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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Falsas dicotomias

Duas culturas
Desde a influente palestra "The two cultures" (depois compilada no livro quase homônimo: "The Two Cultures and the Scientific Revolution") de C.P. Snow, ministrada em 1959 na Universidade de Cambridge, muita gente enxerga um abismo instransponível entre ciências e humanidades.

Alguns tentam criar uma terceira cultura (John Brockman. 1995. "The Third Culture: Beyond the Scientific Revolution") ou uma ponte.

Na Antiguidade, Aristóteles foi físico, biólogo e filósofo. Leonardo da Vinci, antes da revolução científica, foi a perfeita síntese. No pontapé inicial das ciências, Galileu Galilei foi físico, matemático e filósofo. No auge do Iluminismo, Descartes foi físico, matemático e filósofo. Na época da revolução newtoniana, Leibniz foi físico, matemático e filósofo; um pouco antes, Fermat era advogado e matemático. Logo após, Thomas Young foi físico, fisiologista, egiptólogo e linguista; Lewis Carroll, matemático, escritor, diácono e fotógrafo; Linus Pauling, químico, escritor, educador e ativista da paz nos traz até o século 20; o próprio Charles P. Snow era físico e romancista. Entre brasileiros podemos citar, p.e., Paulo Vanzolini que é biólogo e compositor.

Aqui programa da rádio BBC sobre o tema das duas culturas.

Hard science vs soft sciences
Uma nova roupagem das duas culturas, mas mais elitista. As ciências duras são as exatas: física, química e adjacências. Com suas fórmulas precisas e tudo o mais. Humanidades mais as biológicas e saúde são, quando muito, ciências brandas: sem uma metodologia rigorosa e reprodutibilidade controlada. As humanidades - incluindo ciências sociais e econômicas - talvez nem ciências são...

De um lado, vários pontos - quando não vastas áreas como a astronomia - das ciências duras, embora façam intenso uso da matemática, não são exatamente previsíveis. Os modelos matemáticos não se ajustam perfeitamente na previsão das manchas solares, p.e. De outro, vários pontos - quando não vastas áreas como a genética de populações -, das ciências brandas fazem intenso e bem sucedido uso das ferramentas matemáticas: com predições rigorosas e bem ajustadas. E mais ainda, quando físicos tentam modelar fenômenos complexos como o mercado de ações e a evolução da sociedade, conseguem, no máximo, um quadro muito caricatural (embora não seja inútil).

Aqui um estudo comparativo entre as hard e as soft sciences.

Nature vs nurture
O comportamento humano é inato ou adquirido? O que influencia mais: genes ou ambientes?

É como perguntar se a área de um quadrilátero é fruto de sua base ou de sua altura. Os seres vivos - incluindo os humanos - são fruto da interação entre os genes e o ambiente. Nenhum dos dois produz nada isoladamente: ADN pelados no tubo de ensaio são apenas moléculas longas que não fazem muita coisa interessante - nem mesmo se reproduzirem; um solo, desprovido de sementes e plantas, não germina nada.

O máximo que podemos perguntar que faz algum sentido é: quanto da variabilidade de uma característica se deve a uma variação correspondente no ambiente ou nos genes. P.e. se tivermos retângulos, todos com a mesma altura, mas bases de diferentes comprimentos - podemos dizer que a variação na área dos retângulos deve se integralmente à variação da base; mas não que a área de cada retângulo é formada apenas pela base. Do mesmo modo, podemos nos perguntar se as diferenças na cor da pele entre as pessoas se devem a diferenças genéticas, a diferenças ambientais ou a diferenças de ambos os fatores.

Aqui uma resenha de um livro sobre o assunto.

Pesquisa básica vs aplicada
O que é mais importante? Oras, os dois. Claro que a aplicação do conhecimento é algo de grande relevância: digamos, televisores. Mas muito do funcionamento dos televisores se deve à aplicação de um conhecimento adquirido sem ter em vista nenhuma aplicação prática. P.e. o ramo da eletricidade se desenvolveu pela estranha propriedade de diferentes materiais, após serem friccionados com determinados tecidos, atraírem e repelirem objetos.

A pesquisa aplicada rende usos diretos. Mas ela apenassozinha é insuficiente para abrir novas fronteiras. Basicamente trilha apenas um caminho já desbravado - afinal, sendo aplicada, ela é direcionada para algo em que há mais chances de se obter o resultado previamente desejado.

Mas a pesquisa básica não precisa ficar atrelada somente à possibildade de uma aplicação futura. O conhecimento por si mesmo é um retorno a ser considerado. Saber como os planetas se distribuem pelo universo responde a questões que calam fundo em boa parte das pessoas, mesmo que eventualmente nada de prático se obtenha de tal conhecimento.

Um artigo que retoma o tópico aqui.

Corpo e mente
É uma dicotomia antiga, que o próprio Descartas manteve, apesar de sua explicação mecanicista do mundo: res extensa, res cogitans - chegou até a atribuir a morada da res cogitans naà glândula pineal.

