Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Macacada desunida

ResearchBlogging.orgA Folha Online reproduz notícia traduzida da France Presse.

Linhagem humana separou-se dos macacos antes do que se pensava
"O último ancestral compartilhado entre macacos e humanos viveu provavelmente entre 28 e 24 milhões de anos atrás, alguns milhões de anos depois do que se pensava."

O original, reproduzido pelo Yahoo!News, conta uma história bem distinta:
Human lineage split from monkeys later than thought: study

Antes vamos dar espaço para a patrulha purista vocabular. Em inglês, há a distinção entre monkey e apes. Monkey são macacos com cauda. É um termo não-taxonômico - agrupa os platirrinos (macacos do Novo Mundo - macaco-aranha, bugio, saguis, micos...) e parte dos catarrinos: cercopitecóides (macacos de cauda do Velho Mundo - macaco-verde, cólobo, reso...). Ape designa macacos sem cauda (ou de cauda curta): os hilobatídeos (gibões e siamango) e os hominídeos (orangotando, humanos, chimpanzés, bonobos e gorilas). (Figura 1.)


Figura 1. Filogenia de primatas.

Em português não há essa distinção. Macacos (e símios) referem-se a todos esses grupos (com exceção de humanos). Então alguém que lesse a notícia em português ficaria espantado: já que Lucy e outros australopitecinos são datados em cerca de 4 milhões de anos e Ardipithecus ramidus cerca de 4,4 milhões de anos. Seria um salto gigantesco até os 24-28 milhões de anos.

O que o fóssil referido do Saadanius hijazensis, descrito por Zalmout et al. 2010, ajuda a datar é a separação entre monkeys e apes: na verdade, entre platirrinos e catarrinos cercopitecoides e hominoides*. E não entre homens e macacos. (Figura 2.)

Figura 2. Posição filogenética de Saadanius hijazensis. Fonte: Zalmout et al. 2010. www.nature.com

Agora, later é "mais tarde". A separação correu mais cedo ou mais tarde? Se os dados anteriores disponíveis eram genômicos e indicavam uma data de 29,2 a 34,5 milhões de anos atrás, 24-28 milhões de anos é um tempo mais tardio e não mais cedo. Mas, por outro lado, os paleontólogos estimavam a divergência cercopitecoidea/hominoidea entre 23 e 25 milhões de anos atrás. O intervalo 24-28 milhões de anos é um pouco mais cedo - ainda que sobreposto parcialmente. Porém, como um fóssil registra o tempo máximo de divergência, não é impossível que fósseis mais antigos sejam encontrados e o tempo recue para o intervalo apontado pelos dados genéticos.

Em suma
Quem
: grupo de pesquisadores dos EUA e da Arábia Saudita.
O quê: Fóssil de Saadanius hijazensis (do. ár. saadan, macaco e Al Hijaz, província ocidental da Arábia Saudita onde o material foi descoberto) - material cranial parcial.
Importância: preenche uma lacuna no registro fóssil entre os propliopitecóides (de 30-35 milhões de anos atrás) e os hominóides mais antigos (proconsulídeos de cerca de 23 milhões de anos atrás).

Referência
Zalmout, I., Sanders, W., MacLatchy, L., Gunnell, G., Al-Mufarreh, Y., Ali, M., Nasser, A., Al-Masari, A., Al-Sobhi, S., Nadhra, A., Matari, A., Wilson, J., & Gingerich, P. (2010). New Oligocene primate from Saudi Arabia and the divergence of apes and Old World monkeys Nature, 466 (7304), 360-364 DOI: 10.1038/nature09094

Copirraite da figura 2: 2467870826872
Rightslink: This reuse request is free of charge although you are required to obtain a license through Rightslink and comply with the license terms and conditions. You will not be charged for this order. (use on a web site > Educational web site > Other not-for-profit > Figures/table > 1)

*Upideite(16/jul/2010): corrigido a esta data.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O polvo sabe...

Está causando sensação o polvo Paul do Aquário Sea Life, em Oberhausen, na Alemanha. Ele teria "predito" os resultados dos jogos da Alemanha na Copa 2010 e acertado todos (seis jogos) até aqui. Além de ter acertado quatro em seis nas partidas da Euro Copa 2008.

Seria uma interessante taxa de acerto de 83,33%. Compare-se com a taxa de 60% de acerto dos resultados da Copa 2010 entre jornalistas esportivos e de 40% de acerto por algoritmos estatísticos (aqui).

