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domingo, 29 de novembro de 2009

O cálculo da forçante radioativa

A National Academy Press tem um livro publicado que explica as forçantes radiativas: o que são, como são calculadas, suas limitações...












sábado, 28 de novembro de 2009

Dos email roubados dos cientistas do IPCC

Não tenho por hábito comentar aqui no calor dos acontecimentos (em outros lugares sou menos, digamos, comedido) - na maior parte das vezes há ganho substancial: pois novos dados ajudam a esclarecer o que durante a hype ainda são apenas suposições ou mudam radicalmente as impressões iniciais.

Desse modo não queria comentar tão já a questão dos emails de pesquisadores da Climatic Research Unity que foram roubados do servidor da University of East Anglia, mesmo após alguns blogues influentes terem dado guarida (acrítica, na minha opinião) à tese conspiracionista de adulteração* por parte dos panelistas do IPCC: aqui e aqui. Mas um representante (representante aqui no sentido de espécime, indivíduo que pode ser classificado em um dado grupo)* dos negacionistas climáticos - cujas objeções à hipótese do aquecimento global já foram publicadas (e comentadas) no GR: aqui, aqui, aqui e aqui - adiantou-se nos comentários do blogue.

Não tenho muito (nada) a acrescentar às análises já feitas alhures por outrem. Recomendo estes textos:
The hacked climate science email scandal that wasn't
The CRU hack: Context
Climagate (só para assinantes)**
Climatologists under pressure***
ClimateGate: EXTRA! Cientistas conversam entre si!****

Esse episódio apenas reforça a minha impressão geral de que os negacionistas climáticos estão mais comprometidos com sua ideologia do que com bons dados: exatamente o que parte deles acusam os defensores da hipótese do aquecimento global antropogênico de serem.

Quanto à base de dados, os pontos gerais foram comentados na série sobre o aquecimento global: aqui, aqui e aqui.

Não colocarei o link aqui para as fontes onde podem ser obtida cópia dos emails roubados. Mas podem ser facilmente obtidas com uma busca rápida. São quase 62 MB abrangendo um período de 13 anos de troca de mensagens eletrônicas - mas está longe de ser uma base completa. Até o momento, o máximo que encontraram foi uma menção ao termo "trick" ("truque") para se referir a um modo de se compatibilizar duas bases de dados de temperatura.

From: Phil Jones
To: ray bradley ,mann@xxx, mhughes@xxx
Subject: Diagram for WMO Statement
Date: Tue, 16 Nov 1999 13:31:15 +0000
Cc: k.briffa@xxx,t.osborn@xxx


Dear Ray, Mike and Malcolm,

Once Tim's got a diagram here we'll send that either later today or
first thing tomorrow.

I've just completed Mike's Nature trick of adding in the real temps
to each series for the last 20 years (ie from 1981 onwards) amd from
1961 for Keith's to hide the decline. Mike's series got the annual
land and marine values while the other two got April-Sept for NH land
N of 20N. The latter two are real for 1999, while the estimate for 1999
for NH combined is +0.44C wrt 61-90. The Global estimate for 1999 with
data through Oct is +0.35C cf. 0.57 for 1998.
Thanks for the comments, Ray.

Cheers
Phil

Prof. Phil Jones
Climatic Research Unit Telephone +44 (0) 1603 592090 +44 (0) 1603 592090
School of Environmental Sciences Fax +44 (0) 1603 507784
University of East Anglia
Norwich Email p.jones@xxx

Para a explicação da expressão "hide the decline": aqui. Na dendroclimatologia - que envolve a avaliação da temperatura passada por meio do crescimento em anéis das árvores -, os dados desde 1850 até 1960 são compatíveis com os obtidos a partir de modelos que usam esses anéis; mas a partir da década de 1970, os registros de temperatura passam a divergir: os dados extrapolados a partir dos anéis indicam uma temperatura em declínio e os registros diretos das temperaturas (direto não é o termo exato, já que se valem de termômetros - isto é, a leitura na verdade é indireta - depende da leitura dos termômetros, em particular da altura da coluna do fluido, mercúrio ou álcool) indicam aquecimento. Phil Jones desenvolveu um modo, um "truque", que faz com que os dados dendroclimatológicos sejam compatíveis com os registros diretos de temperatura - esse a base desse* "truque" foi publicado no artigo de 1998 na Nature. Portanto, nada de escândalo real. Próximo!

*(29/nov/2009): atualizado a esta data.
**(29/nov/2009): atualizado a esta data. Observação impertinente: de fato, em alguns lugares, chamam a questão dos emails de 'climategate', bem ao gosto da Folha, que nomeia todo escândalo (real ou não) de X-gate: Collorgate, Dilmagate, Sarneygate... (qualquer dia ainda teremos: Colgate, Billgates, stargate).
***(02/dez/2009): atualizado a esta data.
****(03/dez/2009): atualizado a esta data.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A origem 150 - parte 7 de 7

Finalizando a série, alguns outro nomes que podem ser destacados, além de Darwin, Wallace e Matthew, são:

Anaximandro (?611-546 a.C.): filósofo jônio, desenvolveu uma visão evolutiva da vida - à sua maneira: da Terra, surgindo do apeiron (a substância primordial), coberta de água e lama. Da lama, surgiriam os primeiros organismos... os peixes. Estes, ao se arrastarem para fora da água teriam sofridos modificações - transmutação. De uma dessas transmutações, os humanos haveriam de surgir... Uma coincidência muito interessante com a visão filogenética moderna de que nós, Homo sapiens, além de macacos pelados, somos osteíctes de quatro patas (incidentalmente que usa as duas posteriores para caminhar e as duas anteriores para escrever em blogues).

Edward Tyson (1650-1708): médico inglês, em um impressionante estudo de anatomia comparativa, salientava a grande similaridade das características entre humanos e demais primatas.

James Burnett (1714-1799): juiz e linguista escocês, Lorde Monboddo. Alguns pesquisadores consideram que ele teriam chegado à concepção da seleção natural. Outros acham que sua influência é negligenciavel. De todo modo, Lorde Monboddo não era desconhecido de Darwin: em notas rascunhadas, Darwin o menciona, embora não no contexto de evolução, mas sobre linguagem.

Edward Blyth (1810-1873): farmacêutico e zoólogo inglês. Chegou, antes de Darwin, à concepção de seleção natural. Mas para ele a seleção não gerava nova espécies, apenas permitia sua variação. Darwin correspondeu longamente com Blyth.

