pena publicar', era seu conselho aos estudantes."]

Como presidente da Associação Gastroentereológica Americana, Ernest H. Gaither discursou em 1939: "Let us now turn to a problem which has given us much food for thought; indeed, it has constituted one of the reasons for changing our constitutions and by-laws. I refere to our past custom of not admitting to our membership anyone who has not published several or more papers of at least moderately outstanding merit. Even in a organization such at this, devoted to scientific investigation, I think we can go too far in barrying everyone who has not shown a tendency to be fairly prolific in writing. I would like to be recorded with those who do not subscribe to the dictum 'publish or perish,' for it is my candid opinion that such an organization as ours will not flourish if nourished only on cold, scientific, albeit enlightening facts." (Gaither 1939; grifo meu)
["Falemos agora de um problema que tem dado muito o que pensar; na verdade, ele foi uma das razões para mudarmos nossos estatutos e regulamentos. Refiro-me ao costume pretérito de não admitir como membro ninguém que não tenha publicado vários e vários artigos de mérito pelo menos medianamente relevante. Mesmo em organizações com este, devotada à investigação científica, penso que iremos longe demais ao barrar qualquer um que não mostre uma tendência a ser razoavelmente prolífico em escrever. Gostaria de ser listado entre aqueles que não subscrevem ao ditado 'publique ou pereça' porque, em minha inocente opinião, organizações como a nossa não vingarão se nutridas apenas com frios fatos científicos, ainda que esclarecedores."]

Essas duas referências acima confirmam as suspeitas de Garfield e recua as origens para pelo menos o início do século 20. E indica que se disseminava para várias áreas. (Embora não se refiram à necessidade de publicação para posições como professores titulares nas universidades.) Gaither já indica uma dissensão presente na visão positiva em relação à doutrina/filosofia/cultura/síndrome/sistema "publique ou pereça".

Segundo o bibliotecário Robert N. Matuozzi (2007), no entanto, a raiz da cultura é mais antiga: "The inflexible rule of 'publish or perish' was first mandated by the Prussian ministry in 1749, academic authorship constituing a visible form of capital recognizable through peer-reviewed 'applause'." (Matuozzi 2007)
["A inflexível regra do 'publique ou pereça' foi imposta pela primeira vez pelo ministro prussiano em 1749, constituindo a autoria acadêmica em uma forma visível de capital reconhecível através do 'aplauso' revisado por pares."]

Em obituário de 1965, John B. Hitz registrava sobre o oftalmologista americano Ferdinand Herbert Haessler:
"Although not a prolific writer, according to the modern "publish or perish" philosophy, he published some 30 articles, three textbooks, and one film." (Hitz 1965; grifo meu)
["Embora não tenha sido um autor prolífico, de acordo com a moderna filosofia do 'publique ou pereça', ele publicou 30 artigos, três livros textos e um filme."]

O uso da expressão "moderna" talvez indique uma percepção de mudança no nível da disseminação e intensidade da "filosofia" do "publish or perish". Segundo os dados de Ngram Viewer, o conceito começa a ter uso crescente a partir do pós-guerra (Fig. 1).


Figura 1. Evolução do uso da expressão "publish or perish" em livros de língua inglesa. Fonte: Ngram Viewer.

De Rond & Miller, em ensaio de 2005, consideram o início da doutrina "publish or perish" nas escolas de administração dos EUA, deu-se em na segunda metade da década de 1950, com a publicação de dois relatórios sobre a situação do ensino superior na área: da Fundação Ford, por Gordon & Howell, 1959, e da Corporação Carnegie, por Pierson & Others, 1959. Críticas à obsolescência intelectual, falta de uma atmosfera intelectual estimulante, falta de rigor acadêmico dos estudos e outras observações levaram a uma reformulação das escolas de administração, transformando-as em tipo de departamentos de estudos sociais aplicados, com pesquisas lançando mão de sofisticadas técnicas estatísticas e atentando para o rigor e testabilidade.

A partir daí ocorre uma aceleração no crescimento das menções aos termos na literatura. Mais ou menos na mesma época também passa a aparecer e a crescer a menção à expressão "citation index" - metodologia que se desenvolve a partir de meados da década de 1950 (Fig. 2).

Figura 2. Evolução do uso da expressão "citation index" em livros de língua inglesa. Fonte: Ngram Viewer.

Em 1968, os economistas Jack W. Skeels e Robert P. Fairbanks (que já deixam a questão clara no próprio título: "Publish or perish: An analysis of the mobility of publishing and nonpublishing economists") abrem o texto com: "Academicians generally recognize 'publish or perish' as an important factor affecting their careers. Debate centers on the extent to which publishing (P) or nonpublishing (P_0) alters career patterns and whether adminstrative talent and teaching skill act as partial substitutes for P (publishing)." (Skeels & Fairbanks 1968; grifo meu)
["Os acadêmicos geralmente reconhecem o 'publique ou pereça' como um importante fator a afetar suas carreiras. O debate gira em torno do quanto publicar (P) ou não publicar (P_0) afeta os padrões de carreira e se talento administrativo e habilidade docente atuam como substitutos parciais de publicar (P)."]

Aparentemente em menos de 10 anos a reformulação já se fazia sentir.