Cefalópodos são mesmo animais muito interesantes (veja outros aqui). São também bastante inteligentes. Certamente, não têm, no entanto, capacidade de predição - não por outra coisa, alheio que são à questão do futebol.

As chances de se acertar por acaso são de ou 33,33% (se considerarmos empate) ou de 50% (se considerar a classificação em jogo de mata-mata). Paul "previu" mais ou menos metade dos jogos em fase de grupos e metade em fase eliminatória - uma chance ao acaso composta de 41,67% mais ou menos. Em 12 jogos, seria de se esperar que, ao acaso, acertasse 5 e não 10. Uma chance de 0,3% desse desvio ser explicado pelo acaso (p ~ 0,0034). (Basta usar um teste bem simples chamado qui-quadrado para se obter esses valores de probabilidade.)

Vidência? Claro que não.

Paul "prevê" somente jogos da Alemanha (a exceção ficará - por conta do sucesso - para o jogo final da Copa 2010, entre Espanha e Países Baixos). O processo é simples: colocam-se mariscos dentro de duas caixas - cada caixa tem a bandeira de um dos dois países cujas seleções se enfrentarão - a caixa que Paul abrir é considerada a da predição para o vitorioso. Quase sempre Paul escolhe a caixa da seleção alemã - exceção foi exceções foram para o jogo da Copa 2010 entre Alemanha e Espanha, e entre Alemanha e Sérvia em que escolheu a caixa da Espanha e da Sérvia* e "acertou"***.

Há vários truques possíveis. O fato de escolher quase sempre a Alemanha pode ser um indicativo de que Paul foi treinado ou aprendeu a dar preferência para a caixa com a bandeira germânica: polvos têm ótima visão.

Considere o desempenho da seleção alemã em Copas do Mundo: 55 vitórias em 92 jogos; na Euro Copa: 19 em 38. Um desempenho composto de 56,9% de vitórias. Com essa probabilidade, o esperado seria de 6,8 vitórias em 12 partidas. Então, o esperado seria que Paul acertasse cerca de 7 vezes em 12. A probabilidade de, por acaso, acertar 10 em 12 é de 6,5% - se aplicarmos o corte tradicional de 5% como limite para aceitar a hipótese do acaso, então não rejeitamos a hipótese de que Paul acertou por pura sorte**,****. E jornalistas esportivos não precisam ficar tão preocupados em perder emprego para alguém mais simpático. (E nem precisam esperar para que os torcedores alemães desapontados com a eliminação da Alemanha - como "predito" pelo cefalópodo - diante da Espanha consigam o intento de transformá-lo em uma iguaria. Sério, polvos são animais inteligentes, não deveriam ser devorados - por mais deliciosos que sejam.)

Bom notar que estou aqui especulando que Paul foi treinado ou aprendeu a escolher quase sempre a caixa com a bandeira da Alemanha.

*Upideite(08/jul/2010): Fernando Kendi me corrige nos comentários, de fato, Paul escolheu a caixa da Sérvia também contra a Alemanha na Copa 2010 - jogo em que o time sérvio saiu vencedor.
**Upideite(08/jul/2010): Mais precisamente, seriam esperados (0,569*10 + 0,431*2) = 6,55 acertos em 12. Nesse caso, a probabilidade cai para 0,046 (=4,6%) para que o desvio seja totalmente ao acaso. Como o valor de 5% é um tanto quanto arbitrário e a proporção de vitórias é uma estimativa um tanto grosseira, parece-me ainda um número suficientemente próximo para merecer rejeição. Mas os fãs do Paul (tal qual eu) poderão ter um restinho de esperança. Recalculemos após os jogos finais.****
***Upideite(09/jul/2010): Talvez não seja uma coincidência que Paul tenha escolhido outra bandeira no caso dos jogos contra a Sérvia e contra a Espanha, as bandeiras dos dois países, como da Alemanha, são compostas por três faixas horizontais. No jogo da final entre Espanha e Países Baixos, ele escolheu Espanha, e na disputa pelo terceiro lugar, entre Uruguai e Alemanha, escolheu, novamente, a Alemanha. Octopus vulgaris não possuem visão colorida aparentemente.