O que importa saber:
1) Outros pesquisadores chegaram à mesma ideia básica antes ou conjuntamente com Darwin.
2) Darwin foi um dos que enxergaram mais longe o potencial da seleção natural na evolução dos organismos.
3) Darwin foi um dos que mais arduamente trabalharam em amealhar indícios sólidos à ideia da evolução por seleção natural.
4) A própria Teoria da Evolução evoluiu. E continua a evoluir, 150 anos depois.

Não resisto, termino esta homenagem/lembrança/comemoração com a batida (mas mais do que apropriada) citação da frase final de "A origem das espécies":

"There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed by the Creator into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being evolved."

A origem 150 - parte 6 de 7

Parte 5

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)

Em 1853, um celebrado geólogo, Conde Keyserling ('Bulletin de la Soc. Géolog.' 2nd Ser. tom. x. p. 357), sugeriu que uma nova doença, supostamente causada por um tipo de miasma, surgiu e se espalhou por todo o mundo, assim em certos períodos os germes das espécies existentes podem ter sido quimicamente afetados pelas moléculas circum-ambientes de uma natureza particular e assim ter dado origem a novas formas.

No mesmo ano, 1853, Dr. Schaaffhousen publicou um excelente panfleto. ('Verhand.des Naturhist. Vereins der Preuss. Rheinlands' etc), no qual ele defenre o desenvolvimento progressivo de formas orgânicas na terra. Ele inere que muitas espécies se mantiveram como tais por longos períodos, enquanto que algumas se modificaram. A distinção das espécies ele explica pela destruição das formas graduais intermediárias. "Assim plantas e animais atuais não são separados dos extintos por novas criações, mas devem ser considerados como seus descendentes através de reprodução continuada".

O famoso botânico francês, M. Lecoq, escreveu em 1854 ('Etudes sur Géograph. Bot.' tom. i. p 250), "On voit que nos recherches sur la fixité ou la variation de l'espèce, nous conduisent directement auxidées émises par deux hommes justement célèbres, Geoffroy Saint-Hilaire et Goethe". Algumas outras passagens espalhadas ao longo do grande trabalho de M. Lecoq tornam um pouco duvidoso o quão longe ele estende suas visões sobre a modificação das espécies.

A 'Philosophy of Creation' foi tratada de modo magistral pelo Rev. Baden Powell, em seu 'Essays on the Unity of Worlds', 1855. Nada pode ser mais pungente que o modo em que ele mostra que a introdução de uma nova espécie é "um fenômeno regular, não um casual" ou, como Sir John Herschel expressou "um contraste natural a um processo miraculoso".

O terceiro volume do 'Journal of the Linnean Society' contém o artigo, lido em 1o de julho, 1858, pelo Sr. Wallace e por mim, no qual, como dito nas observações introdutórias deste volume, a teoria da Seleção Natural é proferida pelo Sr. Wallace com força e clareza admiráveis.

Von Baer, a que todos os zoólogos sentem tão profundo respeito, expressou por volta do ano de 1859 (veja Prof. Rudolph Wagner, 'Zoologisch-Anthropologische Untersuchungen', 1861, s. 51) sua convicção, baseada principalmente nas leis da distribuição geográfica, que as formas agora perfeitamente distintas descendem de uma única forma parental.

Em junho, 1859, Professor Huxley deu uma palestra diante da Royal Institution sobre os 'Persistent Types of Anima Life'. Referindo-se a tais casos, ele observa,"É difícil de se compreender o significado de tais fatos como estes, se supusermos que cada espécie de animal e planta, ou cada grande tipo de organização, foram formados e colocados sobre a superfície do globo a longos intervalos por um ato distinto de poder criativo e é bom lembrar que tal suposição de um lado não pode ser sustentada com base na tradição e na revelação e de outro é contraditada pela analogia geral da natureza. Se, de outro modo, vimos as 'Persistent Types' em relação àquela hipótese que supõe que as espécies existentes a qualquer tempo são resultados da modificação gradual de espécies preexistentes - um hipótese que, embora não provada, e lamentavelmente estragada por alguns de seus defesores, é ainda a única a que a fisiologia pode dar algum apoio; suas existências pareceria mostrar que a quantidade de modificação por que tais seres passaram durante o tempo geológico é apenas uma pequena fração em relação à toda a série de mudanças por que passaram".

Em dezembro, 1859, Dr. Hooker publicou sua 'Introduction to the Australian Flora'. Na primeira parte desse grande trabalho ele admite a verdade da descendência e modificação das espécies e apoia essa doutrina em muitas observações originais.

A primeira edição deste trabalho foi publicada em 24 de novembro de 1859 e a segunda edição em 7 de janeiro de 1860.

Parte 7

A origem 150 - parte 5 de 7

Parte 4

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)


M. Isidore Geoffroy Saint Hilaire, em suas Palestras dadas em 1850 (das quais um Résumé foi publicado no ‘Revue et Mag. de Zoolog.’, jan. 1851), brevemente expressa seus motivos em crer que caracteres específicos “sont fixes, pour chaque espèce, tant qu’elle se perpetue au milieu des mêmes circonstances ambiantes viennent à changer”. “Em resume l’observation dês animaux sauvages démontre déjà la variabilité limitée dês espèces. Les expériences sur les animaux sauvages devenus domestiques, et sur les animaux domestique redevenus sauvages, la démontrent plus clairement encore. Ces mêmes expériences prouvent, de plus, que les différences produites peuvent être de valeur générique". Em sua 'Hist. Nat. Générale' (tom. ii. p. 430, 1859) ele reproduz conclusões análogas.


De uma circular recentemente publicada parece que Dr. Freke, em 1851 ('Dublin Medical Press', p. 322), declarou a doutrina que todos os seres orgânicos descendem de uma forma primordial. Suas bases de crença e tratamento do assunto são totalmente diferentes dos meus, mas como o Dr. Freke agora (1861) publicou seu Ensaio sobre 'A origem das espécies através da Afinidade Orgânica' a difícil tentativa de passar qualquer ideia de suas visões seria supérfluo de minha parte.

O Sr. Herbert Spencer, em um Ensaio (originalmente publicado no 'Leader', março 1852, e republicado em seu 'Essays' em 1858), contrastou as teorias da Criação e do Desenvolvimento de seres orgânicos com destacadas habilidade e força. Ele argumenta a partir da analogia de produções domésticas, das mudanças que os embriões de muitas espécies sofrem, da dificuldade de distinguir espécies de variedades e a partir do princípio da gradação geral, que as espécies se modificaram; e ele atribui essa modificação à mudança nas circunstâncias. O autor (1855) tambpem tratou a Psicologia pelo princípio de da aquisição necessária de cada faculdade e capacidade mental pela gradação.