O matemático neerlandês Henk Barendregt, sobre a influência do matemático austríaco Georg Kreisel em sua carreira, conta a seguinte história.
"Kreisel often made me aware of my academic career. 'Take for example Heyting', he once said, 'with results not more technical than yours he became well-known.' Also Kreisel emphasized that one should publish one's results as soon as possible. With the present 'publish or perish' insanity, this may sound obvious, but in 1971 it was not." (Barendgret 1996; grifo meu)
["Kreisel frequentemente me alertava sobre minha carreira acadêica. 'Tome o exemplo de Heyting', disse uma vez, 'com resultados que não são mais técnicos do que os seus, ele ficou famoso'. Kreisel também enfatizava que se deveria publicar os resultados o mais rapidamente possível. Com a atual insanidade do 'publique ou pereça', isso pode soar óbvio, mas em 1971 não era."]

O avanço do "publish or perish", pelo jeito, foi mais lento fora dos EUA, mesmo na Europa. E, de acordo com os dados de Van Dalen & Henkens 2012 em uma pesquisa internacional com 730 demógrafos associados à União Internacional de Estudos Científicos da População (IUSSP), a intensidade da pressão percebida é também maior nos EUA, mas também presente em outras regiões: 74% dos pesquisadores americanos concordam (em parte ou totalmente) com a frase "a pressão em minha organização para publicar é alta"; entre canadenses, britânicos e australianos, são 71%; para europeus ocidentais (exceto britânicos): 59%; e 52% entre asiáticos, europeus orientais, latino-americanos e africanos. Parece haver mais apoio entre os pesquisadores americanos e de regiões menos desenvolvidas e uma visão mais negativa entre os pesquisadores europeus ocidentais (Tabela 1).

Tabela 1. Grau de concordância (%) sobre possíveis consequências da pressão a publicar em revistas internacionais com revisão por pares.
Frase EUA CAN, GBR, AUS EUR W ASIA, AL, AFR, EUR L
Revela o que há de melhor nos pesquisadores 57 44 48 66
Melhora a mobilidade ascencional na academia 63 64 56 78
Faz os pesquisadores virarem as costas para problemas nas políticas públicas 35 48 42 37
Reduz o incentivo a se publicar em revistas voltadas a questões do próprio país 32 70 70 48
Leva a um grande número de artigos não lidos 57 62 56 40
O quanto as consequências atribuídas ao "publish or perish" realmente ocorrem? A despeito da antiguidade do fenômeno, de sua pervasividade e ubiquidade interáreas e da quantidade de artigos dedicados ao tema: defendendo-o ou criticando-o, não é muito fácil encontrar artigos que testem as hipóteses levantadas.

Fronczak e colaboradores (2007) analisaram os fatores de produtividade em termos de publicação acadêmica modelando-os matematicamente. Confirmaram que pesquisadores com maior número de publicações no início da carreira tendem a ser os mais produtivos no futuro, compatível com a hipótese da vantagem cumulativa. A pressão do "publish or perish" foi modelada como uma influência externa (um campo externo em fisiquês) que leva aos cientistas a uma certa altura da carreira a publicarem uma dada quantidade média de artigos (de modo similar a que um gradiente de temperatura determina a distribuição de energia entre as partículas de um sistema). Uma interpretação disso - não explicitamente discutida de modo mais extenso pelos autores - é que as diferenças de produtividade entre pesquisadores no mesmo estágio da carreira surgem mesmo sob a suposição de que são essencialmente iguais em características pessoais, mais ou menos analogamente a que partículas idênticas de gás terão energias diferentes a uma dada temperatura (apenas a média será igual entre diferentes amostras aleatórias). Isto é, diferenças de quantidade de artigos publicados sob a pressão do "publique ou pereça" não revelam necessariamente diferenças de méritos.

Fanelli (2010) analisou uma das consequências da cultura de pressão à publicação. Em uma amostra aleatória de artigos publicados em que os autores correspondentes eram radicados nos EUA. Artigos em que os autores eram originários de instituições situados nos estados com maiores índices per capita de publicação tendiam a apresentar maior viés de publicação de resultados positivos.

Uma suspeita constante é que casos de fraudes e condutas antiéticas nas ciências seriam motivados em grande parte pela pressão de publicação. O aumento do número de artigos cancelados (retracted) poderia indicar uma maior incidência de má condutas. Mas estudo de Fanelli (2013) sugere que o aumento de artigos cancelados se deve a um maior rigor na vigilância, com poucos indícios de aumento de condutas fraudulentas.

Parece que a cultura do "publish or perish" nem leva ao que os defensores mais enfatizam: premiação do mérito, nem ao desastre temido por seus detratores: incentivo a condutas antiéticas. No entanto, o possível viés para a publicação de resultados positivos pode ser um ponto de preocupação.

(Importante frisar que não é um histórico completo; certamente muitos artigos relevantes sobre o tema foram deixados de lado. Esta análise parcial pode mudar se mais estudos forem considerados. Mas, como dito, tem sido difícil encontrar artigos com análises de dados a respeito do "publish or perish". Pode ser falha minha em não utilizar palavras-chave adequadas para busca no Google Scholar.)

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