Upideite(09/jul/2010): Fazendo um acochambramento estatístico de que Paul escolheria ao acaso entre Espanha e Países Baixos, as probabilidades de todos os acertos serem ao acaso será aproximadamente de: 1,9% se acertar os dois jogos, de 7% se acertar apenas um (varia se ele acertar um ou outro jogo, mas consideremos aqui que a diferença não será grande), de 20,2% se ele errar os dois jogos. (Não considere esses números a ferro e a fogo, houve diversas suposições - que considero razoáveis, mas não garantidas.)

****Upideite(11/jul/2010): Não está correta também a minha análise que considera a *totalidade* da série de Paul. Isso porque Paul chamou a atenção justamente por ter acertado vários jogos na Euro Copa 2008. Os dados anteriores não devem ser considerados. Por quê? Certamente há várias tentativas de adivinhar os resultados, muitos que começam como brincadeira - incluindo as que se utilizam de animais (o jogo do realejo com aves tirando cartões com prognósticos é muito conhecido). Considerando-se unicamente o acaso, é de se esperar que 5% de todas essas tentativas acertem em um nível acima do que é estatisticamente significativo (considerando-se o corte tradicional de 5%). São justamente esses, que puro acaso acertam mais, chamam a atenção. Analisá-los levando em conta os resultados anteriores seria justamente usar os mesmos indícios que levaram à hipótese de que ele tenha algo de especial para testar se ele tem algo de especial. Recai em uma circularidade - ainda que parcial. Considerando-se apenas os resultados da Copa 2010 até aqui - incluindo o jogo do terceiro lugar, p = 3,7%. Se a seleção da Espanha ganhar - a final está sendo disputada agora - p = 2,2%. Se os jogadores dos Países Baixos vencerem - p = 11,0%.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Free Leviathan: parente da cachalote comia mesmo baleias?

ResearchBlogging.orgUma equipe europeruana de pesquisadores publicou uma descrição de um fóssil de baleia de dentes na revista Nature (Lambert et al. 2010).

Alguns título de notícias referindo-se ao achado:
Discover/Not Exactly Rocket Science: Behold Leviathan: the sperm whale that killed other whales
Estadão: Início do conteúdo Descoberto fóssil de baleia pré-histórica que devorava outras baleias
Folha Online: Cachalote gigante de 12 milhões de anos se alimentava de outras baleias

A nova espécie, batizada de Leviathan melvillei em referência ao monstro marinho bíblico Livyatan e também ao novelista americano criador de Moby Dick, Herman Melville foi identificada como pertencendo à mesma superfamília das cachalotes. É o maior fóssil do grupo já encontrado, mas seu tamanho estimado - entre 13,5 e 17,5 m de comprimento - é menor do que o das cachalotes atuais de maior tamanho - podendo chegar a cerca de 18 m de comprimento.

Mas o que chamou a atenção dos cientistas foi o tamanho dos dentes - alguns com mais de 36 cm de comprimento, contra cerca de 16 cm dos maiores dentes de cachalote. Dentes similares já eram conhecidos, porém é primeira vez que se encontra um crânio associado. A conformação do crânio (focinho mais curto e robusto) e dos dentes (relativamente grandes, pontiagudos, presentes nas maxilas superior e inferior e que se encaixam) lembram mais um predador do tipo orca - que caça focas, golfinhos, tubarões e baleias - do que do tipo cachalote - que se alimentam de lulas-gigantes a grandes profundidades.

Escrevem os autores: "Functionally able to feed on other groups of marine animals, including large fish, pinnipeds and odontocetes, Leviathan may have predominantly preyed on higher-energy content medium-size mysticetes, which would have provided the large amount of fat required to fulfil the high caloric demands of this huge endothermic aquatic predator". É um chute, um bom chute, mas não muito mais do que um chute que tenham se alimentados de baleias. Colocar isso no título e do modo como foi publicado em sites e jornais passa uma ideia de certeza que não há.

Na região em que se encontrou o fóssil - onde atualmente é o deserto de Pisco-Ica, no Peru -, há fósseis de baleias de barbatana de 5 a 18 metros de comprimento. Mas também há fósseis de tubarões gigantes. Não poderia o leviatã ter se alimentado de tubarões? (Sim, não são opções mutuamente excludentes.) Infelizmente apenas o material cranial foi descrito. O esqueleto pós-craniano poderia fornecer pistas sobre, por exemplo, a velocidade de nado do animal. Isso poderia sustentar ou refutar hipóteses a respeito do tipo de presas. Ou se, melhor ainda, houvesse vestígios da última refeição na região abdominal (infelizmente tais fósseis são bastante raros - ainda que haja um punhado deles no registro conhecido com conteúdo gastrointestinal preservado).