Em 1852, M. Naudin, um destacado botânico, expressamente afirmou, em um artigo admirável sobre a Origem das Espécies ('Revue Horticole', p. 102; desde então parcialmente republicada em 'Nouvelles Archives du Muséum', tom. i. p. 171), sua crença em que as espécies são formadas de um modo análogo à que as variedades são sob cultivo e a último processo ele atribui ao poder da seleção pelo homem. Mas ele não mostra como a seleção age na natureza. Ele acredita, como o Deão Herbet, que as espécies, quando nascentes, eram mais plásticas que no presente. Ele põe peso no que ele chama de princípio da finalidde, "puissance mystérieuse, indéterminée; fatalité pour les uns; pour les autres, volonté providentielle, dont l'action incessante sur les êtres vivants détermine, à toutes les époques de l'existence du monde, la forme, le volume, et la durée de chacun d'eux, en raison de sa destinée dans l'ordre de choses dont il fait partie. C'est cette puissance qui harmonise chaque membre à l'ensemble en l'appropriant à la fonction qu'il doit remplier dans l'organisme général de la nature, fonction qui est pour lui sa raison d'être".*

*A partir de referências em 'Untersuchungen über die Entwickelungs-Gesetze' de Brunn parece que o celebrado botânico e paleontólogo Under publicou, em 1852, sua crença em que as espécies passam por desenvolvimento e modificação. D'Alton, do mesmo modo, no trabalho de Pander e d'Alton sobre Preguiças Fósseis, expressou, em 1821, uma crença similar. Visões similares, como é bem sabido, tem sido mantidas por Oken em seu místico 'Natur-Philosophie'. De outras referências no trabalho de Godron 'Sur l'Espèce', parece que Bory St. Vincent, Burdach, Poiret e Fries, todos admitiram que novas espécies estão sendo continuamente produzidas.

Eu posso acrescentar, que dos trinta e quatro autores nomeados neste Esboço Histórico, que acreditam na modificação das espécies ou, pelo menos, descrêem em atos de criação em separado, vinte e sete escreveram em ramos especiais de história natural ou geologia.

Parte 6

A origem 150 - parte 4 de 7

Parte 3

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)

O Professor Owen, em 1849 (‘Nature of Limbs’, p. 86), escreveu o que se segue: -“A ideia arquetípica foi manifestada em carne sob tais modificações diversas, neste planeta, bem antes da existência destas espécies animais que atualmente as exemplificam. A que leis naturais ou causas secundárias se submetem a sucessão e progressão ordenada de tais fenômenos orgânicos, nós ainda ignoramos”. Em seu “Address” à “British Association”, em 1858, ele fala (p. ii.) “o axioma da operação contínua do poder criativo ou do vir a ser ordenado das coisas vivas”. Mais adiante (p. xc.), após se referir à distribuição geográfica, ele acrescenta, “Estes fenômenos abalam nossa confiança na conclusão de que o Apteryx da Nova Zelândia e Lagópode Vermelho da Inglaterra são criações distintas nestas e para estas ilhas respectivamente. Também sempre é possível se ter em mente que pela palavra ‘criação’ os zoólogos querem dizer ‘um processo que ele não sabe o quê’. Ele amplifica a ideia acrescentando que, quando tais casos como o do Lagópode Vermelho são “enumerados pelos zoólogos como evidência de criação distinta das aves nestas e para tais ilhas, ele principalmente expressa que ele não sabe como o Lagópode Vermelho foi parar lá e apenas lá; significando também, por esse modo de expressar tal ignorância, sua crença de que ambos, a ave e as ilhas, devem suas origens a uma grande primeira Causa Criativa”. Se interpretarmos essas sentenças proferidas na mesma Address, uma pela outra, parece que esse eminente filósofo sentiu em 1858 sua abalada sua confiança em que o Apteryx e o Lagópode Vermelho surgiram inicialmente em seus respectivos lares, ‘ele não sabe como’, ou por um processo que ‘ele não sabe o quê’ Desde a publicação em 1859 de meu trabalho em ‘A origem das espécies’, mas se em conseqüência disso é duvidoso, Professor Owen tem claramente expressado sua crença em que as espécies não foram criadas separadamente e não são produções imutáveis, mas ele ainda (‘Anatomy of the Vertebrates’, 1866) nega que saibamos as leis naturais ou as causas secundárias da aparição sucessiva das espécies; embora ao mesmo tempo ele admita que a seleção natural pode ter feito algo nesse sentido. É surpreendente que essa admissão não tenha sido feita antes, na medida que Professor Owen agora acredita ter promulgado a teoria da seleção natural em uma passagem lida diante da Zoological Society em fevereiro, 1850 (‘Transact.’ Vol. Iv. P. 15); em uma carta à ‘London Review’ (5 de maio, 1866, p. 516), comentando sobre alguma crítica dos revisores, ele disse: “Nenhum naturalista pode discordar da verdade de V. percepção da identidade essencial da passagem citada com base dessa teoria [chamada darwiniana], o poder, viz., das espécies em se acomodarem, or se curvarem às influências das circunstâncias do ambiente”. Mais adiante na mesma carta, ele fala de si mesmo como “o autor da mesma teoria no início de 1850”. Essa crença do Professor Owen que ele deu ao mundo a teoria da seleção natural surpreenderá todos aqueles que conhecem várias passagens de seus trabalhos, revisões e palestras, publicadas desde ‘A origem’, na qual ele vigorosamente se opõem à teoria e irá deleitar a todos os que se interessam neste lado da questão, conforme possa se presumir que sua oposição não irá cessar. Isso pode, no entanto, significar que a passagem acima referida no ‘Zoological Transactions’, conforme encontrei ao consultá-la, aplica-se exclusivamente à exterminação e preservação dos animais e, em nenhum modo, a sua modificação gradual, origem ou seleção natural. Tão remota a chance disso ser o caso que o Professor Owen na verdade inicial o primeiro de dois parágrafos (vol. iv. p. 15) com as seguintes palavras:-“Não temos nem uma partícula de evidência de que qualquer espécie de ave ou fera que viveu durante o período pliocênico tenha seus caracteres modificados em qualquer aspecto pela influência do tempo ou de mudanças das circunstâncias externas”.

Parte 5

A origem 150 - parte 3 de 7

Parte 2

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)

O celebrado geólogo e naturalista, Von Buch, em seu excelente ‘Description Physique des Iles Canaries’ (1836, p. 147), claramente expressa sua crença que as variedades lentamente se tornam modificadas permanentemente em espécies, que não são mais capazes de se intercruzar.

