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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Elefante fóssil amazônico?

O jornalista Reinaldo José Lopes está cobrindo o VII Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Vertebrados no Rio de Janeiro*.

Várias descobertas e estudos ainda não publicados são apresentados nessas reuniões. Uma das novidades é um dente fóssil - um molar de cerca de 15 cm de comprimento (dos quais cerca de 12 cm foram preservados) por 5 cm de largura - cheio de lamelas (estruturas em formas de lâminas) transversais.

Esse arranjo de dente só é conhecido entre elefantes (e parentes próximos) e capivaras (e parentes próximos).

Lopes descreve o achado na reportagem:
Folha: Garimpeiro acha dente de elefante no sul da Amazônia

Claro, o jornalista cravou elefante no título provavelmente pela confiança expressa pelo cientista que lhe apresentou o dente, o paleontólogo Mario Cozzuol da UFMG.

Cozzuol interpreta como sendo de um elefantídeo pelo tamanho - dentes de hidrocoerídeos (membros da família da capivara) conhecidos (incluindo os fósseis) têm cerca de 5 cm de comprimento por 1 cm de largura. E fósseis de elefantídeos foram descobertos na América Central. Não parece que seria uma maior dificuldade terem alcançado a América do Sul em sua porção norte.

Mas não dá para se descartar assim a hipótese de uma capivara fóssil de grandes proporções. São conhecidos fósseis de uma família próxima: dinomídeos - com crânio com o dobro do comprimento das capivaras.

Cozzuol aposta que seja dente do Mammuthus columbi, cujos fósseis são encontrados na América Central (até a Costa Rica).

Figura 1. Distribuição de fósseis de gênero Mammuthus na América do Norte. (Fonte: A Mammoth Site; B Mota e Calles 2007)


Por uma rápida análise da foto publicada na Folha, porém, contamos cerca de 8-9 lamelas por decímetro (i.e. a frequência lamelar é de cerca de 8-9). A frequência lamelar de M. columbi é de cerca de 4-7 para o molar 3 (verdade que há exemplares que chegam a 9 para o molar 1 superior). Por certo, outros elefantídeos têm frequência lamelar compatível com o dente encontrado - M. primigenius, p.e., tem uma frequência lamelar típica de 8-10.

No entanto, Richard White Jr., da International Wildlife Museum, observou, em um grupo de discussão sobre paleontologia de vertebrados, que a morfologia das lamelas parece mais compatível com uma capivara: apresentam uma curva sigmoide (em forma de "S") e duas delas parecem ter uma bifurcação - características de molares de capivaras, porém não de elefantídeos. (Claro que ele ressalva que é apenas uma interpretação em cima de uma foto publicada no sítio web do jornal.)

Na Figura 2, as fotos e ilustrações de molares para comparação.


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Figura 2. Painel superior, molar (figura G) de um hidrocoerídeo (Cardiatherium patagonicum): Vucetich et al. 2005. Painel central, dente amazônico não identificado (tentativamente atribuído a um elefantídeo, Mammuthus columbi, por Mario Cozzuol): Pedro Carrilho/Folhapress. (Setas indicam possíveis bifurcações) Painel inferior, molares de elefantídeos: Wikimedia Commons.

Em qualquer caso é uma descoberta que parece ser interessante. E somente estudos aprofundados poderão resolver a questão - eventualmente talvez até se descubra que seja uma espécie de um outro grupo (nunca subestime o poder da evolução convergente).

Obs1: Enquanto eu negociava a liberação da imagem da Folhapress, o jornalista Peter Moon, da Época, adiantou-se na publicação das informações. A Moon, Cozzuol reafirmou sua convicção de que se trata de um dente de elefantídeo. De fato, como também enfatizou White, a interpretação por fotografia, sem a posse do exemplar tridimensional, é altamente limitada.
Obs2: *Estava. O simpósio terminou dia 23/jul/2010.

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