Outro detalhe é que possivelmente os autores terão que modificar o nome escolhido. Leviathan é um nome bom demais para ter escapado por tanto tempo de uso pelos paleontólogos. Esse gênero foi aplicado por Albert Koch em 1841 a uma espécie de mastodonte - originalmente grafou erroneamente como Levathan, mas corrigido em seguida. Mesmo que a espécie depois tenha sido transferida para o gênero Mammut, o nome não é liberado pelas regras da nomenclatura zoológica.

Referências
Koch, A. 1841. Description of the Missourium, or Missouri Leviathan; together with its supposed habits. And Indian traditions concerning the location from whence it was exhumed: also, comparisons of the whale, crocodile and Missourium, with the Leviathan, as described in the 41st chapter of the Book of Job. 2nd edition. Prentice and Weissinger, printers, Louisville, KY.

Lambert, O., Bianucci, G., Post, K., de Muizon, C., Salas-Gismondi, R., Urbina, M., & Reumer, J. (2010). The giant bite of a new raptorial sperm whale from the Miocene epoch of Peru Nature, 466 (7302), 105-108 DOI: 10.1038/nature09067

Upideite(26/ago/2010): O novo nome da baleia é Livyatan.

domingo, 4 de julho de 2010

"O maior erro da minha vida"*

Quem nunca errou? Cientistas e filósofos também erram - e, como dizem, quanto maior a altura maior a queda: seja a altura da grandeza científica e intelectual de quem diz, seja o tamanho da barbaridade dita. Esta é mais uma postagem com compilações temáticas: frases definitivas de cientistas e pensadores afirmando ou negando veementemente alguma coisa para depois mostrar-se que estavam redondamente enganados.

------------
"Quão triste, não é?, ver toda uma cidade tentar validar um conto popular... o leitor filosófico tirará suas próprias conclusões a respeito deste documento, que dá fé a um fato aparentemente falso, um fenômeno fisicamente impossível" - Pierre Berthelon, editor do Journal des Sciences Utiles, em 1791, a respeito de um documento assinado pelo prefeito e vereadores da cidade de Agen dizendo que 300 cidadãos viram a queda de uma bola de fogo (meteorito) do céu. Resultados de análises químicas publicados em 1802 por Edward Howard, químico britânico, e Jacques-Louis de Bournon, mineralogista francês, convenceram os cientistas da origem extraterrestre dos meteoritos.

"Jamais poderemos, por nenhum meio, investigar sua composição química" - Auguste Comte, filósofo francês, em 1842, sobre a possibilidade de se descobrir a natureza das estrelas. Em 1859, Gustav Kirchhoff, fisico alemão, iniciou o desenvolvimento da espectroscopia, vindo a descobrir a composição do Sol e de outras estrelas.

"Essa conclusão não afetou o desenvolvimento posterior da física e, provavelmente, jamais afetará" - Abraham "Bram" Pais, físico quântico teórico neerlandês, em 1982, a respeito do experimento mental EPR; no mesmo ano Alain Aspect, físico francês, publicou um experimento - baseado na inequação de Bell, que demonstrava que a conclusão de Einstein estava errada, demonstrando a validade dos princípios da mecânica quântica.

"Em pouco anos, todas as principais constantes físicas terão sido aproximadamente estimadas e... a única ocupação que restará aos cientistas será conduzir essas medições para outra casa decimal" - James Clerk Maxwell, físico inglês, 1871, em uma aula inaugural na Universidade de Cambridge. Três anos depois, Max Planck, físico alemão, anunciaria sua fórmula da radiação do corpo negro, um dos primeiros trabalhos que abriria a fronteira da mecânica quântica. Mas Maxwell não estava sozinho nessa opinião equivocada: "As leis e os fatos mais fundamentais das ciências físicas foram todos descobertos e estão tão firmemente estabelecidos que a possibilidade deles virem a ser suplantados em consequência de novas descobertas é extramemente remota" - Albert Michelson, físico americano, 1894, 1897 ou 1899 (encontrei variação na data atribuída - mas Lagemann 1959 joga um grão de sal nessa citação), em 1905, Einstein lançaria as bases da Teoria da Relatividade (por maior ironia, um dos trabalho de Michelson, em conjunto com Morley, teria um importante papel nessa teoria).