Rafinesque, em seu ‘New Flora of North America’, publicada em 1836,escreveu (p. 6) como sefue: - “Todas as espécies podem ter sido variedades uma vez, e muitas variedades estão gradualmente se tornam espécies ao assumirem caracteres constantes e peculiares:’ mas mais adiante (p. 18) ele acrescenta, “exceto os tipos originais dos ancestrais do gênero”.

Em 1843-44, Professor Haldeman (Boston Journal of Nat. Hist. U. States, v. iv. P. 468) habilmente apresentou argumentos prós e contras a hipótese do desenvolvimento e modificação das espécies: ele parece se inclinar para o lado da mudança.

O ‘Vestiges of Creation’ apareceu em 1844. Na décima e muito melhorada edição (1853) o autor anônimo diz (p. 155): - “A proposição determinada após muita consideração é que as várias séries de seres animados, do mais simples e velho ao mais alto e recente, são, sob a providência de Deus, o resultado, primeiro, de um impulso que foi dado às formas de vida, avançando as, em tempos definidos, através das gerações, ao longo de graus de organização terminando nas dicotiledôneas e vertebrados superiores, esses graus sendo pouco numerosos e geralmente marcados por intervalos de caracteres orgânicos, que descobrimos ser a dificuldade prática em atribuir afinidades; em segundo lugar, de outro impulso conectado às forças vitais, tendendo, ao longo das gerações, a modificar as estruturas orgânicas de acordo com as circunstâncias externas, como comida, a natureza do habitat e os agentes climáticos, esta sendo as ‘adaptações’ dos teólogos naturais”. O autor aparentemente acredita que a organização avança em saltos súbitos, mas que os efeitos produzidos pelas condições de vida são graduais. Ele argumenta com muito força sobre a base geral de que as espécies não são produções imutáveis. Mas não consigo ver como os dois supostos “impulsos” explicam em um sentido científico as numerosas e belas coadaptações que vemos em toda a natureza; não consigo ver então que ganhemos qualquer insight sobre como, por exemplo, um pica-pau se tornou adaptado a seu hábito de vida peculiar. O trabalho, por seu estilo poderoso e brilhante, embora exibindo em suas primeiras edições pouco conhecimento acurado e uma grande necessidade de cautela científica, imediatamente obteve uma ampla circulação. Em minha opinião, ele fez um excelente serviço neste país de chamar a atenção para o tema, em remover o preconceito e, assim, preparar o terreno para a recepção de visões análogas.

Em 1846, o geólogo veterano M. J. d’Omalius d’Halloy publicou um excelente, embora curto, artigo (‘Bulletins de l’Acad. Roy. Bruxelles’, tom. xiii, p. 581), sua opinião é que é mais provável que as novas espécies tenham sido produzidas por descendência com modificação, do que que elas tenha sido criadas em separado: o autor promulgou sua opinião inicialmente em 1831.

Parte 4

A origem 150 - parte 2 de 7

Parte 1

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)


Geoffroy Saint Hilaire, como dito em seu ‘Life’, escrito por seu filho, suspeitava, já em 1795, que o que chamamos de espécies são várias degenerações de um mesmo tipo. Foi só em 1828 que ele publicou sua convicção que as mesmas formas não foram perpetuadas desde a origem de todas as coisas. Geoffroy parece ter se baseado principalmente nas condições de vida, ou “monde ambiant”, como causa da mudança. Ele foi cauteloso em tirar conclusões e não acreditava que as espécies existentes estivessem sofrendo modificações agora e, como seu filho acrescenta, “C’est donc um problème à réserver entièrement à l’avenir, supposé même que l’avenir doive avoir prise sur lui”.

Em 1813, Dr. W.C. Wells leu diante da Royal Society ‘An Account of a White Female, part of whose Skin resembles that of a Negro’, mas seu artigo não foi publicado até que seu famoso ‘Two Essays upon Dew and Single Vision’ aparecesse em 1818. Nesse artigo ele distintamente reconhece o princípio da seleção natural e este é o primeiro reconhecimento que foi indicado, mas ele o aplica somente às raças humanas e para somente para alguns caracteres. Depois de destacar que os negros e os mulatos têm uma imunidade à certas doenças tropicas, ele observa, primeiramente, que todos os animais tendem a variar em algum grau e, em segundo lugar, que os agricultores melhoram seus animais domésticos por seleção e então, ele acrescenta, mas o que é feito no último caso “pela arte, parece ser realizado com igual eficácia, embora mais lentamente, pela natureza, na formação de variedades da humanidade, ajustada às terras em que habitam. A partir de variedades acidentais no homem, que pode ocorrer entre os primeiros poucos e espalhados habitantes das regiões centrais da África, alguns seriam mais ajustado que outros a suportar as doenças desse país. Essa raça poderia consequentemente se multiplicar, enquanto outras diminuiriam; não apenas por sua inabilidade em barrar os ataques da doença, mas por sua incapacidade de enfrentar seus vizinhos mais vigorosos. A cor dessa raça vigorosa, tomo por garantido pelo que já foi dito, seria mais escura. Mas a mesma disposição para formar variedades ainda existem, uma raça mais e mais escura poderia surgir a medida que o tempo passasse; e a mais escura seria a mais bem ajustada ao clima, ela poderia ao longo do tempo se tornar mais prevalente, se não a única raça, em um dado país no qual se originou”. Ele então estende a mesma visão aos habitantes brancos de países mais frios. Estou em dívida com o Ver. Mr. Brace, dos EUA, por ter me chamado a atenção para a passagem acima do trabalho do Dr. Well.

O Hon. e Rer. W. Herbert, depois Deão de Manchester, no quarto volume de ‘Horticultural Transactions’, 1822, e em seu trabalho sobre as ‘Amaryllidaceae’ (1837, p. 19, 339), declara que “os experimentos horticulturais estabeleceram, além da possibilidade de refutação, que as espécies botânicas são apenas uma classe mais alta e mais permanente de variedades”. Ele estende a mesma visão aos animais. O Deão acredita que uma única espécie de cada gênero foi criada em uma condição original altamente plástica e que isso produziu, principalmente por intercruzamento, mas também por variação, todas as espécies existentes.

Em 1826, Professor Grant, no parágrafo final de seu bem conhecido artigo (‘Edinburgh Philosophical Journal’, vol. Xiv. P. 283) sobre Spongila, claramente declara sua crença de que as espécies são descendentes de outras espécies e que elas são melhoradas no curso da modificação. A mesma visão é dada em sua 55ª. Lecture, publicada em ‘Lancet’ em 1834.

