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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ciência é prioridade? (parte 1)

Farei antes algumas digressões, necessárias a meu ver.

Neste blogue procuro não expressar minhas visões propriamente políticas - não apenas políticas partidárias, mas até de política científica. Não que não tenha tais opiniões ou que não as expresse. Faço isso alhures, como aqui. Não tampouco que considere que ciência seja um corpo absolutamente neutro de conhecimentos e que possa ser vista isoladamente de uma análise política.

Vamos digredirdigressionar* um pouco mais: política entendida aqui não na conotação um tanto preconceituosa, um tanto baseada na prática muito corriqueira que envolve a corrupção por parte das autoridades constituídas, de ações exclusivamente de poder - negociatas, acordos por baixo dos panos, puxadas de tapetes... Mas em seu sentido conforme entendido pelas sociologiaciências sociais, em seu ramo de ciências políticas, conjunto de atividades, preceitos e valores que procuram organizar a sociedade no atendimento de suas necessidades e resoluções de conflitos.

Mesmo considerando-se essa visão mais, digamos, neutra (nem é tão neutra assim) de política procuro não debatê-la neste blogue: em boa parte, justamente pela mencionada visão popular do que seja política. Em geral, o debate é prejudicado à partida por tal preconcepção.

No entanto, se vamos discutir a respeito de investimentos em ciências - se devemos investir, em que áreas investir, como investir - isso é inevitalmente uma discussão política. Ela envolve uma visão a respeito de como a sociedade deve organizar e direcionar seus recursos - seja através de instituições, seja através de um poder delegado, seja por meio de ações individuais.

A discussão não é fácil, cada pessoa tem sua visão particular e seus preceitos - não é algo estritamente objetivo, uma argumentação não irá se sustentar unicamente com dados e números sobre ciência e sociedade. Se a visão de cada um for irredutivelmente diferente e até incompatível, uma vez que haja um denominador comum do que podemos chamar de realidade, as conclusões tenderão a ser diferentes e até incompatíveis. Por exemplo, duas pessoas podem concordar que um indiozinho esteja doente - esse é um dado mais ou menos objetivo -, mas ambas podem discordar totalmente sobre como proceder com o curumim - tratá-lo ou não tratá-lo - com base em visões opostas sobre o que é ou não aceitável - podemos ou não interferir em outra cultura?

Para esta análise - de um ponto de vista absolutamente particular, eu sei, mas ainda assim espero poder convencê-lo, leitor solitário deste blogue, da validade da argumentação (se não concordar comigo, ao menos que veja que eu tenho um bom ponto a defender) - partirei da grande premissa:

- É prioridade ajudar os necessitados (o que inclui a questão de se remover as injutiças sociais, as iniquidades socioeconômicas, as oportunidades de acesso, a questão da educação, alimentação, moradia e coisas assim).

O ponto a que tentarei chegar é: considerando-se a grande premissa da prioridade social e dentro do diagnóstico que há muito o que se fazer para sanar os problemas sociais - no Brasil e no mundo - ainda assim é defensável a aplicação de recursos na casa dos bilhões de dólares em pesquisas como as que devem ser conduzidas no LHC ou na exploração espacial.

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Esta série se baseia na discussão relatada nesta postagem. @kenmori está a abordar a questão em seu blogue 100Nexos.

*Upideite(04/fev/2010): André Lima lembra nos comentários que 'digredir' não está dicionarizado. Não que eu tenha pudores de bancar neologismos - crio-os às pencas - e a palavra tem uso corrente mais ou menos disseminado (sem falar que é eufônica e expressiva), mas como já há polêmica suficiente no tema, não comprarei mais uma por ora nesta série de postagens.

Parte 2

4 comentários:

André disse...

Oi, Takata. Eu sugerir a substituição de "digredir" por "digressar", achando que a primeira palavra não existia. Bem, minha surpresa foi que os dicionários (pesquisei no Houaiss, no Priberam e no Wordreference) não indicam nenhuma das duas. :c) Existe "digressionar", mas acho que é pouquíssimo utilizada. Talvez "divagar" seja a melhor opção.

Ari disse...

Takata,
Pela experiência dos países com sociedades avançadas e em processo avanço, SEMPRE o investimento em ciência e tecnologia levou à redução dos problemas sociais. O assistencialismo apenas minora a situação de penúria mas não resolve. O dilema não deve ser o quanto investir em CT e em assistencialismo e sim como investir o máximo em CT para diminuir a necessidade de ajuda. O investimento em CT deve ser necessariamente prioridade naqueles países que realmente querem reduzir os problemas sociais. Aí entra a política: o retorno eleitoral do assistencialismo é imediato e CT não trás nenhum retorno no curto prazo.

André disse...

Ari, para mim não é tão nítida essa causalidade entre investir em C&T e reduzir desigualdade. Você sabe apontar estudos a esse respeito?

Ari disse...

André,

Não conheço nenhum estudo específico(peer review) de causalidade. Mas existem varios estudos (tente USP - estudos avançados) que apesar de não provar mostra uma fortíssima correlação: redução de mortalidade, doenças, fim da fome, expectativa de vida, educação, etc,etc,etc. Tudo isso vem a reboque em países com alto percentual de investimento em C&T/PIB. Exemplos: Coreia, Taiwan, Irlanda, Malásia, etc.

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