*"O maior erro de minha vida", foi o que declarou Einstein sobre a constante cosmológica quando ficou claro que o Universo estava em expansão. A constante cosmológica foi introduzida nas equações da relatividade geral de modo a cancelar o efeito global da atração gravitacional e impedir que um universo estático se colapsasse - com um universo em expansão tal constante não seria necessária. Mas mesmo nos erros grandes cientistas podem ser produtivos: a ideia da constante cosmológica - ou sua variação como a quintessência - foi resgatada com a descoberta de que o Universo provavelmente não está apenas de expandindo como essa expansão está acelerada. (Vide, p.e. Filippenko 2001.)
------------

São exemplos que mostram o perigo de afirmações peremptórias, de posições dogmáticas e mostram também caráter dinâmico do conhecimento científico. Mas não significam que qualquer contestação ao que se tem por bem estabelecido hoje é válida ou deva ser levada muito a sério: sim, teorias caem, porém não apenas por palavras de dúvida em relação à validade delas e, sim, por dados experimentais contrários às suas previsões (os dados de espectroscropia de estrelas, de análise química dos meteoritos, os resultados do experimento de Aspect...)

Referências:
Bertholon, P. 1791. Observation d'un globe de feu. Jour. des Sci. Utiles 4, 224-228.
Comte, A. 1842. Cours de philosophie positive.
Filippenko, A.V. 2001. Einstein’s Biggest Blunder? High‐Redshift Supernovae and the Accelerating Universe. Publications of the Astromonical Society of the Pacific 113: 1.441-8.
Lagemann, R. 1959. Michelson on measurement. American Journal of Physics 27(3): 182-4.
Pais, A. 1982. Subtle is the Lord. The science and the life of Albert Einstein, Oxford: Clarendon.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O que é gene repórter afinal?

Às vezes estamos tão mergulhados nos jargões de nossa ocupação que mal nos damos conta deles. É preciso uma voz externa a nos perguntar: "o que você disse?" para nos despertar de um certo transe ocupacional.

Por exemplo, nunca me preocupei em explicar o nome "Gene Repórter" para este blogue. Para mim, era um trocadilho mais ou menos óbvio com uma técnica da biologia molecular e o ato de reportar ou relatar fatos, ocorrências, fenômenos, etc. para quem não estava no local.

Mas várias pessoas procuram, segundo o Google Analytics delata, por "gene repórter". Sei que elas devem ficar frustradas.

Sendo bem sucinto, um gene-repórter é um gene que, na técnica de engenharia genética (como transgenia), é inserido conjuntamente com outros genes (ou sequências) de interesse. A atividade do gene repórter pode ser acompanhada mais facilmente - por exemplo, o gene da aquaporina produz uma proteína fluorescente verde (ela brilha no escuro e produz uma luz esverdeada), se esse gene é colocado junto com um outro gene A, se a célula (ou o organismo) apresentar um brilho esverdeado, então é quase certo que o gene A também estará presente. Então esse gene reporta - daí o nome - a presença de outro gene, que é o de interesse. (Não precisa ser exatamente um gene, pode ser uma sequência qualquer - por exemplo, uma que *iniba* a atividade de outro gene.) Aqui tem um vídeo com mais detalhes da técnica.

O scibling (agora acho que posso chamá-lo de scibling) Igor Zolnerkevic (do Universo Físico) quem me chamou a atenção. Ele é divulgador de ciências, mas só foi saber o que era gene-repórter quando fez uma reportagem sobre a bioluminescência do Phrixothrix hirtus - seu gene de luciferina leva à produção de um brilho avermelhado e pode ser utilizado nas pesquisas sobre câncer (leia a reportagem aqui - só uma picuinha da patrulha purista vocabular, lagarta é o nome da larva de lepidópteros - mariposas e borboletas -, o P. hirtus é um coleóptero - besouro vagalume fengodídeo). Claro, ele é físico de formação. Eu certamente ignoro um monte de nome de fenômenos, técnicas e efeitos da física (e de química, da história, da farmacêutica, da geologia, da geografia, da sociologia, da matemática... e mesmo de várias áreas da biologia).

Pronto, aos paraquedistas que contribuem involuntariamente com a audiência deste blogue, espero ter pagado minha dívida.