Em 1831, Sr. Patrick Matthew publicou seu trabalho ‘Naval Timber and Arboticulture’, no qual ele apresenta precisamente a mesma visão sobre a origem das espécies que (atualmente a ser atribuída como) a proferida pelo Sr. Wallace e por mim na’Linnean Journal’ e como a ampliada neste presente volume. Infelizmente a visão foi dada pelo Sr. Matthew muito brevemente em passagens dispersas em um Apêndice de um trabalho de um assunto totalmente diverso, de modo que permaneceu sem ser notado até que o próprio Sr. Matthew chamou a atenção para ele no ‘Gardener’s Chronicle’ em 7 de abril, 1860. As diferenças da visão do Sr. Matthew da minha não são de muita importância: ele parece considerar que o mundo foi quase totalmente despovoado em períodos sucessivos e então repopulado e ele diz, como uma alternativa, que as novas formas podem ter sido geradas “sem a presença de nenhum limo ou germe de agregados predecessores”. Não estou certo de ter entendido certas passagens, mas parece que ele atribui muita influência da ação direta das condições de vida. Ele claramente viu, no entanto, a força total do princípio da seleção natural.

Parte 3

A origem 150 - parte 1 de 7

Charles Robert Darwin sem dúvida merece todas as homenagens feitas neste ano Darwin. Com a semana em que se completam 150 anos da publicação original de "A origem das espécies" muitos eventos estão programados (confira aqui e aqui alguns).

Quero aproveitar a efeméride para falar de alguns pontos que podem acabar um tanto obscurecidos com o brilho de Mr. Darwin. E quem melhor senão o próprio para falar do contexto histórico e dos predecessores da teoria da evolução por seleção natural?

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Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies

(On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life 4th edition. With additions and corrections (eighth thousand).)

Eu farei um esboço breve, porém imperfeito, do progresso da opinião a respeito da Origem das Espécies. A maioria dos naturalistas crê que as espécies são produções imutáveis e foram criadas em separado. Esta visão tem sido habilmente mantida por muitos autores. Alguns poucos naturalistas, por outro lado, acreditam que as espécies sofrem modificação e que as formas de vida existentes são descendentes por real geração de formas preexistentes. Deixando de lado alusões sobre o tema em autores clássicos*, o primeiro autor em tempos modernos a tratá-lo em um espírito científico foi Buffon. Mas suas opiniões variaram enormente em diferentes períodos e ele não se ateve às causas ou meios da transformação das espécies, não preciso detalhar aqui.

*Aristóteles, em seu ‘Phisicae Auscultations’ (lib. 2, cap. 8, s. 2), após destacar que a chuva não cai para fazer o grão crescer mais do que cai para estragar os grãos ao fazendeiro quando da colheita, aplica o mesmo argumento à organização; e acrescenta (conforme tradução do Sr. Clair Greece, que foi o primeiro a apresentar a passagem a mim), “Então o que impede às diferentes partes [do corpo] de ter tal relação meramente casual na natureza? como o dente, por exemplo, que cresce por necessidade, os frontais aguçados, adaptados a serem cravados, e os molares achatados e prestimosos para mastigar alimentos; uma vez que eles não foram feitos para esse propósito, mas são o resultado de acidente. E de um modo parecido com outras partes nas quais parece existir uma adaptação para um fim. Onde quer que, então, todas as coisas juntas (isto é, todas as partes de um todo) ocorrem como se feitas para alguma coisa, elas são preservadas, tendo sido apropriadamente constituídas por uma espontaneidade interna; e sempre que as coisas não forma assim constituídas, pereceram, e ainda perecem”. Aqui vemos o princípio da seleção natural prenunciada, mas o quão pouco Aristóteles compreendeu o princípio em sua totalidade é demonstrado por suas observações sobre a formação dos dentes.

Lamarck foi o primeiro cujas conclusões sobre o tema atraiu muita atenção. O, justamente, celebrado naturalista publicou sua visão inicialmente em 1801; ele a ampliou muito em 1809 em seu ‘Philosophie Zoologique’ e, posteriormente, em 1815, na Introdução de seu ‘Hist. Nat. des Animaux sans Vertèbres’. Nesses trabalhos ele sustenta a doutrina que todas as espécies, incluindo o homem, são descendentes de outras espécies. Ele primeiro fez o eminente serviço de atrair atenção à possibilidade de todas as mudanças no mundo orgânico, bem como no inorgânico, serem resultado de leis naturais e não de uma intervenção milagrosa. Lamarck parece ter sido levado a sua conclusão da mudança gradual das espécies principalmente pela dificuldade em distinguir espécies de variedades, pela quase perfeita gradação de formas em certos grupos e por analogia à produção doméstica. A respeito dos modos de modificação, atribui a alguma coisa à ação direta das condições físicas de vida, alguma coisa ao cruzamento de formas já existentes de vida e muito ao uso e desuso, isto é, aos efeitos do hábito. Para esta última causa, ele parece ter atribuído todas belas adaptações na natureza; - como o longo pescoço da girafa para comer as folhas dos galhos das árvores. Mas ele também acreditava na lei do desenvolvimento progressivo e, como todas as formas de vida tendem, então, ao progresso, a fim de explicar a existência no presente de produções simples, ele sustenta que tais formas são agora produzidas espontaneamente.*

*A data da primeira publicação de Lamarck peguei da obra de Isid. Geoffroy Saint Hilaire (‘Hist. Nat. Générale’, tom. ii, p. 405, 1859), excelente história da opinião sobre o tema. Em seu trabalho um detalhamento total é dado às conclusões de Buffon sobre o tema. É curioso quão amplamente meu avô, Dr. Erasmus Darwin, antecipou as visões e as errôneas bases da opinião de Lamarck em seu ‘Zoonomia’ (vol. i. pp. 500-510), publicado em 1794. De acordo com Isid. Geoffroy não há dúvidas que Goethe foi um partidário extremista de visões similares, como mostrado na Introdução de um trabalho escrito em 1794 e 1795, mas não publicado até muito tempo depois: ele observou pertinentemente (Goethe als Naturforscher, von Dr. Karl Meding, s. 34) que a questão futura dos naturalistas seria como, por exemplo, o gado ganhou seus chifres, e não para que eles são usados. Isso é um exemplo algo singular da maneira pela qual ideias similares surgem mais ou menos ao mesmo tempo, que Goethe na Alemanha, Dr. Darwin na Inglaterra e Geoffroy Saint Hilaire (como veremos logo) na França, chegaram à mesma conclusão sobre a origem das espécies, nos anos de 1794-5.


Parte 2

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Plágio? - 3

A história da acusação de plágio contra o trabalho de Sant'Ana et al. 2008 se complica ainda mais.

