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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ciência é prioridade? (parte 3)

Dando seguimento à série, na postagem anterior eu disse que é relativamente fácil justificar o investimento em certas áreas como a pesquisa em saúde. É bom frisar o 'relativamente'. Não quer dizer que seja fácil de modo absoluto.

Poderíamos começar a justificar explicitando a quantidade de vidas salvas com as vacinas, p.e. No entanto, isso remete à condição passada - o quanto disso é extrapolável no presente? Alguns estudos projetam que o investimento de pouco mais de 5 bilhões de dólares anuais em 23 procedimentos já estabelecidos salvariam a vida de 6 milhões de crianças/ano. 3 milhões de crianças são salvas todos os anos pela aplicação de vacina e outras 2 milhões morrem por falta de imunização.

Então investir no desenvolvimento de vacinas foi importante. Hoje, no entanto, já temos tais vacinas. É importante continuar a investir nisso? Infelizmente, os agentes que hoje podem ser prevenidos com vacinas ou combatidos com antivirais e antibióticos evoluem com o tempo: individíduos resistentes são selecionados e seus descendentes proliferam, tornando os métodos atuais ineficazes. Mutações nas cepas de vírus e linhagens de bactérias tornam-nos capazes de escapar à proteção conferida por vacinas criadas contra cepas e linhagens ancestrais: vacinas contra gripes têm eficácia limitada às cepas de vírus da gripe circulando na temporada.

Além disso há um número muito maior de problemas de saúde para os quais ainda não se encontraram soluções adequadas. Um grande grupo de enfermidades conhecidas como doenças (tropicais) negligenciadas afeta mais de um bilhão de pessoas, mas a pesquisa para sua cura e tratamento recebe pouco investimento - especialmente da indústria farmacêutica pelo baixo potencial de retorno econômico (como afeta pessoas extremamente pobres, estas tendem a não ter condições de pagar pelo tratamento).

Claro que, para uma boa parte dos problemas de saúde, há uma solução tecnicamente muito simples, barata e bem documentada: mudança no hábito de vida - parar de fumar, diminuir a ingestão de bebidas alcoólicas e de alimentos gordurosos, moderar no uso de sal, não praticar a automedicação, ter hábitos de higiene pessoal (lavar as mãos antes e depois de manipular alimentos e utensílios domésticos e depois de usar o banheiro, escovar os dentes regularmente), praticar exercícios físicos leves, adotar dieta balanceada... (vide, e.g., aqui e aqui). E mesmo doenças infecciosas podem ser combatidas por medidas profiláticas que impeçam a proliferação de vetores ou o contato com os agentes etiológicos. Ainda assim um espaço importante só pode ser ocupado pelas eventuais soluções encontradas pela pesquisa científica na área médica.

Nessa de linha de raciocínio, não é à toa que a OMS considere a pesquisa em saúde como um investimento e não um custo. E isso pode ser pensado como mais do que uma metáfora, há estudos que analisam a questão realmente sob a perspectiva econômica.

Parte 4

2 comentários:

Luiz Bento disse...

Eu consideraria pesquisa com saúde totalmente aplicada. Então voto para priorizar áreas aplicadas...

none disse...

Salve, Bento,

Tb sou partidário à prioridade para áreas aplicadas - especialmente as que envolvem questões sociais.

O q pretendo defender é q investimento em áreas não-prioritárias tb podem ser justificados - dentro de uma cesta de investimentos.

[]s,

Roberto Takata

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