Isso explicado o leitor notará que o que menos se fala neste blogue é de genes e, somado ao fato de eu não ser jornalista, o nome "Gene Repórter" pode soar enganoso. Minhas desculpas por isso também.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Nem tudo que doureja é lúzio 2

Um pouco mais da gaiata ciência.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Plágio? 4

A Biochemical Pharmacology cancelou (retracted) o artigo Sant'Ana et al. 2008, da equipe do Prof. Dr. Andreimar Soares.

Os autores já haviam reconhecido o problema da reprodução das fotografias - atribuindo a um erro involuntário.

Diz a nota de cancelamento:
--------------------
"This article has been retracted at the request of the Editor-in-Chief and Author. Please see Elsevier Policy on Article Withdrawal (http://www.elsevier.com/locate/withdrawalpolicy). Reason: The authors have plagiarized transmission electron microscopy figures published by others in Antimicrob. Agents Chemother., 47 (2003) 1895–1901; doi:10.1128/AAC.47.6.1895-1901.2003). As such this article represents a severe abuse of the scientific publishing system. The scientific community takes a very strong view on this matter and we apologize to readers of the journal for this incident."
["Este artigo foi cancelado a pedido do editor-chefe e do autor. Por favor veja Política de Remoção de Artigo da Elsevier.
Justificativa: Os autores plagiaram as imagens de microscopia eletrônica de transmissão publicadas por outros em Antimicrob. Agents Chemother., 47 (2003) 1895-1901. Assim este artigo representa um sério abuso do sistema de publicação científica. A comunidade científica tem uma opinião muito forte sobre essa questão e pedidmos desculpas aos leitores do jornal pelo incidente."]
--------------------
(Via Adusp.)

A nota de cancelamento menciona apenas as fotos, não fala a respeito dos trechos virtualmente idênticos.

Não sei em que pé está a investigação interna da USP. Imagino que já foi concluída, mas não sei o desfecho.*

Não sabia, mas foi o Informativo Adusp o primeiro a dar a notícia a respeito do plágio em novembro do ano passado. Segundo a Adusp, a Folha publicou depois, usando o que foi publicado pelo jornal da entidade, mas não citou a fonte.

*Upideite(16/jun/2010): a sindicância ainda está em andamento.

*Upideite(20/jan/2011): a comissão decidiu pela demissão do docente e cancelamento do título de doutorado da aluna.

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente 11

Inna Kouper publicou recentemente um trabalho em que analisa 11 blogues de temática científica - o modo como interagem com seu público leitor. Seguem minhas anotações sobre o artigo.

---------------------
Kouper, I. 2010. Science blogs and public engagement with science: practices, challenges, and opportunities. Journal of Science Communication 9(1): 1-10. Jcom0901(2010)A02.pdf

Os seguintes elementos ('modos de participação'/'modes of participation') são considerados como importantes facilitadores do envolvimento do público na discussão sobre ciências:
1) informar aos leitores sobre novidades/notícias científicas,
2) explicar matérias complicadas de um modo compreensível ao público leigo,
3) avaliar os achados das pesquisas e as alegações feitas por outras pessoas,
4) articular o posicionamento do autor do blogue em relação a questões controversas.

Sinais de engajamento público em relação às ciências incluem pelo menos os seguintes elementos:
a) ambos, cientistas e não-cientistas, estão envolvidos na blogagem,
b) a maior parte do conteúdo das postagens e dos comentários dizem respeito às ciências e às questões científicas,
c) ambos, os autores dos blogues e os leitores, estão engajados nas atividades acima mencionadas.

Metodologia
A análise focou nos participantes, fontes usadas pelos blogues e conteúdos tópicos, e modos de participação: comentários e postagens foram analisados. Os dados foram coletados no verão de 2008 - a amostragem de blogues foi definida buscando-se pelas expressões 'science blogs' e 'blogs about science' e através do noticiário sobre ciências.

Em blogues mais ativos, os dados analisados foram referentes a cinco dias de atividade; entre os menos ativos, foram coletados dados de 30 dias de atividade. (Para um dos blogues: BioEthics, incluíram-se postagens e comentários desde o mês de abril - pela atividade muito baixa durante o mês de julho.) O número de comentários analisados por postagem foi limitado aos 15 primeiros.

Tamanho amostral:
11 blogues, 174 postagens, 1.409 comentários.