Folha Online: Trabalho de reitora da USP é acusado de outro plágio

A reportagem não esclarece quais os novos elementos de plágio que o grupo da UFRJ encontrou. Diz que são duas outras imagens as suspeitas. Mas não diz quais e nem de que trabalho teriam sido copiados sem atribuição da fonte.

Enviei um email à Dra. Angela Hampshire Lopes para saber desses detalhes.

Upideite(21/nov/2009): Contatada, a Dra. Angela Lopes não quis informar a respeito ou achou-se impedida disso.

Não julgo aqui a atitude da Dra. Angela Lopes - ela pode bem ter seus motivos. Mas esse caso me parece bem típico do que a sociedade tem pleno direito de saber a verdade a respeito. É compreensível a necessidade de preservar as partes enquanto uma avaliação definitiva não é realizada - para não condenar inocentes ou absolver os culpados em um prejulgamento. Por outro lado, trata-se de pesquisa financiada com dinheiro público e, pior, de pesquisa na área da saúde. Se há suspeição a respeito de uma pesquisa, a população precisa ser informada dos motivos. Bem como a respeito dos critérios de julgamento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Gene Repórter ano 2

(Imagem composta a partir de diversas fontes: água-viva, Cebimar-IBUSP;
representação da GFP, Wikimedia Commons; chama de vela, FreeFoto.)


Dia 27 de novembro completará um ano da primeira postagem no Gene Repórter. Para comemorar, promoverei um sorteio, a inscrição é simples: basta preencher o formulário abaixo. (Pode ser útil ler esta reportagem antes.)




Upideite(18/nov/2009): O prazo para inscrição vai até o dia 31/12/2009 às 23h59 de Brasília.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

To the infinity and beyond...

Que Madonna que nada. Quem visita estas paragens tupiniquins agora é Edwin Eugene Aldrin Jr, Buzz Aldrin. Sim, todo mundo sabe que ele esteve na missão Apollo 11, descendo ao solo lunar um tempo depois de Neil Armostrong. É autor de uma das descrições mais poéticas de nosso satélite natural: "magnificent desolation".

A Marília Juste, no G1, faz cobertura da visita - ela ganhou até um beijo na bochecha do velho astronauta (terá coragem de lavá-la depois disso)? Cordial e espirituoso ao dizer que sua recepção na chegada ao Brasil foi melhor do que na sua ida à Lua, também irascível ao socar um coió negacionista da conquista espacial. Homenageado pela Disney/Pixar na figura da personagem Buzz Lightyear, o patrulheiro espacial; teve uma participação especial como ele mesmo em um episódio de "The Simpsons": "Deep Space Homer".

Abaixo alguns vídeos com Aldrin.


Explicando o pouso na Lua


Relata sua experiência na Apollo 11

Aqui fotos do local de pouso da missão Apollo 11. feita pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter:

Mala influenza - 14

Número de casos - eixo principal:
25 confirmados em 24/abr/2009; 503.536 casos confirmados em 13/nov/2009.
Mortes - eixo secundário:
7 em 27/abr/2009; 6.260 em 13/nov/2009.
(Como, seguindo recomendação da OMS, muitos países reportam apenas os casos graves, o índice de mortes por mil casos não será mais calculado. O total de países e territórios também deixará de ser divulgado por haver atingido a quase totalidade dos países da OMS.)

Fonte: OMS.

No Brasil: estranhamente o MS não atualizou mais os boletins epidemiológicos sobre a gripe A(H1N1), o último data de 31/ago/2009.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

(Auto)plágio?

Osame Kinouchi do Semciência postou nos comentários da postagem anterior uma observação anônima que ele recebeu a respeito do trabalho de Sant'Ana et al. 2008.

A figura 2 de Sant'Ana et al. 2008 seria uma modificação da figura 4 de França et al. 2007 (o primeiro trabalho citado nas referências de Sant'Ana et al. 2008 e também do grupo de trabalho de Andreimar M. Soares). Compare as duas abaixo.


Agora compare os painéis '4b' com '2b' e '4c' com '2a'.


Embora os organismos-alvo sejam os mesmos: leishmânias nos painéis superiores e tripanossomos nos painéis inferiores e se tratem todos de oxidades de L-aminoácidos (LAAOs), são extraídas de espécies distintas de Bothrops. Bjar se referindo à jararaca (B. jararaca), Bjussu à jararacuçu (B. jararacussu) e Bmoo ao jararacão (B. moojeni).

O fato de haver uma conservação da estrutura tridimensional, a despeito de pequenas diferenças na sequência primária, poderia explicar uma ação similar. De fato, quando comparamos os painéis 4a e 4b de França et al. 2007, notamos que as curvas são bastante parecidas.

Parecidas, mas não idênticas. A sequência primária da Bjar LAAO-I e da Bjussu LAAO-I não são idênticas, mas muito parecidas. P.e., a primeira começa com:ADDKNPLEEC FRETDYEEFL; a segunda com: ADDRNPLEEC FRETDYEEFL. De uma lisina (K) para uma arginina (R). Mas as sequências da Bmoo LAAO-I e Bjussu LAAO-I também são muito parecidas (as 70 primeiras posições de resíduos de aminoácidos são idênticas) e os gráficos, embora similares, apresentam diferenças reconhecíveis.

Se não errei nas contas, há mais diferenças entre Bjar LAAO-I e Bjussu LAAO-I - 11 posições com resíduos distintos - (ou Bmoo LAAO-I - 16 resíduos) do que entre Bjussu LAAO-I e Bmoo LAAO-I - 5 posições com resíduos diferentes. Bjar LAAO-I também é um pouco maior: 484 resíduos de aminoácidos contra 470 dos outros dois. Era de se esperar então que o gráfico de Bjar LAOO-I fosse mais diferente? Se as diferenças se concentrarem em regiões com algum efeito cinético, sim. Mas se as diferenças se concentrarem em regiões relativamente inertes quanto a reações químicas e que não mude a estrutura da proteína, o modo de ação poderia ser virtualmente idêntico.

De todo modo, mesmo que fossem a mesmíssima proteína, era de se esperar gráficos ligeiramente distintos, por conta da ação de outros fatores, que fazem com que um ensaio não seja exatamente igual a outro.

A coisa está mesmo estranha. Tentarei falar com o Prof. Dr. Andreimar M. Soares para falar a respeito dos gráficos e ouvir o que pode estar ocorrendo.