Com os avanços do conhecimento, sabemos que é muito mais produtivo considerar a mente como fruto do funcionamento do sistema nervoso superior dos organismos (ou de um eventual correspondente): lesões físicas no cérebro levam a disfunções da mente, e muitos problemas mentais podem ser tratados tratando-se o cérebro.

Razão e emoção
Emoção é razão, argumenta Damásio em seu livro "O Erro de Descartes". Ou melhor dizendo, a emoção é um substrato essencial para que a razão possa operar na tomada de decisões.

A velha fábula do burro com sede e faminto que, colocado a meio caminho entre uma fonte d'água e um cocho de feno, morreu desidratado e de inanição por não saber escolher vale para a mente humana quando centros que controlam a emoção são danificados.

A emoção ajuda a dar prioridades, a partir disso a racionalidade pode indicar os melhores caminhos para se obter o que se deseja.

Uma não anula a outra, ao contrário, complementam-se como queijo mineiro e goiabada.

Um ensaio sobre o livro de Damásio aqui.

Experimental e teórico (bom nome para dupla caipira)
A mesma falsa dicotomia entre o aplicado e o básico, mas aqui não em relação ao produto do conhecimento e sim ao próprio conhecimento como produto. O que é conhecimento? São apenas as informações que se obtém através de experimentos controlados? Ou podem ser obtidos a partir de análise e instropecção a respeito do funcionamento do mundo?

Aqui uma série televisiva sobre um físico teórico e um experimental que dividem suas desventuras.

Especialista vs generalista
O especialista é aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, o generalista é aquele que sabe cada vez menos sobre cada vez mais.

E não são coisas que se casam no sentido de complementar seus conhecimentos de modo a se ter um quadro mais completo: amplo *e* profundo?

Sobre generalistas e especialistas ecológicos aqui.

Planta ou animal
Fruto de uma divisão antiga, cristalizada pelo trabalho de Aristóteles, que, muito antes de Lineu, já fazia uma classificação dos seres - vivos e não vivos.

De conhecimento limitado e sem os instrumentos mais modernos - como um microscópio - fazia certo sentido lá nos idos tempos essa simples divisão: o que se move é animal, o que não se move (e não é mineral) é planta (especialmente se possui partes verdes).

Mas há muitas outras criaturas que não são nem uma coisa nem outra. Os fungos são um grupo - relacionados com os animais, mas que deles se distinguem. Além de toda uma pletora de organismos unicelulares.

Para uma outra abordagem da diversidade da vida aqui.

O ovo ou a galinha
Quem veio antes? Para responder a isso é preciso saber a que ovo se está a referir.

O ovo como uma estrutura reprodutiva precede de muito a galinha: os peixes, p.e., botavam ovos há mais de 400 milhões de anos.

O ovo como uma estrutura reprodutiva provida de casca também existia muito antes de surgir a primeira galinha: com o aparecimento dos primeiros répteis, uns 300 milhões de anos atrás.

Mas a questão é sobre o ovo que as galinhas botam. O segredo é distinguir o "ovo *de* galinha" do "ovo *da* galinha".

O ovo de galinha é o ovo a partir do qual sai uma galinha (ou um galo - ou mais precisamente, um pintainho fêmea ou macho). Logicamente esse ovo precedeu a galinha, botado por um ser muito similar à galinha. (Supondo aqui que possamos definir arbitrariamente a galinha de um modo muito preciso - por exemplo, que tenha o ADN exatamente igual ao último ancestral em comum de todas as galinhas atuais ou mortas em um período xis.)

O ovo da galinha é um ovo botado por uma galinha - saia ou não um ser galinha (ou a observação acima). Logicamente, é um ovo que pode existir somente depois da primeira galinha.

Naquela suposição da definição arbitrária exata do que é ou não uma galinha, podemos dizer que ela surgiu de um ovo de galinha botado por uma não-galinha. E uma nova espécie pode surgir a partir de um ovo da galinha, botado pela espécie ancestral - no caso, a galinha.

(Aqui um texto de Sérgio Danilo Pena na Ciência Hoje sobre o tema. Um outro, na SciAm Brasil.)

6 comentários:

ciencianamidia disse...

Oi, Roberto,
muito interessante a proposta do post!
E o livro de Damásio que vc menciona é mesmo precioso.
Valeu!

ciencianamidia disse...

esqueci de dizer: o link para "uma abordagem da diversidade da vida" não está funcionando...

Alessandra - Lain disse...

Roberto, eu gostaria de ter escrito isso!!! =D agora não preciso mais! obrigada por compartilhar.

none disse...

Oi, Tati, Alessandra,

Obrigado pela visita.

(Valeu pelo aviso, Tati, corrigi o link.)

[]s,

Roberto Takata

Papo de Primata disse...

Ótimo texto!

none disse...

Valeu, David.

Obrigado também pela visita.

[]s,

Roberto Takata

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