Os blogues analisados foram:
Pure Pedantry, Synthesis, MicrobiologyBytes, Wired Science, BioEthics, DrugMonkey, Scientific Activist, Pharyngula, Panda's Thumb, ScienceBlog, Cosmic Variance

Resultados
Os blogues eram muito heterogêneos em suas características, não se constituindo em um gênero de comunicação científica - nem havia sinais de gênese de um novo gênero.

Fontes
As principais fontes de postagens foram: experiências pessoais, notícias na mídia (incluindo outros blogues) e artigos científicos (cerca de 15% das postagens para cada tipo de fonte). Outras fontes foram sítios web de agregação como digg.com, comentários, comunicações pessoais, TV e vídeo.

Experiências pessoais e notícias em outras mídias geraram mais postagens sobre posições políticas e outras questões não estritamente científicas.

Temas
A figura abaixo mostra a nuvem de palavras-chave dos tópicos.

(A intensa atividade dos blogues Pharyngula e Panda's Thumb fez destacar a questão do criacionismo-evolução.)

Modos de participação
A análise dos modos de participação resultou em ações agrupadas em quatro grandes categorias:
a) contribuição ao tópico: relato(reportagem), argumentação, explicação ou questões de esclarecimento);
b) desvio do tópico: digressão, agressão, autopromoção;
c) expressão de atitudes e emoção: aprovação, desaprovação, gratidão, lamento ou partilha de experiências pessoais;
d) tentativa de influenciar a ação de outros: conselho, recomendação, pedido ou proposta.

Todos estiveram igualmente representados, sem tendência de predominância de um tipo de ação sobre outra.

Autores
Todos ligados às ciências: estudantes de pós-graduação, pesquisadores, editores, escritores e jornalistas de ciências.

Modos de comunicação
Para cada blogue, um ou dois modos de comunicação predominavam na postagem, outros modos surgindo ocasional e raramente.
-Modo reportagem: informe de eventos ou descrição breve de um documento externo (frequente uso de exageros e generalizações - pode tornar a leitura mais chamativa, mas com prejuízo da precisão da informação);
-Modo explicativo: texto que procura tornar a informação mais básica e compreensível (tentativas de tornar algo compreensível não necessariamente são bem sucedidas)
-Modo avaliativo: descrição de elementos de uma postagem em termos positivos ou negativos como: bom, ruim, interessante... (permite ao autor expressar sua opinião sem se alongar em argumentos; serve como recomendação, indicação de afiliação a grupos ou convite à contribuição - avaliações emocionais e até insultos foram comuns neste modo);
-Modo de anúncio: publicidade a eventos e fontes de informação;
-Modo resumo de documentos: descrição detalhadas de artigos científicos e ensaios (frequentemente se fez presente alguns termos altamente técnicos e, em geral, demandam do leitor algum conhecimento maior da área);

Leitores
Também com alguma ligação com as ciências (não são exatamente leigos): estudantes de pós-graduação, pós-doutorandos, funcionários e professores de faculdades, pesquisadores de várias áreas.

Interesse dos leitores em determinados blogues depende de:
a) necessidade de obter informações e notícias de áreas mais amplas;
b) desejo de aprender sobre o desenvolvimento de outras áreas científicas;
c) vontade de conversar com pessoas com pensamentos similares.

A maioria dos comentários eram curtos, expressando os sentimentos dos leitores e divergindo do tema da postagem. Menor parte trazia contribuições: novas ideias, questões que não de esclarecimentos e respostas a essas questões.
---------------------

A autora reconhece a limitação do tamanho amostral. Sugere que os resultados sejam vistos como hipóteses a serem avaliadas em outros estudos. De minha base observacional, não quantitativa, igualmente limitada da blogocúndia cientófila brasileira, parece que são características compartilhadas.

Via @cienciahoje

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Eu num tubo de ensaio

Estreei dia 07/jun/2010 no Scienceblogs Brasil, dentro do espaço Tubo de Ensaios (primordialmente dedicado à formação de novos blogueiros, mas por ora funcionando como portão de entrada de novos projetos no SBBr).