Upideite(13/nov/2009): Para facilitar a comparação fiz uma sobreposição dos dados (extraídos a partir das coordenadas dos pontos das figuras - creio que as legendas sejam mais ou menos autoexplicativas):

Upideite(13/nov/2009): Já havia destacado na outra postagem sobre o tema, mas é sempre bom alertar que não pretendo aqui fazer nenhum pré-julgamento. Entrei em contato com o Prof. Dr. Andreimar para ver se ouvehouve mesmo algum erro ou se os dados são mesmo tão similares.

Upideite(16/nov/2009): O Prof. Dr. Andreimar Soares respondeu gentilmente às minhas mensagens. Pedi uma entrevista, mas, compreensivelmente, ele prefere que isso seja feito depois da sindicância ter sido finalizada. O que ele confirma é que os gráficos não teriam sido trocados e que os dados são diferentes: a semelhança, segundo o pesquisador, deve-se às semelhanças da proteína.

Upideite(18/nov/2012): Bem, agora que já faz mais de ano da decisão final, creio que eu possa fazer uma observação a respeito da coincidência dos dados. Mesmo que se tratasse da *mesma* proteína, a probabilidade de a repetição das medidas produzirem tal concordância é muitíssimo baixa. Sobretudo para L. braziliensis - a barra de erro é uma indicação da variação casual da medida. Se representa o desvio padrão, assumindo-se a hipótese da normalidade da variação, aproximadamente 68% das vezes, a média de uma reamostragem nas mesmas condições estaria dentro do intervalo dado pela média±desvio padrão. O desvio para os pontos de L. braziliensis é de quase 5p.p. As médias de cada ponto se sobrepõe de modo praticamente total - mas se considerarmos um desvio de 1p.p. para mais ou para menos, isso nos dá um escore z de ±0,20. Somente cerca de 8% das vezes as médias de uma repetição cairia dentro do intervalo de ±1p.p. Como são três pontos, a probabilidade dessa coincidência ocorrer ao acaso é de (8%)^3 ~ 0,0005 = 0,05%; isso apenas para o caso da L. braziliensis. Então mesmo que se tivesse usado a mesma enzima, nas mesmas condições, com os mesmos indivíduos, a probabilidade de se obter uma variação igual ou menor do que a obtida seria de menos de 0,05%. Bom dizer que não afirmo com isso que houve fraude, isso mostra apenas que é altamente improvável que haja coincidência casual - poderia, por exemplo, ter havido uma troca acidental dos dados.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Limitações das ciências: fraudes

A propósito das discussões suscitadas pelo mais recente caso de plágio na USP, reproduzo abaixo trecho de um ensaio mais longo (em verdade, mais uma colcha de retalhos) que estou preparando (no andar da carruagem não termino antes do mundo acabar em 2012)*.

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Várias outras limitações surgem às ciências em função dela ser uma atividade humana. Não obstante, a mais insidiosa certamente é a adulteração deliberada dos dados: a fraude. Há vários motivos por que alguém relataria um achado falso. Ser o primeiro a anunciar a realização de um feito perseguido por vários outros pesquisadores é uma glória que satisfaria a muitos: no entanto, somente uma pessoa pode obter esse feito. E isso pode depender de recursos que não estão disponíveis ao pesquisador, ou ele pode estar sem sorte. Atualmente existe ainda a pressão por publicações: o pesquisador que não lança artigos a uma certa taxa é tido como improdutivo, preguiçoso e imerecedor de promoções ou da própria manutenção do cargo. Talvez a filha dele esteja doente, ele não tenha tido muito tempo para se dedicar às pesquisas e o órgão financiador ameaça suspender o financiamento de seu trabalho, o que mancharia seu currículo. Certamente uma fraude mancha de modo mais profundo e permanente, mas conquanto não seja descoberta... Vira um jogo. Um jogo duplamente perigoso. Não apenas à carreira do pesquisador, mas ao próprio sistema de produção de conhecimento científico: altamente dependente de uma relação de confiança. Há mecanismos para tentar inibir a fraude ou erros não propositais: os trabalhos devem apresentar a metodologia de modo que outros pesquisadores possam tentar replicar os achados, os artigos são submetidos ao exame de outros pesquisadores na área para que possam tentar detectar erros e sugerir melhorias. Mas não são mecanismos à prova de falhas. E há até mesmo uma forte pressão para que tal procedimento seja revisto, em parte, novamente, pela pressão para a publicação: o processo de revisão pelos pares tende a tornar tudo muito mais lento e custoso. Se erros são detectados após a publicação, os trabalhos podem ser retirados (na prática anuncia-se que eles não são mais válidos, se estiverem em servidores web o arquivo é removido do diretório e substituído por uma mensagem de alerta) por iniciativa da publicação e/ou dos autores do trabalho.

Estas fraudes, disse, minam a razão de ser do processo científico. É como a presença de notas falsas circulando no mercado. Isso debilita a credibilidade do sistema: quem recebe as notas não sabe se poderá trocá-las por produtos e serviços e tende a se recusar a recebê-las, independentemente de se são verdadeiras ou falsas. Tal fato foi usado como arma de guerra. Durante a Segunda Guerra, a Alemanha nazista, na operação Bernhard, produziu um grande número de libras falsas (estima-se que a produção correspondeu a um valor equivalente a 15% do montante de libras circulante à época), empregando as habilidades de prisioneiros judeus do campo de concentração de Sachsenhausen. O governo britânico, percebendo que poderia abalar a credibilidade da moeda do país, decidiu aceitar tais notas como meio circulante – retirando-as gradativamente à medida que chegavam aos bancos e eram detectadas. Certamente houve prejuízos, entretanto a alternativa: a dissolução da confiança na moeda, provavelmente traria danos ainda maiores. O episódio foi retratado em 2007 em um filme austríaco ganhador do Oscar, Die Fälscher (Os falsários).

Mas a aceitação de trabalhos científicos com resultados falsos não é possível. Se fraudes ocorrem em pequena escala, o problema é circunscrito. Infelizmente há indicações de que atualmente a prática não é tão rara. Na condição de manterem anonimato, 33% de 3.247 cientistas americanos pesquisados da área da saúde admitiram ter incorrido (nos três anos anteriores à pesquisa) em algum tipo de conduta antiética na pesquisa (plágio, não dar atenção ao contraditório, não prestar atenção nas falhas das análises de terceiros, etc.), 0,3% admitiram algum tipo de falsificação dos dados (Martinson, BC et al. 2005. Scientists behaving badly. Nature 435: 737-8). Em um estudo meta-analítico, 33,7% dos cientistas admitiam alguma conduta reprovável e 1,97% admitiam ter adulterado os dados pelo menos uma vez (Fanelli, D. 2009. How many scientists fabricate and falsify research? A systematic review and meta-analysis of survey data. Plos One 4(5): e5738. Acessado em: 16 de julho de 2009. Disponível em: http://www.plosone.org/article/info:doi/10.1371/journal.pone.0005738).

2% de fraude pode não parecer grande coisa, mas um levantamento de 2006 detectou 632 remoções de artigos (“retractions”) na base de dados PubMed (Liu, SV. 2006. Top journal’s top retraction rates. Scientific Ethics 1: 91-3). Claro, não são todas as remoções que correspondem a um caso de fraude, na verdade, os casos de remoções por fraude são bastante raros**. Se considerarmos um número mais modesto dos 0,3% reportados no trabalho de Martinson e colaboradores (2005), os 632 trabalhos corresponderiam a um total de pouco mais de 210.000 trabalhos (se considerarmos os 2%, seriam pouco menos de 32.000 artigos). O número total de artigos indexados na base é muito maior do que isso [em 1995, a base Medline do PubMed tinha mais de 9 milhões de artigos indexados (Schulman, J-L. 2000. Using medical subject headings (MeSH) to examine atterns in American medicine. Acessado em: 17 de julho de 2009. Disponível em: http://www.nlm.nih.gov/mesh/patterns.html.); em 2008, mais de 16 milhões (Medline. 2008. Fact sheet: Medline. Acessado em 17 de julho de 2009. Disponível em: http://www.nlm.nih.gov/pubs/factsheets/medline.html).] Então o processo de depuração (a autocorreção das ciências, na visão de Sagan) não parece mesmo estar dando conta – a situação fica ainda mais complicada se considerarmos o universo de ações reprováveis e erros na produção do trabalho que justificariam sua remoção. Por alto (e sendo generoso), o processo de depuração científica está trabalhando a uma taxa de apenas 2% de eficiência – 98% das fraudes e erros cometidos se acumulam, indetectados, na literatura científica mundial (atenção ao leitor ou leitora que tenha lido o trecho anterior com alguma pressa: não se disse que 98% da literatura científica contenha fraude ou erro, mas sim que, dentre os artigos que têm problemas, 98% passam incólume pela revisão posterior a sua publicação).

Todas essas questões e limitações e ocorrências de fraudes, um número delas certamente não detectado, devem fazer um cidadão consciencioso refletir sobre qual então a validade de tudo aquilo que se nos apresenta como conhecimento científico chancelado pela comunidade de pesquisadores.
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*Upideite(29/nov/2009): A carruagem não acelerou, mas o ensaio não completamente finalizado pode ser obtido aqui.

**Upideite(05/out/2012): Aparentemente não são tão raros assim. Um estudo de Fang e cols. (2012) encontrou que 43,4% dos artigos removidos desde 1975 na base Pubmed o foram devido a fraude, 14,2% por duplicação de publicação e 9,8% por plágio.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Plágio?

O tema levantado por Eduardo Geraque da Folha (o artigo pode ser lido no blogue do Nassif) está a toda. Rafael Soares do RNAm já comentou, Marcelo Leite do Ciência em Dia também, Osame Kinouchi no Senciência (não confundir com Semciência) levanta uma série de questões. A Reitoria da USP divulgou nota. (Vários outros órgãos da imprensa também deram destaque ao caso, como o G1, o R7, iG... e toda a sopa de letrinhas internéticas.)

Eu, como de costume, não irei comentar no calor dos acontecimentos: há muito espaço para prejulgamentos - que, em geral, é mau conselheiro. Apurem-se os responsáveis e as devidas (e justas) sanções sejam aplicadas, bem como contramedidas efetivas para que os erros não se repitam.

Sem julgar pessoas, comento apenas o óbvio: as fotos são sim as *mesmas* - apenas que as do artigo de Sant'Ana et al. 2008 são um recorte das de Rosa et al. 2003 - e, como noticiado, não há menção da fonte original no artigo de Sant'Ana et al. 2008. Plágio? Sim. Plágio. Tecnicamente é um plágio. Se intencional, é um delito ético de grande monta.

Mas, eu e minhas idiossincrasias, noto um problema mais grave. Na legenda do artigo original (de Rosa e colaboradores), as fotos são atribuídas a Leishmania amazonensis (tratadas com óleo de Croton cajucara - caá-juçara e outras denominações populares) Já no artigo de Sant'Ana e colegas, as mesmas fotos - '3.A' a '3.C' (correspondentes às imagens '3.A', '3.D' e '3.E' de Rosa et al.)- são atribuídas a Trypanosoma cruzi (tratados com uma proteína extraída do veneno de Bothrops jararaca - sim, de jararaca). Isso introduz um *erro* factual, uma informação falsa. (Sim, erro de autoria também é um erro de informação, mas aqui é um erro quanto a um dado científico.) Isto é, se houve intenção por parte de alguém, teremos um caso de fraude.


Repito, analiso apenas as consequências potenciais, não quero aqui fazer prejulgamentos. Até prova em contrário, os erros - que existem e não se pode negá-los -, serão de natureza involuntária.

Upideite(05/nov/2009): O texto do RNAm foi atualizado enquanto eu produzia esta postagem. Lá consta também a observação em relação à troca das informações sobre a espécie a que as fotos se referem.
Upideite(05/nov/2009): O que torna a história mais complicada é que não formaforam apenas fotos, mas dois trechos do texto também foram plagiados.
Upideite(05/nov/2009):Em verde, o original de Rosa et al., em vermelho, a cópia de Sant'Ana et al.
"Untreated and treated (15.0 ng of essential oil per ml) promastigotes were observed by transmission electron microscopy, and photomicrographs of the promastigotes are shown in Fig. 3A to E, which show promastigotes with different degrees of damage. Disruption of flagellar membranes, mitochondrial swelling, and gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were detected. After 30 min in the presence of essential oil the parasites were completely destroyed." (p. 1898)
"Mitochondrial swelling and important alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were observed by electron microscopy when L. amazonensis parasites were treated for 20 to 30 min with 15.0 ng of essential oil from C. cajucara per ml (Fig. 3). " (p. 1900)
"Untreated and treated promastigotes (L. amazonensis) and epimastigotes (T. cruzi) were observed by transmission electron microscopy. Photomicrographs of the promastigotes with different degrees of damage are shown in Fig. 3. For treated T. cruzi with BjarLAAO-I, disruption of flagellar membranes, mitochondrial swelling and gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were detected. After 24 h in the presence of 15 μg of BjarLAAO-I, the parasites were completely destroyed (Fig. 3A–C). Mitochondrial swelling and important alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were observed by electron microscopy when L. amazonensis parasites were treated with 5.0 μg/ml of BjarLAAO-I (Fig. 3D and E)." (p. 283/6)

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