Novo projeto significa que não irei reproduzir o que já faço aqui neste Gene Repórter - que continuará neste endereço. Na verdade não irei falar de Biologia (há já ótimos blogues de temas biológicos: Brontossauros em Meu Jardim, Ciência à Bessa, Discutindo Ecologia, Rainha Vermelha, Rastro de Carbono, RNAm...). Sobre o que eu irei falar? Só ir lá conferir. (Claro que é mais provável que o leitor solitário - ou a leitora - deste blogue já terá sabido antes lá mesmo no SBBr.)

Outro tuboensaísta que já fez sua estreia é Joey "Fernando Heering" Salgado do Botecagem S.A. (Joey Salgado é o verdadeiro nome dele, Fernando Heering é o apelido que botaram na certidão de nascimento), confira aqui.

Upideite(08/jul/2010): Quem também está no Tubo de Ensaios é a psicóloga Ana Arantes, do Divã de Einstein, leia aqui a primeira postagem.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ciência em carne e osso

A exposição 'Corpos' na Oca do Ibirapuera em São Paulo traz corpos humanos preservados pela técnica da plastinação - com o uso de resinas plásticas. A exibição vai até 8 de agosto.

Mas há também uma pequena coleção em museus e exibições privadas de partes de corpos de cientistas famosos espalhada mundo afora.

------------------
Bexiga de Spallanzani. No Museu de História da Universidade de Pávia, na Sala Scarpa, entre outras peças, encontra-se a bexiga deformada por um câncer de próstata de Lazzaro Spallanzani, padre e fisiologista de Pávia (aquele das calças anticoncepcionais de sapos).

Cabeça de Scarpa. Na mesma sala em que se encontra a bexiga de Spallanzani, a cabeça do cientista que dá nome ao local: o oftalmologista italiano Antonio Scarpa, é mantida em uma caixa.*

Crânio de Cope. O paleontólogo americano Edward Drinker Cope que, contra Othniel Charles Marsh, protagonizou a Guerra de Ossos - uma corrida (um tanto destrutiva) na busca de ossos de dinossauros -, tinha seu crânio na coleção do Museu de Antropologia e Arqueologia da Universidade da Pensilvânia. Os fotógrafos americanos Louis Psihoyos e John Knoebber em seu livro (Hutting Dinosaurs) relatam que teriam levado o crânio de Cope para o paleontólogo americano Robert T. Bakker descrevê-lo e propor como espécime tipo da espécie Homo sapiens. A Universidade da Pensilvânia duvida que o crânio apresentado por Psihoyos seja de Cope e dá o espécime como perdido. (Em 1959, W.T. Stearn em um artigo no Systematic Zoology propôs que o próprio Lineu fosse designado como espécime tipo.)

Cérebro de Einstein. O médico patologista Thomas Harvey subtraiu o cérebro do famoso físico alemão naturalizado americano durante a autópsia e o guardou por mais de 40 anos. O escrito de ciências Michael Paterniti narra em um livro (Driving Mr. Einstein) sua aventura ao dirigir levando, a pedido do Dr. Harvey, de volta o órgão para a neta de Einstein.

Cérebro de Broca. A massa encefálica do médico e antropologista francês Paul Broca encontra-se em exposição no Museu do Homem em Paris. O finado astrofísico americano Carl Sagan conta as reflexões trazidas à sua mente quando foi atrás da peça (Broca's Brain).

Cérebro de Babbgage. Parte do cérebro do matemático britânico (e pai da máquina analítica, predecessor mecânico do computador, que só teria um protótipo funcional criado a partir de seu projeto séculos após sua morte, mas para o qual Ada Lovelace desenvolveria o primeiro computador antes mesmo de vir a existir fisicamente) Charles Babbage era exibida na galeria matemática do Museu de Ciências de Londres. Outra, fica no Museu Hunteriano do Royal College of Surgeons.*

Corpo de Bentham. O filósofo utilitarista inglês Jeremy Bentham tem seu corpo preservado sentado em um cadeira no Claustro Sul da University College London. A cabeça original foi substituída por uma réplica em cera sobre o corpo, enquanto aquela repousa no chão, entre os pés do corpo de Bentham.*

Dente e polegar de Galileu. O colecionador italiano Alberto Bruschi adquiriu em outubro de 2009 algumas relíquias religiosas. Em meio aos objetos encontrou um dente e um polegar que descobriu serem do matemático e astrônomo de Pisa. Outro dedo e uma vértebra também foram conservados.
------------------

À medida em que eu encontrar mais informações, esta lista poderá crescer.

*Upideite(31/out/2015): adido a esta data.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails